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Manaus, 7 de agosto de 2022

As Pedras do Rosário (II)

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Memorial Indígena

Data de muitos séculos a presença de humanos na Amazônia. É muito provável que os primeiros habitantes chegaram ao Continente Americano há mais de 15 mil anos, em três ondas migratórias vindas da Ásia. Atravessaram as Américas do Norte e Central, passaram pelo Istmo do Panamá e se introduziram na América do Sul pelo território da Colômbia. Daí em sua lenta expansão chegaram à Amazônia.

Apesar dos variados relatos sobre o assunto, é difícil obter estimativas quanto à população da Amazônia à época da conquista. Os demógrafos John Hemming (1935) e William Denevan (1931) apresentaram estimativas populacionais chegando a diferentes conclusões. O primeiro aventou a possibilidade de que eram 2,4 milhões de habitantes e o segundo sugeriu a população amazônica entre 5 e 6 milhões de pessoas.

Esses números foram desmontados em 2015 por uma equipe de pesquisadores brasileiros e norte-americanos liderados pelo ecólogo suíço Charles Clement (1889-1972), do INPA. Segundo a teoria desses estudiosos, a Amazônia pré-cabralina abrigou cerca de 8 milhões de habitantes, o equivalente à população do Brasil inteiro no século XIX.

O primeiro europeu a percorrer o rio Amazonas de ponta a ponta foi o navegador espanhol Francisco de Orellana em 1542. Contrariamente ao que se propalava até pouco tempo atrás, há evidências de que o aventureiro não exagerara em seus relatos, estava correto em suas observações de que uma civilização complexa estava florescendo ao longo da Amazônia na década de 1540. Essa civilização mais tarde foi devastada pelas guerras promovidas pelos invasores e a propagação de doenças provenientes do Velho Mundo, como a Varíola.

O frei dominicano espanhol Gaspar de Carvajal (1504-1584), escrivão da expedição, relata que a região era densamente povoada, com registro de aldeias com mais de 20 quilômetros de extensão; afirma que os índios, diante dos invasores, ora se apresentavam amistosos, ora em atitudes de grande ferocidade; relata enfim que, a regularidade das atividades agrícola e extrativa na região voltadas para o autoconsumo, resultava em comida farta na mesa dos nativos. Orellana e os demais caravaneiros ficaram impressionados com a profusão de alimentos: tartarugas, peixe-boi e outros peixes, carne de caça, frutas, biscoitos e beijus de milho e mandioca, macacos assados, galinhas, mandioca, milho, farinhas, etc.

Pela descrição de Carvajal, descobre-se que os primeiros habitantes do Médio Amazonas eram idólatras, tinham lá seus mitos. Eles adoravam o Sol que o tinham como Deus. Ao se aproximarem da boca do rio Madeira, os expedicionários avistaram uma grande aldeia de “gente muito belicosa” que os esperavam em pé de guerra, “com suas armas e escudos nas mãos, fazendo grande algazarra”, e tiveram que fugir. Era grande a diversidade de índios no território da atual Itacoatiara. Os indígenas defendiam com valentia o seu espaço, porém, mais fortes em armas e astúcia, os europeus agiam com redobrada violência.

Os fatos comprovam: além de inumeráveis, os nativos eram fartos em alimentos. Abaixo do paraná da Eva, os expedicionários defrontaram-se com uma pequena povoação onde havia “muito peixe secando nos varaus”, peixe e tartaruga em tal abundância que eles puderam abastecer largamente seus bergantins. Nas cercanias de São José do Amatari, entraram em conflito com os índios, mataram vários deles enforcados e outros fizeram prisioneiros. Nas proximidades da ilha do Cumaru e do paraná do Arauató “levantaram-se mais de cinco mil índios com as suas armas, e começaram a dar gritos e a desafiar [os invasores], a bater com as armas umas nas outras, fazendo um tal ruído que parecia que o rio vinha abaixo”.

O imenso caudal amazônico foi chamado de Mar Dulce, por Vicente Yiañez Pinzón (1462-1514), ao passar por seu estuário em 1500, e de rio Orellana, depois dessa expedição inédita, até receber seu nome definitivo (rio das Amazonas), por sugestão do rei Carlos V (1500-1558), após ouvir do próprio Orellana o relato sobre os ataques que a expedição sofreu das mulheres guerreiras de Nhamundá, assemelhadas, na visão de Carvajal, àquelas da mitologia grega.

A surpresa causada aos primeiros exploradores do rio Amazonas pela numerosa população que habitava suas margens foi registrada em textos, como o abaixo citado de Cristóbal de Acuña (1597-1670), escrivão da frota de Pedro Teixeira:

“[…] Todo este mundo novo está habitado de bárbaros em distintas províncias e nações; as de que posso dar fé, nomeando-as com os seus nomes, e designando-lhes seus distritos […] passam de 150, todas de línguas diferentes, tão dilatadas e povoadas”.

Escrevi há pouco que a história de ocupação da Amazônia começou quando levas de imigrantes asiáticos chegaram ao vale do Amazonas no período pré-colombiano. No momento em que essas populações passaram a desenvolver a agricultura e viver numa mesma área de terra, sociedades indígenas diversas e mais complexas emergiram nessa região. Esses povos mais desenvolvidos viveram na Amazônia cerca de 2 mil anos antes da chegada dos europeus manejando a floresta de forma adaptada. Dela, os nativos extraiam os recursos necessários para a sua sobrevivência e desenvolvimento.

O contato das sociedades indígenas com os europeus, a partir do século XVI, desencadeou mudanças extremas nos modos de vida dos primeiros amazônidas, principalmente os moradores de área de várzea. Em 1639, Cristóbal de Acuña apresenta-nos o relato do “descoberto” rio Amazonas, onde descreveu, em linhas gerais, as nações indígenas e seus costumes, tudo com uma linguagem eurocêntrica e moralista. Para Acuña, os índios eram inclinados às bebedeiras e faziam vinho de frutas. Explicou sobre o consumo de peixes e tartarugas em grande escala.

Por óbvio, este grande contingente populacional não formava um único e uniforme grupo. À época da conquista, a Amazônia era habitada por grupos de troncos linguísticos Tupi, Aruak, Karib e alguns classificados como de línguas isoladas.

No atual Estado do Amazonas eram centenas de nações distribuídas por todas as calhas de rios, estando entre as mais destacadas: a) no Solimões – os Omáguas, Jurimáguas, Ibanomas e Assuiares (do grupo Tupi); b) no rio Negro – os Manáo, Baré e Tarumã (do grupo Aruak); c) no Amatari – os Periquito e Sapopé (grupo Tupi) ao lado dos Aroaqui (grupo Aruak); d) no Médio Amazonas, à margem esquerda do Amazonas, entre o rio Preto da Eva e o Uatumã – os Aroaqui, Abuqueno, Pariqui, Uaçaí, Jauaperi, Baneuri e Anibá (grupo Aruak); e) no Baixo Amazonas, à margem esquerda do grande rio, entre o Nhamundá e o Trombetas – os Aroaqui, Apantos, Conduri, Bubuis, Tabaus, Cariató, Terecumã e Sedeuy (grupo Aruak).

Quanto aos silvícolas do vale do Madeira, nas cercanias de Itacoatiara, lá habitavam mais de vinte nações com destaque para os Abacaxis e Tupinambarana, do grupo Tupi. Em fins do século XVI os Tupinambarana já dominavam a ilha homônima que se estende do Médio Madeira ao Baixo Amazonas. No século seguinte, membros do grupo Tupi mais conhecidos nesse trecho eram os Abacaxis, Iruri, Torori, Paranapixana, Aripuanã e Onicoré; e do grupo Karib, os Arara. Em meados do século XVIII, no paraná do Urariá e cercanias preponderavam os Sapupé, Comani, Curitiá, Aitouariá, Urupá, Braurá, Acaraiuará, Maturucu, Abacaxis (do tronco linguístico Tupi) e os Torá (do grupo Xapacura).

Na segunda metade do século XVIII compunham a população municipal de Itacoatiara: os Abacaxis, Aponariá, Baré Curuaxiá, Iruri, Juma, Juqui, Onicoré, Urupá e Pariqui (mistura de Tupi e Aruak), os Mura (de língua isolada) e os Iriju e Tiari (grupos linguísticos desconhecidos). Os índios Pariqui haviam descido do rio Uatumã e os Tiari, do rio Purus.

Desde a entrada de Orellana, há 480 anos, a ofensiva sobre as terras tradicionais e o número de assassinatos de índios tem aumentado assustadoramente. O genocídio sistemático continua a destroçar vidas e esperanças e os povos nativos vêm sendo drasticamente reduzidos. Estima-se que existam hoje 1,3 milhão de índios em nosso País. De acordo com o censo de 2010, realizado pela Fundação IBGE, vivem no Brasil cerca de 896,9 mil índios, representados por 806 etnias. Em 2013, na Amazônia haviam 448 Terras Indígenas (TIs) que ocupavam cerca de 26% do território da região.

Antigamente apelidado de ‘rio sagrado dos Aroaqui’, o Urubu foi totalmente ocupado por índios dessa etnia. Oriundos das fronteiras de Venezeula e Colômbia, eles chegaram à região no período précolombiano. Contavam-se aos milhares e, até 1664, nominavam o rio de Burururú. Naquele ano, essa histórica corrente de águas negras foi palco de um conflito armado pelas Tropas de Guerra portuguesa. Entre os militares, Pedro da Costa Favela tinha mais fama de “matador de índios”. Foi quem dirigiu a equipe militar que tratou de revidar as ações de defesa dos Aroaqui e massacrou 700 deles, levou 400 prisioneiros para Belém e incendiou 300 malocas. O doloroso acontecimento ficou conhecido como a Tragédia do rio Urubu.

Enquanto o missionário frei Raimundo das Mercês rezava missa em homenagem aos falecidos, na capela de palha de Sant’Ana de Saracá (atual Silves), os que escaparam da refrega perambulavam como almas penadas à procura de auxílio. Cadáveres assomavam em várias partes da orla e até no meio do rio. Eram tantos corpos insepultos produzindo um cheiro horrível que atraía urubus, aos milhares, vindos de todos os cantos. As aves funéreas esvoaçavam apressadas e pousavam sobre os restos humanos para ‘degustar’ a carniça repugnante que dali resultara. A notícia correu o mundo e Deus chorou sobre o rio.

O quadro dantesco dali resultante traria problemas de poluição ambiental e atmosférica para o lugarejo amazônico, que levou anos para ser extirpado. A lição que assimilamos do acontecido é a de que, ali, confluiram Mitologia e História. Ficou comprovado que a ave urubu é uma figura emblemática no convívio cotidiano da atual cidade de Silves: um sentimento forte que perdura até hoje e perdurará para sempre. Em novembro deste ano de 2022, a troca do nome Burururú para rio dos Urubus (simplicado para Urubu) fará 358 anos, lembrando que em janeiro deste ano, Silves comemorou seus 362 anos de existência.

O lado triste da história atual é que na pequena e hospitaleira Silves pouco ou nada se fala de índios. Os Aroaqui desapareceram fisicamente e também da memória de seus descendentes. O lado bom é que a larga região fronteiriça aos municípios de Itacoatiara e Silves ainda é pouco explorada e a biodiversidade acha-se razoavelmente preservada. O rio Urubu e a maioria de seus afluentes estão entre os melhores para a prática de pesca e mergulho, pois seus leitos são limpos e a temperatura da água é morna em qualquer período climático. Lá imperam os ‘hotéis de selva’ acessíveis ao turismo nacional e estrangeiro, mas, sobretudo os ‘banhos’ simples e agradáveis disponibilizados às famílias de ambos os municípios.

Em Silves inexistem terras indígenas, um reflexo da Tragédia do Urubu, de 1664. A única reserva dessa categoria fica em Itacoatiara, quase no limite entre os dois municípios. A Terra Indígena Rio Urubu, administrada pela FUNAI/Manaus, com uma área de 27 mil hectares, é habitada por índios Mura que migraram dos rios Madeira e Autazes. Em 2010 registrava 378 habitantes. Tem os mesmos problemas de desassistência social e política, como é comum em todo o Brasil.

Segundo o historiador Manoel Anísio Jobim (1877-1971), dos Aroaqui só restaram os cerâmeos do cemitério na Costa de Miracanguera, situado na margem esquerda do Amazonas, defronte à ilha da Benta, pouco acima da cidade de Itacoatiara. A necrópole indígena tinha quase um quilômetro de extensão, antecedeu ao ‘descobrimento’ da América e só deixou de receber enterramentos quando da dispersão dos Aroaqui, no final do século XVII para início do XVIII. No século XIX à metade do seguinte, foi estudado por vários cientistas nacionais e estrangeiros.

Devido aos desmoronamentos provocados pela correnteza do rio, Miracanguera praticamente desapareceu. Nas décadas posteriores a 1940 as águas fluviais começaram a escavar o litoral, deixando à mostra um rico tesouro arqueológico que se ocultava sob as rochas ribeirinhas. O rico acervo – louças de barro cozido e igaçabas de várias formas e tamanhos – foi todo revirado pelas águas, e grande parte coletada por curiosos e/ou desviada por estudiosos para museus de Belém, outras capitais do centro-sul e até do exterior.

Outra lembrança que impera entre nós sobre os extintos Aroaqui são os desenhos rupestres de faces humanas e animais talhados em rochas do decadente Sítio Itaquatiara, na orla do Jauari, e nas pedras dos sítios Careta e Pedra Chata no Baixo rio Urubu – visíveis quando da descida do nível das águas. Tais hieroglifos são parecidos com os que existem em Puraquequara, nas proximidades de Manaus. Gravados em épocas diferentes, provavelmente no período entre 2 e 7 mil anos atrás, podem simbolizar pessoas vivas, faces de antepassados, espíritos, heróis místicos ou máscaras de rituais. Talvez denunciem uma forma de comunicação entre membros de populações pré-históricas de Itacoatiara, Silves e Manaus.

Em seguida ao genocídio do rio Urubu, as rebeliões e ações sanguinárias contra indígenas repetiram-se em vários trechos do rio Madeira, outrora território municipal de Itacoatiara, como descreveremos parcialmente em seguida.

Corria o ano de 1714. Na extensa lista de etnônimos anexa a uma carta enviada pelo jesuíta Bartolomeu Rodrigues (1674-1714) ao padre Jacinto de Carvalho (1677-1744), a um só tempo é relatada a situação demográfica do rio Madeira e feita a primeira menção aos índios Mura. Estes, embora acantonados no rio Ji-Paraná, aqui e ali faziam umas incursões pela povoação de Abacaxis, no Baixo Madeira, em cujo entorno viviam 27 tribos de várias denominações. Somadas a outras que habitavam no trecho intermediário Madeira-Tapajós, totalizavam 75 nações.

Uma dessas tribos correspondia aos Torá. Eram tantos os membros dessa etnia que lhes chamavam “O Formigueiro”. Procediam do rio Maici – desde a foz do rio Machado às cabeceiras do Marmelos – e do Baixo Jamari. Revoltados, eles tentaram impedir a invasão de seus domínios. Dilataram suas correrias até o curso do rio Amazonas, onde iam assaltar canoas de regatão e traficar cacau. Severamente reprimidos, em 1716, chegaram quase à extinção. Primeiramente perseguidos pelo capitão-mor João de Barros Guerra (c.1661-1716), com a morte deste sob um pau que caiu sobre a embarcação que o conduzia, em junho daquele ano, as diligências de guerra passaram ao comando do capitão de infantaria Diogo Pinto da Gaia (c.1678-c.1733), auxiliado pelo sargento-mor Francisco Fernandes.

Reduzidos, os Torá pediram paz que lhes foi concedida com a condição de se descerem e agregarem à aldeia de Abacaxis, junto com contingentes de outros grupos linguísticos. Outra parte da tribo foi levada para um aldeamento na foz do Xingu, no Grão-Pará. Simultaneamente, índios da etnia Mundurucu se insurgem com os colonos. Estes, reunidos em flotilha, comandados pelo tirânico Diogo Pinto da Gaia, enfrentam tais nativos e logo os expulsam do rio Madeira.

Todavia, nem bem se refizera dos ataques dos Torá e Mundurucu, a população ribeirinha do Madeira passou a ser incomodada pelos Mura. Conhecidos na etnografia portuguesa como os “Corsários do caminho fluvial”, eram experientes remadores e rápidos no manejo do arco e da flexa. Em 1715 iniciaram os combates contra a frente de expansão portuguesa; depredaram aldeias, apropriaram-se de canoas, atacaram e mataram viajantes, além de tomar-lhes os bens.

Em 1720 recrudescem os ataques dos Mura. O jesuíta frei João de Sampaio (1680-1743), que se revezava assistindo às missões de Santo Antonio das Cachoeiras e Abacaxis, consegue aproximação com uma maloca dessa tribo. Convencidos a abandonar a luta armada e a vir morar em Abacaxis, pelo que seriam premiados com ferramentas, roupas e alimentos, os Mura começam a se preparar para a mudança. Então apareceu um colono que, dizendo-se emissário de frei João de Sampaio, embarcou vários deles num bergantim e os remeteu para Belém onde foram vendidos como escravos. Ao tomarem conhecimento da trama, os Mura retomaram a luta contra os agentes portugueses redobrando suas correrias pelo interior. Descendo à aldeia de Abacaxis, saquearam casas e roçados, mataram e aprisionaram vários de seus habitantes.

Na década de 1740/50, muitos colonos abandonaram suas idas ao rio Madeira para colher cacau por temerem os Mura. Acusados de matar índios remeiros das equipes de catadores da floresta e de dificultar o trabalho dos jesuitas comprometendo o crescimento da atividade missionária, os valentes nativos também sofreram baixas. Estima-se que, em mais de meio século de luta, 30 mil deles foram mortos contra cerca de 10 mil de colonos e membros das tropas invasoras. Nas terras de Itacoatiara e Autazes, onde eram majoritários, pouco ficou deles!

A propósito, escrevi em 1997:

“[…] Os Mura, lutando destemidamente em legitima defesa própria, resguardavam suas vidas, sua forma de organização social e econômica, seus mitos, sua cultura. Batalhavam em prol de suas terras, de suas famílias e de seus companheiros. Estereotipados como vilões e decantados como insolentes, preguiçosos e bárbaros, na verdade respaldavam suas correrias em gestos nobres, patrióticos. Além da repressão oficial e das doenças como bexiga, sarampo e varíola, os Mura enfrentaram seus inimigos maiores: os Mundurucu. Tudo isso os deixou bastante vulneráveis”.

Todavia, segundo a abalizada opinião da professora da USP Marta Amoroso, “Os índios da etnia Mura só se renderiam em 1784, deixando de existir como a feroz nação para as autoridades portuguesas”.

Muito já se escreveu sobre os Mura, e o primeiro autor que os referenciou diretamente foi Henrique João Wilkens em “Muraida ou o Triunfo da Fé”, um poema épico escrito em 1785 e inspirado nos modelos clássicos greco-latinos. Na opinião da professora da UEA Verônica Prudente Costa: “Através dessa obra, podemos vislumbrar uma das faces da empreitada colonial”; na do professor da UEA Francisco Bezerra dos Santos: “O poema aborda o encontro entre o indígena e o colonizador, celebra a catequização e pacificação dos Muras frente ao projeto de colonização”; e na do escritor Márcio Souza: “Investido de poeta, João Wilkens inaugurou nossa tradição literária de maneira significativa, louvou a subjugação da nação Mura pelas tropas portuguesas criando uma poesia de genocídio”. Na verdade, a obra de Henrique João Wilkens trata da vitória dos portugueses sobre os Mura. Reforça o pensamento etnocêntrico do choque entre a civilização europeia contra a barbárie dos indígenas. Trata-se claramente de uma obra ideológica com o intuito de exaltar a força da fé católica e sua dimensão salvadora.

* Capítulo Segundo do livro As Pedras do Rosario do Autor.

Obs. Este artigo teve suprimidas suas notas. A quem interessar a leitura do texto original, completo, pode acessar o link a seguir.
https://franciscogomesdasilva.com.br/bibliografias/

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