Estava num restaurante em Brasília com amigos. Contava para eles que havia comparecido a um casamento no interior do Amazonas. A noiva, chibata, cunhã Poranga de boi, desceu do motor com seu pai, ao som de beiradáo. Os amigos brasilienses pediram a tradução. Na verdade, só haviam entendido que eu falava de uma certa noiva.
Ora, chibata é um adjetivo pelo qual o caboclo amazonense define algo bonito, muito bom, excelente e de alta qualidade. A noiva está chibata. Ou seja, linda e com vestido muito bacana. O motor, ou motor de linha, ou motor de popa. Ou somente “motor” é embarcação na Amazônia que serve para transporte de passageiros, carga e pesca. De uso profissional ou lazer.
E o Beiradáo? Havia músicos entre os amigos. Conheciam o Teixeira de Manaus. Pois é, o Teixeira de Manaus se destacou por sua linguagem autêntica no sax alto. Foi o precursor do Beiradáo. Uma mistura de diversos ritmos, entre eles o carimbó, merengue, lambada, cumbia, forró, salsa, xote e música latina. O maestro Cláudio Abrantes, num dia de Chorinho na calçada do IGHA-Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, explicou que os anos de 1950 e 1960 foi um período em que o rádio, principalmente a Rádio Nacional, era o principal veículo de comunicação para os moradores do interior do Amazonas. A população e os músicos diletantes, moradores das calhas dos rios, sofreram influência da música brasileira dessa época, pelo rádio.
Ouviam com dificuldade as transmissões da Rádio Nacional. Esforçando-se para sintonizar nos chorinhos, sambas e modinhas brasileiras em geral.
A gente do interior aprecia tocar instrumentos de sopro. Principalmente os metais. Conhecidos pelo timbre brilhante, potente e majestoso.
O Exército Brasileiro costumava descartar instrumentos velhos ou danificados, doando aos ribeirinhos. Ganhavam trompetes, trompas tubas e trombones. E, claro, não podia faltar um saxofone. E assim formavam-se as primeiras bandas que desenvolveriam um ritmo próprio, nosso, – o beiradão.
Penso que o Beiradão é um fenômeno cultural. Também não é uma cultura sazonal. São muitos quilômetros de rios, com festas o ano inteiro, tocando essa música, que é uma mescla cultural muito grande. Aliás, não são só as bandas, os saxes, é também a culinária.
Eu sempre digo aos amigos do sul, que eles falam muito da nossa floresta, dos botos, da biodiversidade. Mas, na verdade não nos conhecem. Meus amigos então planejam vir conhecer o nosso interior. Querem curtir uma festa com muito beiradáo, peixe, farinha, tucumã e a alegria dos amazonenses ribeirinhos. É só chegar.
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