Manaus, 2 de fevereiro de 2026

Tristes Trópicos: Nossa Universidade Usurpada – Idiossincrasias Predatórias1

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Em 28 de agosto de 2025, a Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação coordenou uma reunião do grupo de trabalho que construirá a proposta de criação e implantação da Universidade Federal Indígena. Naquela ocasião, a cidade de Brasília foi referendada como futura sede dessa instituição, foco de discussão de gerações de lideranças indígenas e segmentos acadêmicos e da sociedade brasileira comprometidos com uma Amazônia altiva, inclusiva e protegida da burocracia predatória. Esse mesmo grupo de trabalho aprovou diversas questões decorrentes de sua criação, entre as quais o estabelecimento dos futuros campi, um cronograma de trabalho, entre outros encaminhamentos…

“Segundo o Secretário de Educação Superior, Marcus Vinicius David, que preside o GT, a criação da Unind é uma demanda histórica e fruto do trabalho coletivo e colaborativo entre diferentes povos e saberes, respeitando as especificidades culturais e linguísticas, consolidando espaços de resistência e transformação. É um projeto de educação superior que reafirma a diversidade como princípio e a autonomia dos povos, a partir de um modelo centrado na diversidade, na autonomia e na autodeterminação”. (Assessoria de Comunicação Social do MEC, com informações da Sesu).

A pergunta central é a seguinte: por que a Universidade Indígena (deveria ser Universidade Intercultural) não estará sediada na Amazônia? Afinal de contas, a Amazônia é morada de mais de 50% dos indígenas brasileiros; são mais de 385 povos originários na Amazônia Panamericana, incluindo os mais de 163 da Amazônia Brasileira. Abriga também mais de 500 bilhões de árvores, mais de 200 mil grandes rios, mais de 300 bilhões de hectares de florestas em territórios indígenas e em reservas florestais federais e estaduais amazônicas. A riqueza cultural e biodiversa da Amazônia encontra-se aqui e não alhures.

Trata-se de mais um sintoma doentio da democracia brasileira, um golpe político rasteiro e mesquinho contra os povos amazônicos e os cidadãos brasileiros. Acorrentar a Universidade Indígena à burocracia e às artimanhas políticas do Ministério da Educação do Brasil e de segmentos acadêmicos disciplinares exclusivistas sediados nas Universidades de Grife é matá-la precocemente. Infelizmente, mais uma vez, o governo federal comporta-se como uma arma e um dos principais adversários da Amazônia. Semelhante à opressão institucional colonial, esta iniciativa não republicana conta com colaborações de representantes acadêmicos e indígenas, que se apresentam como porta-vozes e lideranças de programas que contribuem para a artificialização, a privatização e a usurpação da Amazônia. A criação da Universidade Indígena não se trata de uma questão econômica nem tão pouco jurídica, apresenta-se como uma dívida política centenária do estado nacional com os povos originários. Enfim, sua instalação em Brasília configura-se como mais uma tragédia amazônica em curso. Uma usurpação e um arranjo de interesses mesquinhos contra a Amazônia.

Mas ainda há tempo! O lugar legítimo da Universidade Indígena Brasileira é na Amazônia, agora e sempre. Os fundamentos, as diretrizes e os mecanismos operacionais do desenvolvimento da Amazônia devem ser irradiados, sempre, a partir dela. Caso contrário, trata-se de mais uma hipocrisia e engodo contra ela. Infelizmente, muitos verdugos da Amazônia encontram-se próximos dela e também entre os seus parentes. Essa iniciativa mostra, mais uma vez, que há muitos cúmplices do opressor entre os próprios oprimidos e colabora para silenciar os povos originários. O Ministério da Educação do Brasil precisa fortalecer as regiões, especialmente a sustentabilidade amazônica, em prol de seus povos e de um ideário progressista para o Brasil. Essa questão pode também ser posta de outra maneira, tal como: quando o Ministério da Educação do Brasil vai implantar a Universidade Indígena da Amazônia?

O silêncio das instituições acadêmicas, dos segmentos organizados, dos responsáveis pelos programas de educação superior, do judiciário, das governanças e das lideranças políticas do Estado do Amazonas colabora para manter nossa região subalterna aos interesses políticos externos.

Fechadas as portas do diálogo institucional com o Ministério da Educação, urge o debate em âmbito nacional e a politização dessa questão de interesse amazônico, segundo as suas perspectivas republicanas. Acorda, Amazônia! Nossa Universidade está sendo usurpada.

Amazônia E A Universidade Intercultural**

Amazônia, tesouro da humanidade,
Natureza molhada por um mar d’água doce
E morada de infindáveis jardins exóticos.
Amazônia, guardiã dos segredos da vida,
De múltiplos mitos de criação do mundo,

Da cura de doenças físicas e espirituais,
E da estabilidade atmosférica planetária.
Amazônia inventada pela sabedoria
De seus povos e pela cartografia colonial,
Com muita dor e sofrimento.

Amazônia e suas florestas,
Esconderijos de estrelas desorientadas,
Palco de diálogos entre as suas faunas e floras,
Autorregeneradas por seus mitos, águas
E a luz solar policromática.

Amazônia, centro do universo,
Onde os espíritos dos mundos vivos e inanimados
Convivem e resistem às maldades humanas,
Numa dimensão supra ecuménica,
Coletiva e diversa.

Amazônia, farol da sustentabilidade,
Portal de entrada à nova Era do Antropoceno,
Permeada pela valorização da vida,
Da natureza, da paz,
E pela práxis emancipatória.

Amazônia e filosofia; Amazônia e ciência;
Bioindústria e tecnologias limpas,
E Amazônia e sociedades do saber,
Exigências à sua sustentabilidade.
Suas diversidades, belezas e culturas

Povoam imaginações e sonhos,
Desafiam mentes e corações,
Opõem-se ao capitalismo predatório.
A Universidade Intercultural mergulhará
Neste universo complexo e instigante;

Propõe-se construir perspectivas
Para promover os seus povos e a humanidade.
Incorporará temáticas e saberes
Que articulam o ser e o estar indígena
Ao conhecimento científico,

Ambos centrados na Amazônia panamericana,
E em seus 385 povos originários.
Universidade Intercultural,
Portal entre civilizações diferentes,
Fonte de liberdades centradas

Nas culturas e nas naturezas de seus povos,
Em seus programas interculturais
E os seus nexos com a educação científica.
Incorporará inovações sustentáveis
Às suas formas de intervir na natureza,

E alinhará a sabedoria de seus mitos
Às linguagens formais e explicativas
Sobre os ciclos biogeoquímicos.
Aperfeiçoará as suas leituras e abordagens
Tradicionais sobre os domínios

De seus grandiosos e complexos territórios,
Vítimas de desmatamentos e queimadas.
Criará pontes entre a preservação ecológica,
As mudanças climáticas e as culturas indígenas,
Conforme as suas perspectivas civilizatórias.

Desconstruirão as histórias do domínio
E da opressão colonial,
E reafirmarão as suas antropologias,
E representações materiais e simbólicas.
Difundirão as suas sustentabilidades plenas

Às instituições nacionais e internacionais.
Mostrarão alternativas fecundas
Às intervenções destrutivas na natureza,
À opressão social e ao racismo.
Alternativas materializadas em programas

Que articulem os seus hábitos
E as suas tradições às políticas públicas,
Sempre valorizando as suas culturas,
A evolução das técnicas, as artes
E os seus ambientes,

Na perspectiva antropológica
E histórica de seus povos;
Destaque à invenção de modelos
Desenvolvimento sustentável
Centrados em suas culturas, naturezas e artes.

Quadro que valorizará os seus arranjos
Produtivos fortalecendo as suas identidades
Antropológicas e geográficas.
Criará novas alianças políticas
E cooperações científicas e tecnológicas,

E desenvolverá novos formalismos jurídicos
Às situações de conflito e tragédias emergentes,
A Universidade Intercultural é um tesouro,
Uma construção histórica na Amazônia,
Revelada e compartilhada com o mundo.

Formará os professores interculturais,
Difundirá o saber tradicional,
Desenvolverá as tecnologias das florestas
E das águas ao bem-estar da humanidade.
Uma benção às futuras gerações, aqui e alhures.

Encantará a humanidade com as suas artes
Imbricadas nos espíritos dos cantos,
Das belezas e das generosidades;
Mostrará novas visões e sentidos de vida,
E formas em se exteriorizar as felicidades.

A Universidade Intercultural priorizará
As aprendizagens na língua-mãe,
Valorizará as potencialidades do território,
E as relações dos povos originários
Com a natureza e as suas transcendências,

A Universidade Intercultural,
Marco na história da educação brasileira,
Terá a participação de xamãs
E de professores indígenas.
Produzirá reflexões e estudos

Na fronteira de suas tradições com a filosofia,
As ciências da natureza e as ciências humanas.
Terá atenção especial com os idosos,
E as crianças da sustentabilidade.
A sua organização é uma dívida histórica
Do estado Nacional com estes povos.
Urge a sua implantação,
Em parcerias com as instituições nacionais.
Amazônia e Universidade Intercultural,
Patrimônio da humanidade.

Marcílio de Freitas

**Poema apresentado no livro “Tributo à Amazonia” publicado pelo Kindle, em 2023.

Portanto, a Universidade Intercultural da Amazônia, pluritemática e multicampi, terá como fundamento um conjunto de temáticas que articula o saber indígena ao conhecimento científico, ambos centrados na Amazônia. Este fundamento movimentará seis grandes temáticas que guiarão a sua organização, a saber: natureza e cultura; educação e ciência e tecnologia diferenciadas; inovações e processos produtivos sustentáveis; economias e serviços ambientais; territórios e povos; e preservação e desmatamento. Estas temáticas se desdobram em cinco eixos estruturantes que possibilitarão a materialização de seu funcionamento acadêmico.

Estes eixos-guia se apresentam como: conhecimento indígena e políticas públicas; sociedades do saber e etnociências; cultura, natureza e artes indígenas; desenvolvimento sustentável e economia indígena; e educação indígena, ciência e tecnologia e inovação. Por sua vez, propomos que estes eixos estruturantes movimentem os quatro programas interculturais apresentados em seguida: formação de professores indígenas e cultura, difusão e comunicação científica; tecnologias das florestas e das águas e novos materiais sustentáveis; novas tecnologias e processos de gestão sustentáveis; e políticas públicas, artes e desenvolvimento sustentável. Seu projeto básico também apresenta um programa para implantar o curso de licenciatura plena em educação indígena e ensino de ciências para os povos amazônicos. Os professores formados neste programa trabalharão na docência e na gestão de arranjos produtivos vocacionados. Atuarão nas escolas indígenas amazônicas, em programas educacionais, científicos e interculturais dirigidos ao ensino fundamental e médio, em programas de gestão ambiental e em pesquisas avançadas sobre cultura e natureza, novas tecnologias e desenvolvimento sustentável.

A proposta de implantação da Universidade Indígena em Brasília apresenta-se como um escárnio aos povos originários e uma afronta cívica às políticas públicas amazônicas.

 

Referências

1. Amazônia: Redenção ou Destruição, Marcílio de Freitas, Ed. Dialética, SP, Julho de 2025.

Sinopse: O autor demonstra que os governantes brasileiros consideram a Amazônia como sendo um entrave político às suas governanças, não sabem o que fazer com ela. Com 6 estudantes universitários propõem uma política de educação, ciência e tecnologia para o seu desenvolvimento sustentável.

Link:https://loja.editoradialetica.com/loja/produto.php?loja=791959&IdProd=1244258753&iniSession=1&hash=690099682 – e-mail: freitasufam@gmail.com

2. Assessoria de Comunicação Social do MEC, com informações da Sesu (28.8.2025) Educação Superior Brasília será a sede da futura Universidade Federal Indígena. Link: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/agosto/brasilia-sera-a-sede-da-futura-universidade-federal-indigena. Acesso em 30.8.2025.

3. Amazônia: Vida, Utopias e Esperanças, Marcílio de Freitas, Ed. Dialética, SP, Setembro de 2025. Manuscrito vencedor dos Prêmios Literários Cidade de Manaus 2024, categoria ambiental: Djalma Batista.

Sinopse: A partir da Amazônia, o autor propõe novas utopias para elevar e emoldurar os compromissos da humanidade com a construção da paz, o combate à mudança climática e à injustiça ambiental. Este é o livro de esperanças e amor às pessoas.

Link: https://loja.editoradialetica.com/humanidades/amazonia-vida-utopias-e-esperancas?srsltid=AfmBOopJuyKIMjDpOdp8WPQNIsqU222RNzeu9djA2prmN9fXeujoZJKM

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1 Este artigo se baseia em texto apresentado em manuscrito do autor em processo de publicação.

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