
*José Lins
“Estrada Manaus Itacoatiara”, obra de José Lins, é aqui republicada em série com a devida autorização gratuita do Governo do Estado do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, Departamento de Gestão de Bibliotecas (DGB) e seu Centro de Documentação e Memória da Amazônia (CDMAM). A republicação tem fins exclusivamente históricos e culturais.
EDITADO PELO GOVÊRNO DO ESTADO DO AMAZONAS
Secretaria de Imprensa e Divulgação
Palácio Rio Negro
Continuação…
De 1926 a 1029.
14 de junho de 1926, na abertura da primeira sessão ordinária da Assembléia Legislativa, no Govêrno do Presidente do Estado do Amazonas, Ephigênio Ferreira de Salles, foi apresentada Mensagem da qual transcrevemos a parte referente à
ESTRADA DE ITACOATIARA – “Outra expedição foi mandada explorar o terreno porque deve passar a estrada que ligará à Itacoatiara, no Baixo Amazonas. Ficou composta de onze homens que iniciaram a picada na praça Benjamim Constant no Bairro da Cachoeirinha, a 27 de maio último, devendo acompanhar os vales dos rios Prêto e Urubu. Êsse serviço ficou contratado pela importância de 12:000$000, da qual metade se entregou à Comissão, na ocasião do início da picada, pagando-se o restante depois de terminada a exploração.
Estou informado de que os mateiros têm encontrado relativa facilidade na execução do trabalho da picada, de dois metros de largura, não tendo transposto até a altura do Antimari nenhum igarapé ou corte que obrigue construção de obra de arte.
Terminadas essas explorações e estudos preliminares, tratarei de atacar as obras, contando aumentar para isso o efetivo da Fôrça Policial, de modo a ter sempre nos serviços das Estradas uma companhia dessa unidade que auxiliará a construção”.
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Dessa forma, embora em caráter preliminar, os trabalhos de construção da estrada Manaus-ltacoatiara, aos 21 poucos, foram ganhando terreno e o ímpeto criador da rodovia crescia cada vez mais, conquanto, mais tarde, viesse a cair numa fase prolongada de esquecimento.
A 14 de julho de 1927, por ocasião da abertura da segunda reunião ordinária da 13.ª Legislatura, o senhor Antônio Monteiro de Souza, Presidente da Assembléia Legislativa que respondia pela Presidência do Govêrno do Estado, em face do impedimento do seu titular, reafirmava, em Mensagem dirigida àquele Poder, a necessidade da construção da estrada. São de Monteiro de Souza, a propósito, estas palavras:
– “Não tendo atingido o fim colimado a primeira expedição já referida na Mensagem anterior, cujo relatório foi publicado no Diário Oficial n.º 4.800, de 29 de outubro do mesmo ano, não desanimou o Govêrno do seu objetivo, e nova expedição foi contratada, de acôrdo com a Portaria n.º 65 do senhor Secretário do Estado, em obediência às instruções da Presidência com os srs. Luiz Ogden Collins e Aquino de Souza.
Essa expedição, composta de 17 homens, partiu de Manaus para Itacoatiara, donde, convenientemente aparelhada, seguiria viagem em canoas, em demanda do rio Urubu até encontrar a picada aberta pela primeira expedição.
As últimas notícias recebidas dos expedicionários haviam chegado a 4 de abril no alto Atumã e partiam em rumo ao Jatapu, para dêste rio demandarem o Anauá. Entre o rio Urubu e o Atumã avaliaram a distância em 86 quilômetros em linha reta. A parte da expedição que seguira por terra estava em boas condições sanitárias, a que seguira por água tinha alguns doentes, mas sem gravidade.
Deu cabal desempenho ao serviço de que foi encarregada, sob a chefia do mateiro Pedro de Deus, a expedição Manaus-ltacoatiara.
Consoante o relatório publicado no “Diário Oficial”, n.º 9.479, de 28 de outubro do ano passado, a picada, atravessando sômente os cursos d’água inevitáveis, tem 303 quilômetros de extensão, por 2 metros de largura, tendo sido gastos 133 dias de trabalho, assim discriminados : 30 dias com dez homens, de até o lago do Jatuarana e 103 com dezoito homens divididos em duas turmas, das quais a primeira composta de 9 homens, seguindo de Jatuarana rumo do rio Urubu e a segunda também de 9 homens dêsse rio até Itacoatiara”.
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O relatório a que Monteiro de Souza se refere na sua Mensagem, e que foi publicado no “Diário Oficial” do Estado n.º 9.479, de 28 de outubro de 1926, é do seguinte teor :
– “Exmo sr. dr. secretário geral do Estado.
– Tenho a honra de vir pelo presente dar conta da incumbencia que por v. exc. me foi commettida de abrir uma picada que ligasse esta capital à cidade de Itacoatiara. Procurei na medida do possivel, corresponder à confiança que em mim depositou v. exc., abrindo essa picada em terras firmes, atravessando sómente os cursos d’agua, que a meu vêr não podia deixar de fazer, dada a economia de tempo e o grande trabalho que trazia a procura dos seus divisores.
Nessa picada que tem 303 kilometros de extensão, por uma largura de 2 metros, gastei 133 dias de trabalho assim discriminados: – 30 dias com 10 homens, de Manaós até o lago do Jatuarana e 103 dias com 18 homens divididos em duas turmas, das quaes a primeira composta de 9 homens, seguiu do Jatuarana no rumo do rio Urubú, 23 e a segunda tambem de 9 homens, desse rio até Itacoatiara. O terreno que esta atravessa é de constituição bôa para todas as culturas, tendo encontrado no meu percurso grandes seringaes nativos, balataes, copahibaes e todas as especies de madeiras de lei, tendo no entretanto encontrado poucas castanheiras sylyestres. Sómente próximo ao lago de Serpa estes se avolumam em maior quantidade, constituindo ver- dadeiros castanhaes, mas esses ja derrancados e de propriedade particular.
Em todo o percurso encontrei 57 ladeiras, tendo otravessado 66 igarapés e 3 rios. Das ladeiras 6 são muito pro- nunciadas, ao passo que as outras têm o declive mais leve. Os igarapés têm em média uma largura de 12 metros numa profundidade diminuta, sendo, no entanto, as ladeiras que os marginam de um declive em media de 50 metros. Os rios que atravessei foram: O Preto a 93 kilometros de Manáos, o Urubú a 209 e o Carú a 257. Onde atravessei esses rios, êlles medem 18 metros o rio Preto, 1.000 metros o Urubú, e 80 metros o Carú. Com tres dias de viagem a cima desse logar onde atravessei, encontra-se o logar Lindoya, onde existe uma cachoeira com a largura de 50 metros e com pouca queda. Penso que a estrada deverá atravessar nesse logar, caso se queira fazer uma ponte.
“Discriminando o serviço e para bôa elucidação de v. exc. organisei a seguinte tabella, onde mostro o meu per- curso, assignalando as distancias e os accidentes que encontrei.

São estas as informações que tenho a prestar a v. “exc., pensando assim ter-me desobrigado do serviço que v. exc. teve a bondade de confiar a minha humilde pessoa. Saúdo a v. exc. – Por meu pae Pedro de Deus, João de Deus”.
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No último ano do seu Govêrno, em 1929, Ephigênio de Salles, por ocasião da abertura da primeira sessão ordinária 14.ª Legislatura, lia Mensagem que trazia, no seu corpo, estas considerações a respeito da estrada Manaus-Itacoatiara:
– “Oferece indiscutível relevância, no conjunto das linhas que vêm tecendo o nosso systema rodoviário, a estrada que, passando pelo lago do Aleixo, vai em busca de Itacoatiara.
Vinculada á do Rio Branco, no kilômetro 0,500 desta á praça de Nazareth, na Villa Municipal, tem sôbre o seu objetivo principal, que é a ligação terrestre Manaus- Itacoatiara, a vantagem de ir logo servindo aos agricultores disseminados nas nossas cercanias, notadamente os que se agrupam nas terras do referido lago, onde já se faz uma futurosa lavoura.
Aludi, em mensagem passada, aos estudos efetuados para realização dessa estrada e que lhe indicavam, como melhor ponto de partida, o kilômetro 35 da do Rio Branco. Estudos e reconhecimentos posteriores, modificaram, entre- tanto, a orientação pelo que, atendendo a motivos de ordem técnica e econômica, resolveu o governo lançar a estrada do seu atual ponto de partida, com direção aos lagos do Aleixo e Puraquequara, e picadas do Telégrafo e de Pedro de Deus.
Em consequência dessa alteração de traçado, fiz ainda aproveitar os trabalhos preliminares que tinham início na Parada do Flores, para rasgar uma variante até a Colonia João Alfredo, onde se localizassem os mais distanciados moradores.
De estrada de Itacoatiara se acham prontos 8 kilômetros com 5 boeiros de três de 15 polegadas e 4 capeados de madeira.
Ainda no corrente ano, espero que a estrada atinja o lago do Aleixo”.
Continua na próxima edição…
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