Manaus, 25 de fevereiro de 2024

A Capitania de São José do Rio Negro

Compartilhe nas redes:


*Mario Ypiranga Monteiro

Continuação …

A Dilatação da Fé

Mas não era apenas a obrigação do zelo eclesiástico, que os bons padres mantinham, que os levava à aprendizagem da língua e sua redução a artes e gramáticas, ao jeito das de Figueira e Anchieta, Aronches, Montoya e os demais membros daquela douta comunidade cristã. Era também, e cremos com sinceridade, o desejo de servir à humanidade, à cultura universal européia, que os chamava àqueles estos de erudição.

Na mesma palmilha dos sacerdotes anteriores ao período máximo da conquista espiritual da Amazônia, seguiram os padres da Companhia de Jesus, estes, entretanto, obraram em profundidade quanto em extensão, não só no progresso da catequese, como no da própria economia da colônia, ora defendendo o

índio contra o colono ambicioso, ora fazendo restrições à liberdade do selvagem, ora propugnando pela intervenção do negro da Guiné, mais robusto, mais inteligente, mais culto, mais adaptável e talvez mais dócil. Mais isso e mais aquilo. Empenharam-se vivamente, e tanto, que o rei acabou cedendo, permitindo a troca de uma infâmia por outra semelhante.

A história da entrada dos Jesuítas na Amazônia propriamente começa com Luis Figueira,16 de quem Serafim Leite, na vastíssima e douta História da Companhia de Jesus no Brasil, diz:

O primeiro Jesuita, de quem consta com certeza pisasse terras do Pará, foi Luis Figueira. Baena e outros colocam a cena do procurador em Abril de 1626. Não vimos porém documento coevo que o prove. Em abril de 1636, sim, estava Figueira no Pará, onde muitos moradores pediram a sua permanência, fazendo então o Procurador daquela e outras alegações, que o Padre já esperava.17

Refugados, os Jesuitas insistem. Dois padres, João de Souto- Maior e Gaspar Fragoso, chegaram a Belém, em janeiro de 1653, com as credenciais emitidas pelo próprio Dom João IV:

Eu El-Rei vos envio muito saudar. Ordenei aos Religiosos da Companhia da Provincia do Brasil, que, por serviço de Deus, e meu, tornassem a esse Estado e fundassem nele as Igrejas necessárias com o intento de doutrinar e encaminhar ao Gentio dele a abraçar nossa Santa Fé, principal obrigação minha nas Conquistas. E, porque lhes será de grande ajuda vosso favor e assistência, vos encomendo muito e mando que lha deis em forma que tenha eu muito que vos agradecer. Escrita em Lisboa, a 23 de Setembro de 1652. Rei. O Conde de Odemira. Para os oficiais da Câmara do Pará.18

A ação destes dois sacerdotes ficou restringida ao ensino do latim, não podendo interferir na melindrosa questão do índio. É lícito supor que Figueira, levando ao Conselho Ultramarino a noticia pormenorizada do problema da escravidão, tivesse conseguido impressionar as autoridades metropolitanas, ao ponto de mais tarde assistirmos a dominação, por Vieira, do campo hostilizado antes. Aos dois primeiros Jesuítas se apresentam os padres Manoel de Souza e Mateus Delgado e tem realmente início o contato com elementos das cabildas Tupinambá e Nheengaíba. Nesse mesmo ano, em outubro, já encontramos aquele que deveria ser, no norte do Brasil, o que Anchieta era para o sul: o apóstolo heróico, o impertérrito defensor da indiada contra as violências ignominiosas, o padre Antônio Vieira. Quem se insurgiria, em plenário inquisitorial, contra o sacrificio de judeus e confisco de seus bens, deveria estar possuído de valentia moral suficiente para combater a escravidão indígena no Brasil, na Amazônia, 19 com o mesmo vigor com que o fizera o padre Las Casas antes, na parte das Antilhas. Infelizmente o âmbito deste trabalho nos impede citar documentos interessantes desta luta. Mas Vieira chegou até o Tocantins e esteve de viagem formada para o Rio Negro. Não podendo vir, pregou à partida da bandeira em que vieram os padres Manoel Pires e Francisco Veloso, assistentes do cabo-de-tropas Bento Maciel.20

Entretanto, o programa da Ordem, de não imiscuir-se nos negócios da indiada, não foi levado a sério, e veremos depois o governo português autorizando-os à proteção do selvagem. Salientaram-se nesse mister o próprio Vieira, escrevendo para a corte, Salvador do Vale, Francisco Veloso, Souto-Maior, Manoel Pires, João Daniel, Betendorf, e outros mais. Verdade é que justificavam também os cativeiros lícitos com o sofisma da salvação daqueles bárbaros, chegando Vieira ao extremo de dizer que quanto mais larga fosse a porta dos cativeiros lícitos, tanto mais escravos entrariam na Igreja, e se poriam a caminho da salvação. O trabalho dos Jesuitas foi excelente. Eles criavam gado no Marajó, possuíam engenhos de açúcar, exportavam drogas, não pagando, sonegando os dizimos à coroa. Mas fomentavam a agricultura e a pecuária. Não cabe no círculo deste trabalho fazer maiores indagações. Exprobavam- nos, caluniavam-nos ou apontavam possíveis erros dos Jesuitas, ao ponto de em 1655 revoltar-se o povoado de Gurupá, expulsando-os os moradores, em canoas. Em 1661 Belém revolta-se. Há motins sérios, em que a própria pessoa do ouvidor-geral é envolvida e visada, escapando com a fuga. Vieira passa ao Maranhão e em 12 de setembro de 1662 uma provisão real suspende o governo temporal das aldeias e terminam as hostilidades. Cabe, aqui, perguntar: quem estava com a razão? Os sacerdotes ou os moradores interesseiros? Aqueles, sem nenhuma dúvida. O trabalho das missões não excluía o escravo. Certo. Mas entre ser escravo nas missões e ser escravo particular, acredito piamente que o índio devia preferir o convívio dos sacerdotes, que lhes ofere ciam possibilidades de tornaram-se cidadãos livres, ensinando-lhes leitura, doutrina, ofícios manuais, enroupando-os dos beneficios todos, de caráter assistencial, com hospitais, escolas, seminários, etc. Em virtude do zelo surgido entre as Ordens, sobre o âmbito das missões respectivas, e a fim de evitar desagradáveis incidentes, decidiu-se que a Companhia atuaria no sul do Amazonas, da margem direita para os infinitos sertões, enquanto que às quatro outras Ordens caberia a margem esquerda. Significava isto que a maior parcela de responsabilidade, quanto à catequese, ficaria atribuída aos Jesuítas, espalhados pelo Tocantins, Xingu, Tapajós e Madeira.21 Isto quanto aos Inacianos portugueses. No que contende com os espanhóis, representados por Samuel Fritz, João Batista Sana, João Batista Julian e Carlos Brentano, estes marcharam em sentido contrário, também do século XVII, partindo de Quito. O trabalho desses sacerdotes está representado na pacificação dos Omágua, Cuchivaro, Jurimágua, etc., feita pessoalmente pelo padre Samuel Fritz, percorrendo duas vezes a região, em 1689 e 1691,22

As demais Ordens, os Carmelitas e Mercedários, iniciaram, os primeiros, as atividades, em São Luís do Maranhão, em 1616, e a segunda em 1639 em Quito, Frei Francisco da Purificação, em 1624 passou-se a Belém do Pará e em 1627 estabeleceu-se na antiga rua do Norte, em casas doadas por Bento Maciel Parente. Somente em 1698 é que a Ordem aumenta o seu raio de ação intelectual, como diz Arthur Reis,23 com os cursos de filosofia e teologia que funcionavam em São Luís. É frei José de Lima quem vai assumir a cátedra.

Aldeando, convertendo, descendo índios, os Carmelitas levantaram prósperas povoações no Rio Negro, começando por Santo Elias do Jaú,24 Aracari, Cumaru, Mariuá,25 São Caetano, Cabuquena, Bararuá e Dari. Algumas dessas povoações fracas- saram, como a de Santo Elias do Jaú, ou porque a indiada agressiva, vertendo dos sertões, saltasse sobre elas, ou porque a situação topográfica impedisse qualquer surto progressista, tornando-se, invés de cidades, simples taperas. Na história desses trabalhos salientam-se os missionários Carmelitas frei José de Santa Maria, frei Martinho da Conceição, frei Sebastião da Purificação, frei André de Souza, frei Matias de São Boaventura e o leigo Mateus de Santo Antônio. Mas em 1695 a situação mudara para os Carmelitas. Até então estes não usufruíram as prerrogativas dos demais órgãos missioneiros, quanto à expansão territorial, obtendo apenas, pela carta régia expedida em novembro de 1694, o Rio Negro para campo de experimentação das almas26 O Solimões estava sendo invadido e dominado pelos espanhóis catequistas, mas essa forma de expansão espiritual deixava dúvidas no espírito das autoridades, não fosse ela prejudicar os magnos interesses do reino. Não convinha certa mente a Portugal essa política aberta, mesmo sob a proteção eclesiástica. A tanto monta a perniciosa força moral dos Jesuítas espanhóis, que seria necessário expulsá-los em 1710, daqueles tratos habitados dos Cambeba, Jurimágua, Tarumã e Ibauoma, ficando sob a jurisdição dos Carmelitas toda a área fronteira. Missões importantes, fundadas por estes religiosos são Coari,27 Tefé,28 Minerua, Paraguari, Taraquatéua, Enviratéua, Turucuatuba, São Paulo e São Pedro.

Os Mercedários, vindos de Quito com Pedro Teixeira, foram frei Afonso de Armijo,29 ali nascido, frei Pedro de la Rue Cirne, João da Mercé e Diogo da Conceição,30 leigos, chegando em Belém a 12 de dezembro. Ali fundaram o convento das Mercês, com o patrimônio doado por um certo Mateus Cabral,31 em 1640 e uma igreja, dirigida pela operosidade de frei Lino José Freire. Mas só depois do alvará de 9 de dezembro de 1645, expedido por Dom João IV, é que os Mercedários iniciaram a jornada espiritual para oeste, com frei La Rue Cirne à testa. Surgem os primeiros núcleos missionários no Urubus, em 1663, com frei Teodózio da Veiga, e no Rio Negro os de Aruim, depois situados no lugar de Jau. Frei Raimundo das Mercês missionou no Rio Negro. Dilata-se a conquista mercedária pelo Amazonas, com os aldeamentos de São José do Amatari, Anibá e Uatuma.32 Em 1693 assumiram o controle espiritual de toda a região dos rios Negro e Urubus, quando da partilha que determinou o âmbito de ação de cada Ordem. Cai sobre eles, entretanto, a 13 de abril de 1723, aquela execrável pecha de negociadores da liberdade dos índios, quando antes, no início de suas atividades frei Pedro de la Rue Cirne se lamentava da truculência dos capitães-de-tropas, contra os selvagens. Seria verdadeiro aquele gravame infando? A realidade é que, dolorosa demais, eles foram intimados pelo rei a despacharem-se das missões, sob pretexto de servirem como escravos para as suas grangeirias e commercio.33

Outras ordens religiosas ainda assistiram na Amazônia, quais os Franciscanos da Província da Piedade e os Capuchos da Conceição da Beira e Minho. Os primeiros, em número de nove, desembarcam em Belém do Pará em novembro de 1693, dirigindo-se a Gurupá, sede das missões. Coube-lhes, pelas cartas régias de 19 de março de 1693 e 29 de novembro de 1694, a região de Gurupá e adjacências, rios Xingu e Trombetas e Amazonas até o Nhamundá.34 Realizaram obras importantes, como declara, na visita que lhes fez, frei João de São Joseph de Queiroz.35 Os Capuchos da Conceição chegaram em Belém em 1706, instalando-se em sítio que fora doado por José Velho. Ficaram, por decisão de 9 de maio de 1707, com os núcleos de Cayă, Conceição, Carajó, Marajó e Tueré, repartido dos Franciscanos de Santo António, decisão expedida aos 6 de setembro de 1706 pelo rei. Em 1714, a carta régia de 19 de fevereiro determinava que abandonassem as missões e fossem para o Maranhão. Tudo isso motivado por divergências entre as Ordens. Questão de interesse terrenos, ou meramente espirituais? Logo no ano seguinte a decisão era revogada pela carta régia de 12 de fevereiro, em virtude do protesto dos Capuchos. A 23 de fevereiro, outra carta régia expungia-os e ordenava a demolição do hospício dos Capuchos e sua ida para o Maranhão. A esta ordem drástica sucedeu a carta régia de 1.º de março do mesmo ano, que revogava a anterior. Daí por diante ficaram os Capuchos entregues aos seus que fazeres, fundando obras de beneficência em Belém.

Por diante o trabalho da Igreja evidencia-se em toda a bacia, culminando sempre com a criação de núcleos de povoa- mento e progresso de aldeias que se transformam milagrosamente em cidades, arrancando à tirania do espaço a mística dos sonhos aurigenas. É a terceira etapa da conquista que começa com as tropas de resgates e termina com a implantação da fé. O missionário não deixava de ser um soldado nessa luta silenciosa mas titânica e disciplinada pela conquista das almas. E conquistando as almas rudes dos selvagens ele estava conquistando a terra.

___________________________

16 0 ilustre sacerdote visitou o Tocantins, Pacaja e Xingu. Naufragou na costa da ilha de Marajó, em julho de 1643, sendo trucidado pelos selvagens. Serafim Leite, Novas Cartas Jesuítas – Brasiliana, 254.

17 Cf. supra, III, texto, 207. Rio de Janeiro, 1943. A alegação a que se refere o autor vem na mesma pagina: “O Procurador do Povo, temendo que os Jesuítas se opuzessem a sua rapacidade no cativeiro dos índios, respondeu negativamente, alegando que já tinham outros religiosos” – Vide Berredo, op. cit., loc. cit.

18 Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, III, 208.

19 João Francisco Lisboa, Vida do Padre Antonio Vieira, 40, foot notes. 4. edição – Rio de Janeiro, 1884.

20 Vide nossa monografia histórica – Fundação de Manaus, 7.

21 Diz Arthur Reis que entregaram porções de tratos da margem esquerda, como Gurupatuba e todo o Rio Negro, que primeiro haviam explorado espiritualmente.

22. Vide Diário, cit.

23 Arthur Reis, op. cit., retro, 23.

24 Foi fundada por Pedro da Costa Favela, auxiliado pelos Aruaqui daquela região, próxima de Aruim. É hoje a quase decadente povoação de Airão.

25. É hoje a cidade de Barcelos, antiga capital da Capitania de São José do Rio Negro. Dela, dos seus monumentos, nada mais resta, a não ser as ruinas soterradas do cemitério e igreja. Do forte nem ruinas. Lá está enterrado o grande Lobo d’Almada.

26 Antes dessa época, porém, já assistiam aqui, em 1693, auxiliados pelos Jesuítas, que lhes haviam atribuído a área do Rio Negro.

27 Significa buraco pequeno e é também o nome de um abrigo de palha muito reduzido que fazemos índios, aberto a favor do vento. A cidade foi fundada no século XVIII, vindo de uma missão criada pelo padre Samuel Fritz no Solimões e mais tarde reconstruída pelo padre Sana.

28 Situada na parte oriental do lago de Tefé (originariamente Tupeba), uma das missões fundada em 1709 pelo padre Samuel Fritz.

29 Faleceu em viagem, antes de atingir Belém.

30 Idem, idem.

31 Acrescentou-se lhes sete vacas de leite.

32 Fundiram-se, formando a aldeia de Saracá, no lago do mesmo nome, hoje cidade de Silves, cuja missão foi fundada por frei Raimundo.

33 Arthur Reis, op. cit., retro, 33.

34 Idem, idem 36.

35 Viagem e Visita do Sertão, em o Bispado do Gram-Pará em 1762 e 1763, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, IX, 63-64, 2. edição, 1869. É aí que se conta a histórica tragédia daquele homem rico, em cujas casas fundou-se o hospicio de São José, “distante de Belém um quarto de légua”, e cuja mulher índia, de seu natural ciumenta, matou e fez servir à mesa a uma rapariga que criavam, simplesmente porque seu marido lhe havia elogiado os olhos belos.

*Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004). Amazonense de Manaus, historiador, folclorista, geógrafo, professor jornalista e escritor. Pesquisador do INPA, membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. É o autor que mais escreveu livros sobre História do Amazonas, com quase 50 títulos.

 

Compartilhe nas redes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

COLUNISTAS

COLABORADORES

Abrahim Baze

Alírio Marques