
*Davi Avelino Leal
Continuação…
CAPÍTULO I
FACES DA COLONIZAÇÃO DO RIO MADEIRA
Entre missões e monções: desbravando os “sertões”
O objetivo, aqui, é analisar o movimento de conquista de territórios tradicionalmente ocupados por povos indígenas e as estratégias desenvolvidas pelos conquistadores nesse processo de intrusão de territórios indígenas. Uma dinâmica de construção diferenciada de territorialidades específicas e suas variações foi colocada em jogo envolvendo os povos indígenas e as recentes unidades sociais que foram se firmando nas margens dos rios da bacia do Madeira.
A historiografia oficial, tradicionalista e conservadora, mencionada no tópico anterior, relegou a estes povos o caráter de grandes obstáculos ao avanço da chamada “civilização”. De acordo com Nobert Elias, os processos civilizatórios que marcaram a Europa a partir do século XVIII e que serviam de modelos para as áreas coloniais, buscavam impor uma racionalidade individualista e o autocontrole30 a partir do senso de pudor (ELIAS, 1994).
É justamente uma leitura a contrapelo do discurso do poder, que se pode perceber não somente a presença histórica de povos indígenas ocupando a várzea do rio Madeira, bem como o movimento de resistência construído pelos índios à intrusão de seus territórios. Se a presença indígena no rio Madeira é secular, a inserção de não indígenas deu-se de forma lenta e gradual. Desde meados do século XVII temos notícias de tropas de resgate e expedições de colheita de drogas do “sertão”, que além de buscarem produtos extrativos e valiosas mercadorias, faziam também o reconhecimento da área. Como sugere Menendez, a busca de cacau bravo era apenas uma extensão das expedições de resgate que visavam o recrutamento obrigatório de trabalhadores indígenas (MENENDEZ, 1992; SAMPAIO, 2001).
É esse duplo movimento de missionários e tropas de linha, simultaneamente confessional e militar, que caracteriza a ação da Coroa portuguesa no Madeira. A presença de missionários jesuítas “semeando aldeias e colhendo cacau” é também um processo marcante de controle da força de trabalho indígena (AMOROSO, 1991). Como destacam os principais trabalhos sobre o rio Madeira, esse rio era a principal rota de comércio monçoneiro interno, ligando o Pará ao Mato Grosso e que por isso teve que ficar fechado durante décadas no século XVIII, pois havia o receio de que a população do Pará abandonasse a área e fosse atrás de ouro em Mato Grosso, aumentando o contrabando de ouro e o comércio com os espanhóis (AMOROSO, 1992; MENENDEZ, 1992; SAMPAIO, 2001).
Podemos caracterizar esse movimento de expansão da presença da Coroa portuguesa no Madeira como um novo processo de territorialização na medida em que aciona uma reorganização social a partir de novas unidades socioculturais, constituindo mecanismos políticos especializados em que há uma redefinição do controle social sobre os recursos naturais, bem como uma reelaboração da cultura e da relação com o passado (OLIVEIRA, 1988).
A construção de aldeamentos, como o de Santo Antonio de Araretama no início do século XVIII (1724) e posteriormente a fundação da Vila de Borba (1756), mostra como efetivamente foi se constituindo esse novo processo de territorialização pois, conforme Ferrarini, a mais remota aldeia do Madeira era a de Trocano (antigo nome de Borba). Nesse aldeamento de missionários jesuítas, fundado pelo padre João de Sampaio, estavam reunidos índios das etnias Arara, Arikema, Baré, Tora, Munduruku, Mura e Urupá (FERRARINI, 1981, p. 15).
Como já dito, a fixação no lugar chamado Trocano e depois Borba, foi feita depois de muitas mudanças em decorrência dos ataques dos povos indígenas, principalmente dos Mura. A resistência dos índios em defesa do território, contra a intrusão por parte de missionários e comerciantes de suas terras será uma constante durante todo o século XIX. Se a vila de Borba obteve uma relativa prosperidade com os aldeamentos realizados no século XVIII, o que podemos perceber, no início do XIX, é a evasão quase completa dos índios para as matas, o que, do ponto de vista do discurso oficial(missionário, burocrata e militar), trouxe miséria e pobreza para o lugar.
Como destaca Ferrarini, citando a visão preconceituosa de Aires de Casal;
Borba, vila medíocre, de casas mesquinhas […] é escala dos que navegam para Mato Grosso e tem uma igreja paroquial dedicada a Santo Antonio. O seu povo é uma coleção de aborígenes de vá rias nações com uns poucos europeus e com alguns negros. Além dos víveres comuns, recolhem muito tabaco e grande porção cacau, sua principal riqueza, e com a pescaria das tartarugas suprem a falta de gado, que é mui pouco (FERRARINI, 1981, p. 35).
Se a vila de Borba, fundada sobre o recrutamento de povos indígenas de várias etnias aldeadas nas missões e que se torna esvaziada com a fuga e evasão dos índios que estavam no último quarto do século XVIII, Manicoré esteve nas mãos de militares (HUGO, 1959, p. 136). O discurso oficial, na sua recorrente busca da origem, atribui aos chama dos desbravadores, Major Manoel Pereira de Sá e ao paraense Vicente Ferreira Passos, a fundação da povoação. De acordo com Arindau Reis, principal cronista da história da cidade, Manicoré tem origem nas mu danças de lugar do povoado de Crato (REIS, s/d, p. 22).
Este, situado no Alto Madeira, na confluência do rio Jamari com o rio Madeira, fora construído a partir de um presídio que recolhia condenados da justiça, presos políticos e outros considerados indesejados pelos poderes instituídos. Devido aos problemas de sezão e hidropisia os moradores da vila transferem-se para o sítio de Baetas.
A partir da década de 1860, toda a área próxima ao sítio Baetas passa a ser ocupada por migrantes oriundos de Pernambuco, Maranhão, Ceará, Pará e Rio Grande do Norte. Um dos mais conhecidos nordestinos a adentrar o território neste período é o pernambucano Antônio Pedro de Aguirre, fundador do arraial Aguirre. Mais tarde esse lugar passou a se chamar Paysandu. Aguirre exerceu o cargo de subdelegado de polícia e foi chamado de “chefe feudal” da Freguesia, segundo alguns autores como Octaviano Melo e Gama Abreu, a história de Manicoré está diretamente ligada á história de Crato, no alto Madeira. No entanto, de acordo com o padre salesiano Vitor Hugo, esses são lugares diferentes, porém homônimos. O Crato, origem de Manicoré não é o mesmo Crato, local que serviria como vila modelo, mas que, na verdade, foi espaço de degredados no Alto Madeira, próximo ao Salto do Theotônio.
Polêmica à parte, o importante é atentar que a presença militar, missionária e de comerciantes é que vai determinar o “desbravamento” destes espaços ocupados tradicionalmente pelos povos indígenas. A política colonial dirigida pela coroa portuguesa para os sertões do Grão-Pará e Maranhão previa também a construção de uma rede de fortificações visando à defesa do território. Esse dispositivo de defesa pensado para pontos estratégicos ergueu próximo ao rio Madeira, o Forte Príncipe da Beira (1776), situado no rio Guaporé (FORTES, 2000).
O objetivo de tal construção era garantir, em região fronteiriça, o acesso a recursos naturais, bem como vigiar o contrabando de escravos e ouro de Cuiabá. Como destaca Mírcia Fortes, “a expansão territorial, a ocupação, a exploração da mão de obra indígena e de especiarias e a manutenção do território foi montada à base de instalações de fortes militares” (FORTES, 2000, p. 165).
A construção do Forte Príncipe da Beira assegurou a Portugal o controle de toda extensão do Madeira, ratificado um ano depois pelo Tratado de Limites e Fronteiras de Santo Idelfonso, que corrigia em alguns aspectos o Tratado de Madri de 1750 (TORRES, 2006, p. 100). Até meados do século XIX pouco era o interesse governamental para o rio Madeira. Após o “processo de pacificação” de Mura e Mundurucu, no final do século XVIII (SANTOS, 2002), os indígenas haviam retornado para as suas aldeias de origem, com exceção de uma etnia ou outra que ainda permanecia nos aldeamentos missionários. No início do século XIX, a maioria dos povos mantinha um relativo controle sobre o território.
Segundo o relato de Gama Abreu, podemos apreender que:
Mas embora estes dous, Borba e Manicoré, sejam os mais importantes dos centros de população do rio[…] outros há de menor importância: Canemã, Sapucaia, Tabocal, Baetas, Juma, Três Casas, Jamary e Santo Antonio (GAMA ABREU, 1992, p. 129).
Neste momento, a economia de Borba está assentada na produção de tabaco, considerado de boa qualidade. Em Sapucaia-Oroca, reconhecido aldeamento Mura, há uma área rica em seringais e castanhais no município de Borba. Todos esses lugares citados por Gama Abreu são aldeamentos e povoações indígenas e que no último quarto do século XIX também se tornaram territórios de extração de seringa. Quando de sua passagem por Manicoré, em 1879, Edward Mathews encontrou com os Mundurucu. O aldeamento de São João do Tabocal reunia um importante grupo de índios.
No último quarto do século XIX, o lugar mais visitado da calha do rio Madeira é Humaitá. Situada na margem esquerda do rio Madeira, foi, nos primeiros tempos, missão franciscana; daí a denominação inicial de Missão Franciscana do Rio Preto. A grande presença de índios Arara e Parintintin atraiu para a região os missionários franciscanos que passaram a atuar no aldeamento mencionado. No entanto, negociantes das mais variadas partes do mundo também avançaram em direção às áreas ricas em borracha de boa qualidade, a conhecida Hevea brasiliensis. Um dos mais destacados seringalistas, chefe de uma extensa e poderosa família que dominou a região por várias décadas, foi José Francisco Monteiro.
Em 1869, uma das propriedades de José Monteiro (citada na introdução), foi duramente atacada pelos Parintintin ocasionando a mudança de toda a família para um lugar mais abaixo, fundando, ali, Humaitá. A versão oficial diz que a criação de Humaitá é obra do Comendador Monteiro, porém os Parintintin afirmam que, segundo os mais velhos, Humaitá era conhecido como o piseiro da anta, pois por trás onde hoje fica o mercado havia um buraco onde a anta vinha beber água e os caçadores Parintintin mais antigos aproveitavam para matá-la (CORRÊA, 2008).
O lugar de origem da cidade é o porto. O antigo porto das antas é reivindicado como lugar sagrado pelos índios Parintintin, pois era rico em recursos naturais. Lá era tido como lugar piscoso, com muita caça, principalmente de anta. Para a repetitiva narrativa oficial o porto da cidade é também considerado o lugar de origem e onde a família Monteiro teria se estabelecido. O porto da cidade é também o espaço onde se realizam os principais festejos da cidade (CORRÊA, 2008). No capítulo II, quando se discutirá os sistemas de honra e herança e as estratégias uti lizadas para garantir a posse de seringais e castanhais e outros recursos naturais valorizados, voltaremos às estratégias familiares como elemento norteador de reprodução de um sistema de controle dos recursos e exclusão dos povos que tradicionalmente utilizavam esses recursos.
Outra estratégia de deslocamento compulsório e imobilização da força de trabalho deu-se com os trabalhadores indígenas bolivianos. Os comerciantes oriundos do país fronteiriço e em consórcio com seringalistas brasileiros, desceram o rio Madeira com índios Moxos, Araonas e Pacaguarás, para explorar seringais e castanhais em áreas de litígio entre Brasil e Bolívia (CÓRDOBA, 2012). O aumento da de manda de borracha no mercado internacional impulsionou a vinda de “migrantes” de várias partes do Brasil e do mundo, que desde meados do século XIX começaram a aportar na Amazônia, primeiro em peque nos grupos de exploradores e depois, já no final da década de 1870, começaram a chegar em grande quantidade. De todos os grupos, o mais significativo foi o de cearenses, que vinham de todos os rincões do Ceará para trabalhar na extração do látex.
________________________
30 De acordo com Missagia de Matos, o controle da fala e o discurso do abandono da vida nativa selvagem estavam permeados pelo discurso “civilizatório” dos missionários que atuavam entre os Botocudo do vale do rio Doce e Mucuri (MISSAGIA DE
MATOS, 2004, p. 402).
Continua na próxima edição…
*Davi Avelino Leal é escritor e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e membro do Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição. É licenciado, mestre e doutor pela UFAM.
Views: 0




















