Domingo de sol. Mas teve um pouco de chuva. Passou. A meninada não para de correr. Chama atenção os que jogam futebol. Está rolando aquela bola. Os menores brincam de pique manja. A curuminzada não para quieta. Mas o bom é que a bola corre solta. Bendito campinho de futebol.
Os mais velhos aproveitam a delícia de um tambaqui assado na brasa. Estão todos num sítio lá para as bandas do Tarumá.
De repente um dos curumins da bola chega ofegante. Diz estar sentindo uma dor. “Bem aqui do lado”. Tia Idalina, em férias de Carnaval em Manaus, foi logo diagnosticando:
-Isso é dor de burro, menino. Pega aí uma plantinha e põe na cintura do calção que passa.
O tio do menino, que é médico, tranquilizou todos explicando tratar-se de dor aguda e pontual na lateral do abdômen, comum em corredores e atletas, tecnicamente chamada de dor abdominal transitória relacionada ao exercício.
Esses meninos fizeram muito esforço. Não fazem intervalo. Pior! Não sabem respirar adequadamente. Ou então deve ser porque acabaram de comer e o diafragma se “esforçou” muito. Foram logo jogar bola. Deve desaparecer. É só pararem um pouco de correr que passa.
Lá vem mais dois. Que dor é essa? Tia Idalina repetiu o diagnóstico e a receita. Mudou só o nome da dor. É dor de facão. Põe uma plantinha na cintura. Vai passar.
Mas a garotada continuava na bola. Um bando de fominhas. São jovens bons corredores. Não temem dor de burro. Nem dor de facão, como diz o outro. Encaram a dor e a risada com a coragem de meninos do século 21. Jogam futebol olhando memes de jogos do brasileirão. Comem barrinhas de suplementos que caem na hora certa… ou na hora errada. É quando a dor de burro vem conhecer cada costela desses projetos de craque de peladão.
Um dos rapazes, sentindo a dor que vem de lado, pensa alto: “Calma, dor, a gente só quer terminar a pelada sem tropeçar na própria dignidade.”
O outro curumim responde “Ela é esperta: chega sorrateira, igual mucura que aparece sem avisar.”
O tiozão médico interrompe; “Vamos respirar: inspira, inspira… solta. “Respira alto, menino.”
Os rapazes terminam o jogo com sorrisos tortos, respiração rápida e a promessa de que a próxima bola será mais divertida. Com mais memes, mais água e mais energético. E se despedem daquela dor chata. Achando graça dos nomes que os coroas deram para aquela dorzinha incómoda. E dizem todos: “Até a próxima, dor!”.
E a pergunta final que necessita de uma resposta honesta e precisa. Afinal, tio. Essa dorzinha chata que a gente sente. Que dor é essa? Dor de burro ou facão? A resposta veio na lata.
Quando eu era menino isso era chamado de dor de veado!
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