
*Osvaldo Silva
Outro dia, parado diante de uma linha de montagem em Manaus, fui surpreendido por uma cena que me fez repensar muita coisa. Um sistema inteligente identificava defeitos em peças com uma precisão que nenhum olho humano conseguiria alcançar. Ao meu lado, um operador veterano observava a máquina trabalhar em silêncio. No olhar dele, havia uma mistura de admiração e inquietação que traduzia perfeitamente o momento que vivemos: até onde podemos ir sem perder de vista o que nos torna humanos?
A transformação digital no Polo Industrial de Manaus não é mais uma promessa distante. É o presente que pulsa nas fábricas, nos galpões, nos escritórios administrativos. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, prevê investimentos de até vinte e três bilhões de reais nos próximos quatro anos para consolidar a tecnologia como eixo estratégico do desenvolvimento nacional. O Amazonas, historicamente pioneiro na indústria eletrônica brasileira, encontra-se no epicentro dessa revolução.
Mas o que me impressiona não são os números grandiosos nem as promessas de eficiência. É a pergunta silenciosa que paira sobre cada trabalhador: o que será de mim amanhã? Estudos recentes indicam que mais de trinta milhões de brasileiros já estão expostos, em maior ou menor grau, às transformações trazidas pela inteligência artificial generativa. No primeiro trimestre de 2025, isso representava pouco mais de trinta por cento dos ocupados no país. Não estamos falando de um futuro hipotético. Estamos falando do agora.
A discussão sobre regulamentação da inteligência artificial no Brasil ganhou corpo com o Projeto de Lei 2338/2023, que busca estabelecer regras para o uso ético, seguro e transparente da tecnologia. A proposta classifica os sistemas quanto aos níveis de risco para a vida humana e para os direitos fundamentais. Sistemas considerados de risco excessivo, como armas autônomas, ficam expressamente proibidos. É um avanço, sem dúvida. Mas será suficiente para proteger o trabalhador comum que opera uma máquina em Manaus?
Penso muito nisso quando observo a velocidade com que as mudanças acontecem. O Ministério da Fazenda tem defendido que uma regulação equilibrada pode impulsionar o crescimento sustentável do país. A preocupação com crianças e adolescentes, com os impactos no mercado de trabalho e com as chamadas externalidades negativas da tecnologia está na pauta oficial. Contudo, entre a intenção e a prática existe um abismo que precisa ser atravessado com cautela.
Na Zona Franca, esse abismo tem nome e sobrenome. São milhares de trabalhadores que construíram suas vidas em torno das fábricas. Pessoas que acordam cedo, enfrentam o trânsito e dedicam suas horas a montar componentes eletrônicos. Quando uma máquina inteligente assume parte dessas tarefas, o ganho de produtividade é inegável. Mas e o custo humano? Quem paga essa conta?
O Ministério do Trabalho e Emprego tem ampliado iniciativas de qualificação profissional voltadas para a era digital. O objetivo é preparar trabalhadores para os desafios impostos pela transformação tecnológica. Os números são expressivos: milhões de matrículas em cursos de letramento digital, inteligência artificial e programação. É um esforço louvável, mas que precisa chegar efetivamente ao chão de fábrica amazonense.
O que me preocupa é a velocidade da mudança comparada à lentidão da adaptação humana. Não somos máquinas. Não conseguimos simplesmente atualizar nosso software e recomeçar. Precisamos de tempo para aprender, para nos reinventar, para encontrar novos propósitos. E esse tempo está cada vez mais curto.
Há ainda uma questão que raramente entra nas discussões técnicas: o viés algorítmico. Sistemas de inteligência artificial são treinados com dados históricos que refletem preconceitos e desigualdades da sociedade. Quando esses sistemas passam a decidir quem é contratado, quem é promovido ou quem é demitido, estamos transferindo para as máquinas nossos próprios defeitos. E pior: estamos dando a esses defeitos uma aparência de neutralidade técnica.
Na região amazônica, onde as desigualdades sociais já são profundas, esse risco é ainda mais grave. Um algoritmo que não considera as particularidades locais, as diferentes formações educacionais e as diversas trajetórias de vida pode perpetuar injustiças históricas sob a máscara da eficiência.
O debate sobre ética na inteligência artificial não pode ficar restrito aos gabinetes de Brasília ou aos laboratórios de pesquisa. Precisa chegar às comunidades, aos sindicatos, às escolas técnicas de Manaus. Precisa envolver aqueles que serão diretamente afetados pelas decisões tomadas hoje.
Reconheço que a tecnologia traz benefícios inegáveis. A automação pode libertar trabalhadores de tarefas repetitivas e perigosas. A análise inteligente de dados pode melhorar a qualidade dos produtos e reduzir desperdícios. Mas esses benefícios não podem ser alcançados às custas da dignidade humana.
O caminho, na minha opinião, passa por três pilares fundamentais. Primeiro, uma regulamentação que coloque os direitos humanos no centro das decisões tecnológicas. Segundo, investimentos massivos em educação e requalificação profissional que cheguem efetivamente aos trabalhadores mais vulneráveis. Terceiro, mecanismos de participação social que permitam às comunidades afetadas terem voz nas escolhas que definirão seu futuro.
A Zona Franca de Manaus nasceu como um projeto de desenvolvimento regional que apostou na capacidade transformadora da indústria. Décadas depois, enfrentamos uma nova encruzilhada. A inteligência artificial pode ser a ferramenta que potencializa essa vocação industrial ou o instrumento que aprofunda desigualdades históricas. A escolha é nossa. E ela precisa ser feita agora, com consciência, responsabilidade e, acima de tudo, humanidade.
Referências
MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO. Regulação é peça-chave para confiança na inteligência artificial, destaca MCTI. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/noticias/2025/09/regulacao-e-peca-chave-para-confianca-na-inteligencia-artificial-destaca-mcti
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto regulamenta uso da inteligência artificial no Brasil. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1159193-projeto-que-regulamenta-uso-da-inteligencia-artificial-no-brasil
MINISTÉRIO DA FAZENDA. Regulação equilibrada da Inteligência Artificial ajudará a fortalecer o novo ciclo de desenvolvimento do país. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2025/junho/regulacao-equilibrada-da-inteligencia-artificial-ajudara-a-fortalecer-o-novo-ciclo-de-desenvolvimento-do-pais
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Governo Federal amplia parceria da Escola do Trabalhador 4.0 até 2030. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/novembro/governo-federal-e-microsoft-ampliam-parceria-da-escola-do-trabalhador-4-0-ate-2030
*Osvaldo Relder Araújo da Silva atua como Designer UI/UX e Analista de Sistemas há mais de 15 anos. Sua expertise abrange Design, Comunicação e Multimídia, bem como o Desenvolvimento de Software de Alto Desempenho.
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