Manaus, 3 de fevereiro de 2026

Descobrindo o patrimônio Cultural de Itacoatiara

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Eder de Castro Gama

Continuação …

CAPÍTULO 4

A ORLA E O SÍTIO ITACOATIARA

No dia seguinte, os alunos mais uma vez chegaram cedo na escola. Desta vez, todos animados para saber de onde veio a Pedra Pintada. Estevão pensava, que também a comunidade de Itapeaçú deveria ter alguma inscrição que marcava presença dos primeiros habitantes em sua terra natal.

Desenho de um cachorro

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Depois que todos os alunos estavam no ônibus, foi dado uma volta por toda a orla de Itacoatiara do lugar chamado Centenário próximo ao bairro da Colônia até ao bairro do Jauary. A professora pediu para que todos olhassem com atenção a vazante do rio e as pedras que estavam a vista na beira do rio.

10. As Grandes Navegações do séc. XVI na Amazônia

– Crianças vocês sabiam que esta orla sempre esteve à vista dos grandes navegadores desde o século XVI? Pois bem, esta área era densamente povoada pelas populações indígenas. O Primeiro Navegador a cruzar toda a extensão do Rio Amazonas foi Francisco de Orellana no ano de 1542, em busca do El Dorado.

– Professora, Já vi este nome El Dorado. É um nome de um conjunto residencial lá de Manaus. Falou Eduarda.

– Sim Eduarda! Significa o dourado ou aquele repleto de riquezas. Comentou a professora.

– Tudo iniciou quando os Europeus ouviram falar na descoberta do Novo Mundo, no ano de 1492 por Cristóvão Colombo (1452-1516) ao tentar descobrir uma rota comercial para as índias. O navegador de origem Italiana de Génova, trabalhava para a Coroa Espanhola, aportou em um lugar conhecido hoje como Antilhas na América Central. Após este primeiro contato com as populações indígenas o navegador viu a possibilidade de exploração desta nova terra, passaram a fazer trocas com os indígenas com ouro e produtos extrativistas como madeira. O domínio espanhol foi conflituoso. Porém, a sua sede de extração dos produtos da floresta e ouro alimentaram sua ganância por dominação.

– Na medida que avançavam para o centro e a parte sul da América, encontravam mais riquezas e ouviram falar de um reino muito rico e cheio de tesouros, chamado de o Reino do El Dorado. O chefe desta tribo recebia em todo o corpo uma camada de ouro em pó, e em seguida banhava-se em um lago.

– Os Navegadores e Conquistadores pensavam que talvez fosse daí do Reino do El Dorado que Salomão tivesse tirado ouro e prata que ajudou na construção do Templo de Jerusalém. Ou que talvez existissem reinos perdidos no meio da selva, que existisse a fonte da eterna juventude e das cidades encantadas, habitadas por Amazonas Guerreiras, pigmeus, homens sem cabeça, homens com rabos ou outros tipos de monstros. Na medida que os Conquistadores avançavam eles ouviam falar da lenda do El Dorado.

– Então turma, outro conquistador espanhol que tentou encontrar o reino do El Dorado foi Gonzalo Pizarro no ano de 1541 depois de 10 meses chegam ao Rio Napo, é um grande rio que nasce no Equador, atravessa o Peru e desagua na margem esquerda do rio Solimões que é um dos rios que compõe o rio Amazonas. Lá encontram outro Espanhol Francisco Orellana (1490-1550), sendo nomeado Comandante Geral das Forças Combinadas, decidiu ajudar Pizarro na busca por comida. Foi quando equipou seu bergantim (navio) com armas de fogo, carga pesada e um pouco de comida, em companhia de 70 homens, sendo um deles um padre cronista Frei Gaspar de Carvajal (1504-1584), responsável em fazer o diário da expedição, seguiram para rumo ao grande rio Amazonas, que no ano de 1500 recebeu o nome de Santa Maria de Lar Mar Dulce, que significa Santa Maria do Mar Doce, batizado pelo Navegador Vincent Pizarro, que esteve pela primeira vez na foz do rio Amazonas, que descreveu como um conjunto de ilhas que fica entre os Estados do Pará e Amapá na região norte brasileira.

– A viagem comandada por Orellana, seguiu por todo o ano de1542, em 03 de junho deste ano chegaram a boca do Rio Negro, onde descreve o fenômeno do encontro das águas (encontro entre os rios Negro e Solimões). O nosso historiador Itacoatiarense Francisco Gomes nos fala que Orellana no dia 10 de junho descobriu a boca do Rio Madeira e no dia 11 de junho passou em frente ao Sítio Itacoatiara.

– Crianças, sobre esta passagem destes navegantes por este rio, tem um outro pesquisador Max Baraúna que nos conta que quando o Capitão Orellana passou pela Boca (entrada) do Rio Madeira, deu o nome de “Rio Grande”. E seguindo a viagem descendo o rio, passou por uma povoação muito grande, neste lugar que hoje é a cidade de Itacoatiara, foi quando notaram a presença de muitos índios armados, que nas suas contas tinham entorno de 5 (cinco) mil guerreiros com suas armas, que começaram a bater uma na outra, fazendo um ruído (barulho) tão forte e alto que parecia que Rio vinha abaixo (estava desmoronando em água). Em muitas vezes, os navegantes achavam que estava chovendo, pois eram tantas flechas que lançavam sobre a embarcação que vinham como chuva. Seguindo pelo Rio ao passar por uma ilha, que hoje é atual cidade de Parintins, viram sete picotas, espalhadas em vários lugares da aldeia, tendo pregada nelas muitas cabeças enfiadas na ponta da lança (pareciam troféus), não se sabia ao certo se eram cabeças dos índios Munduruku ou de Parintintim que tinham hábitos de cortar cabeças de seus inimigos. Por isso, lugar foi chamado de Província das Picotas.

– E no dia 24 de junho na região do Rio Nhamundá, abaixo de Parintins, guerrearam com as Índias Amazonas. Era a área da Grande Chefe das Amazonas Amurians. Sabe-se depois que era a tribo das Icamiabas.

– Frei Gaspar de Carvajal nos conta que eram mulheres guerreiras de alta estatura, pele branca, cabelos longos amarrados em tranças, robustas e nuas, vestidas apenas com uma tanga. Diziam que elas viviam no interior da selva, não moravam com homens, quando queriam reproduzir, capturavam os guerreiros, faziam filho com eles, quando nasciam mulheres ficavam na tribo para ser educada na arte da guerra, se fossem homens, eram mortos ou entregues para seus pais.

– Depois que Francisco Orellana cruzou toda a extensão do Rio Amazonas chegando até a foz do Rio Amazonas no Arquipélago do Marajó no Pará, foi mudado o nome do rio de Mar Dulce para o Rio das Amazonas. Infelizmente Orellana morre doente e faminto e é enterrado as Margens do Rio Amazonas no Pará.

– Professora, estas rochas que estão em toda extensão da cidade de Itacoatiara presenciaram a passagem do Capitão Orellana? – Perguntou Estevão entusiasmado com a história que ouvia.

– Sim Estevão, estas rochas são testemunhas da passagem humana pelo Rio Amazonas. Comentou a professora.

– Então como vocês podem notar, a nossa cidade está no centro de todos os acontecimentos históricos da Amazônia. Vocês já ouviram falar na cabanagem?

11. A Cabanagem

Desenho de uma pessoa

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– A cabanagem foi um movimento revolucionário que abalou as estruturas do poder colonial no Estado do Grão-Pará e Rio Negro, ocorrida entre os anos de 1835-1840. Tudo ocorreu porque os índios, os mestiços, os colonos pobres sem-terra e o negro, estavam cansados das desigualdades sociais, problemas econômicos e insatisfação com o Governo Imperial, sentiam-se explorados pelos grupos de homens que estavam na Capital do Pará.

– Movimento iniciado na cidade de Belém, tiveram os seguintes líderes, Francisco Vinagre, Francisco dos Anjos e Apolinário Maparajuba que tinham como ideais a busca por igualdade econômica, a insatisfação com o governo e a influência das ideias liberais.

– A Cabanagem subiu o Amazonas com o Apolinário Maparajura até a Capitânia de São José do Rio Negro com uma tropa de 1800 homens, passavam pelas margens dos rios, foi até o Povoado de Maués, Autazes e o rio Içana.

– Em janeiro de 1836 a Vila de Serpa e São José do Amatary são tomadas pelos cabanos, abandonada a toda sorte pelo Capitão da Guarda Nacional que teve que socorrer a Vila de Manaus que também estava sendo atacada. Foi saqueada, a sua produção agrícola e os documentos oficiais como a Carta Régia da Coroa Portuguesa delimitando o seu espaço urbano. Nesta época viviam umas 700 pessoas no lugar, eram, brancos, mamelucos, mestiços e índios.

– Como resultado a Cabanagem fez muita repressão aos poderosos, sobretudo, quem comandavam as vilas, reconstrução da província, transformações políticas, conscientização sobre desigualdade e um legado cultural sobre a cultura Amazônica.

– Professora, a final o movimenta da Cabanagem foi bom ou ruim? Perguntou Benedito.

– Este movimento, foi bom porque chamou atenção para os problemas sociais que as pessoas estavam submetidas, como exploração dos indígenas e dos pobres. Foi ruim porque houveram muitas mortes, calculadas em 30 mil pessoas em toda Região Amazônica, além da destruição de documentos históricos como a Carta Régia da delimitação urbana da Vila de Serpa, e a morte de todos os Brancos na Vila de Maués, feita pela tribo Sateré-Mawé.

– Meus alunos, como vocês podem observar aqui na orla temeste monumento que representa a Batalha Naval, concebida por um grande artista plástico e escultor Thyrso Muñoz residente na cidade de Itacoatiara.

12. Monumento da Batalha Naval

– Professora, aqui teve uma batalha naval igual aquelas que assistimos nos filmes? Perguntou Patrícia.

– Sim Patrícia! Respondeu a professora.

Neste momento, todos os alunos ficaram animados para saber da história.

– A Batalha Naval de Itacoatiara, foi a única ocorrida em águas brasileira e a primeira da América do Sul em pleno século XX. Tudo ocorreu porque no Brasil acontecia em São Paulo a Revolução Constitucionalista, que foi um movimento que nasceu para derrubar o governo provisório do Presidente Getúlio Vargas em 1932, (governo este que tinha tomado o poder por um golpe de Estado em 1930) e convocar uma Assembleia Geral Constituinte para formular uma carta das leis do país. Este sentimento de uma revolução constitucionalista, fez com que o coronel, Alderico Pombo de Oliveira e o general Bertholdo Klinger, iniciassem uma revolta desde a fortaleza de Óbidos no Estado do Pará passando pelas cidades ribeirinhas do Amazonas até chegar na cidade de Manaus, considerada ponto estratégico e de abastecimento na Amazônia.

Texto

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– Foi quando em 21 de agosto de 1932, chegou na cidade de Manaus, a notícia de que os navios “Andirá” e “Jaguaribe” tinham sido sequestrados pelos rebeldes. Após partirem da cidade de Óbidos do Pará em direção à Manaus, logo chegaram a cidade de Parintins aqui no Amazonas, cidade que não apresentou nenhuma resistência por não ter guardas.

– Logo a notícia espalhou-se por todo Amazonas, de que Parintins estava tomada pelos rebeldes, a população da cidade de Itacoatiara ficou temerosa, pois sabiam da sua importância estratégica no médio Amazonas.

– Professora, mais uma vez a cidade de Itacoatiara foi atacada! Falou Pedro com entusiasmo.

– Sim Pedro, vaja só a história. Às 6h da manhã do dia 24 de agosto, a flotilha (parte de uma frota de navios) rebelde navegando ao longo da praia da ilha de Serpa, avistou o Baependi e o Rio Jamari, que vinham de Itacoatiara. O Jaguaribe deu um tiro de festim e, em seguida, lançou uma granada, que passou pela proa do Baependi que era da frota dos legalistas, ou seja, do governo, tendo os dois navios fugido do combate.

– Às 10h da manhã, a frota rebelde estacionou em frente de Itacoatiara, iniciando as negociações, para a entrega da praça da cidade. Neste momento foi até o Jaguaribe na lancha Remus o padre Joaquim Pereira, vigário da cidade, e o prefeito Gonzaga Pinheiro, negociar para evitar o bombardeio da cidade e sob as orientações das tropas de Manaus que já estavam no lugar, pediram duas horas para evacuar toda cidade.

– Os rebeldes resolveram aguardar. E por volta do meio-dia enquanto o Jaguaribe preparava os seus quatro canhões de 75mm, iniciou-se a Batalha Naval de Itacoatiara. Como trovões, o Jaguaribe começou a atirar seus canhões contra o Navio Ingá dos legalistas, que mais do que rápido aproou e o atingiu o Jaguaribe pelo meio, abrindo-lhe um grande rombo, por onde penetraram rapidamente as águas do rio Amazonas, levando-o a pique, submergindo em poucos minutos em águas agitadas.

– Em outra cena, ao mesmo tempo o Baependi dos legalistas avançou contra o Navio Andirá dos revoltosos, com a sua tropa atirando. O capitão James Lemos, do Navio Andirá (da Amazon River), tentou hastear uma improvisada bandeira branca, com o seu dolman, mas foi atingido em um olho, por uma bala de fuzil. O Baependi chocou-se contra o Andirá, arrombando-o, levando-o a naufragar.

– A batalha naval durou aproximadamente quarenta minutos. O Navio Rio Curuçá dos legalistas ficou patrulhando o Rio Madeira. Todas as lanchas do porto de Itacoatiara foram ao local do combate, para o salvamento dos náufragos, que contribuiu para que não tivessem um número maior de mortos, até hoje indefinido.

– Conta-se que muitos mortos se deram pelo intenso tiroteio, pela largura e a correnteza do rio Amazonas, em frente a Itacoatiara, além de não se saber o número exato dos rebelados, pois muitos foram recrutados a força, pelas margens do rio Amazonas nas comunidades ribeirinhas. E sem falar de muitos cadáveres que desceram rio abaixo, que foram sendo recolhidos e enterrados pelos ribeirinhos.

– Os mortos e desaparecidos do Navio Andirá foram um foguista, um escrivão, um marinheiro, dois taifeiros, dois moços de convés, e 16 rebeldes dos 25 embarcados, totalizando 23 baixas.

– Do Jaguaribe morreram, um foguista, um marinheiro, o Arquimedes de Machado Lalor (dançarino e comediante nos Estados Unidos, morador de Óbitos – PA) e 40 rebelados. A lancha Diana levou sete feridos, para Manaus, e o Baependi alguns prisioneiros, logo recolhidos à Penitenciária.

– Itacoatiara teve um papel fundamental na defesa da capital Manaus como ponto estratégico de defesa. Se não fossem os navios da empresa Loyd, utilizada para o combate, Manaus certamente seria bombardeada e tomada, pois aqui não existiam artilharia, nem navios de guerra, revelando sua alta vulnerabilidade. Hoje temos a presença de um posto da Marinha do Brasil e dos navios para combate na capital Manaus.

– Professora, nunca ouvir falar desta batalha naval. – Falou Carlos.

– Crianças observem que este fato foi muito importante para o Brasil e é pouco divulgado. Porém isso está mudando com vocês, porque agora vocês sabem, e como vocês são inteligentes vão espalhar esta história para todo mundo.

– Obá! Falaram todas as Crianças entusiasmadas.

– Motorista desça a rua para o Nêgo das Pedras. Falou a professora.13. Sítio Itacoatiara

Chegando ao lugar chamado pelos Itacoatiarenses popularmente como Nêgo das Pedras a Professora mandou que todos os alunos descessem do ônibus e ainda em terra ela explicaria sobre a classificação arqueológica do lugar. E por meio de fotografias demostraria as imagens que estavam grafadas nas pedras. Pois, eles não sairiam para margem do rio devido os perigos, principalmente porque eram muitas crianças para duas professoras tomarem conta.

– Crianças aqui, neste lugar é conhecido popularmente como Nêgo das Pedras, por conta do comerciante cujo apelido é Nêgo, porém existe uma classificação para este lugar na arqueologia. Agora falarei mais sobre esta ciência e porque ela é tão importante para entendermos nosso passado.

– Professora, um dia desses, assistimos um filme com meu pai chamado Indiana Jones, lá tinha um personagem que ele era um arqueólogo que sai pelo mundo buscando tesouros. – Comentou Manu!

– Sim Emanuelle, é um filme famoso que retrata as aventuras de um arqueólogo pelo mundo, mas lá é puramente filme de ação. Comentou a professora.

– Atenção aqui. Arqueologia é uma ciência social que estuda o passado humano a partir dos vestígios materiais deixados pelos povos que habitaram a terra, ou seja, tem o sentido de entender como eram a vida das populações passadas como, saber o que comiam, saber como conseguiam estes alimentos, como caçavam, como se locomoviam, qual eram seus deuses, enfim todos os aspectos socioculturais e seus aspectos políticos econômicos.

– Conhecer as sociedades de antigamente é necessário para saber como se relacionavam com o meio ambiente, e este conhecimento nos dá possibilidade de ter clareza sobre os erros e acertos do passado, para nos dá possibilidade de viver bem com a natureza.

– Os profissionais que trabalham com arqueologia são os Arqueólogos. Tem palavras que são usadas frequentemente na arqueologia, por exemplo: Vestígio Arqueológico, Sítio Arqueológico e Pesquisa de Campo.

– Vestígio Arqueológico. A palavra vestígio significa: sinal, pegada, marca ou rastro; sinal de uma coisa que aconteceu de uma pessoa que passou. E Vestígio Arqueológico são considerados todos os artefatos produzidos por diferentes grupos que ocuparam a região Amazônica. Neste caso, os arqueólogos estudam todos os objetos e marcas, como por exemplo, terra preta de índio, ferramenta de pedra lascada ou polida, resto de alimentação humana, pinturas e gravuras feitas em paredes cavernas ou paredões (registros rupestres), cacos de louças, vidros, cerâmicas provenientes de vasilhas etc., metais antigos, ossos e muitos outros.

– Os locais onde são encontrados estes vestígios são os Sítios Arqueológicos, que podem ser de diversas naturezas dependendo do tipo ou tipos de materiais encontrados. A seguir exemplo de sítios arqueológico.

Diagrama

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– Sítio Lítico, são os vestígios de artefatos feitos de pedra ou polida, como raspadores, furadores, pontas de projétil e lascas e pedras em geral e machados. Estes objetos estão relacionados em grande parte à coleta e processamento de alimentos.

– Sítio Cerâmico, vestígios de artefatos feitos em cerâmica, com diferentes formas, padrões decorativos e relativos a diversas funções como armazenamento de alimentos e sepultamentos.

– Sítio lito-cerâmico são os vestígios de artefatos feitos em pedra e cerâmica.

– Sambaqui é muito comum nas áreas litorâneas, são elevações constituídas basicamente com resto de animais, como conchas, ossos e peixes e de mamíferos. São em formato de morros encontrados principalmente no litoral da Bahia, tem relação com modo de vida e de sepultamento dos mortos.

– Sítio Histórico, são os vestígios que indicam a chegada dos colonizadores europeus, ou de outros povos. Por exemplo, na cidade de Itacoatiara, pode-se dizer que o local de passagem entre o lago de Serpa e o Rio Amazonas que os negros moradores deste lugar utilizavam para navegar, até o rio Amazonas pode ser considerado um sítio histórico.

– Sítio de Arte Rupestre é o lugar que tem uma produção artística feita durante a pré-história ou época pré-colombiana na Amazônia, é onde se encontra pinturas nas paredes das cavernas ou no chão de área rochosas.

– Professora tem um filme que assistir com minha mãe chamada “Os Croods” passou na tv no domingo a tarde, e conta a história de uma família que vivia na pré-história e mostrava como os homens das cavernas faziam as pinturas nas paredes. Comentou Maria.

– Exatamente Maria! É um belo exemplo de arte rupestre neste filme. Mas saibam que aqui também temos, vou já demostrar para vocês.

– O Arqueólogo quando inicia o seu trabalho, faz primeiramente um levantamento bibliográfico sobre o tema, ou seja, ele vai para as bibliotecas pesquisar tudo sobre aquele lugar, este estudo é chamado de levantamento contextual, faz leitura de livros, jornais, revistas, assiste documentários, ler sobre entrevistas etc. Estuda também a paisagem natural da área, incluindo topografia, presença de igarapés, tipos de vegetação e tudo que possa interessar para pesquisa.

– Em seguida, faz o Trabalho de Campo. É o momento que ele vai para área a ser pesquisada, passar procurar os sítios arqueológicos, pelo método denominado Prospecção Arqueológica. O arqueólogo caminha no local com toda sua equipe em busca dos vestígios arqueológicos, que podem ser vistos a olho nu na superfície dos terrenos. E quando não encontra, faz muitos buracos no solo, chamadas de intervenção ou poços-teste, para procurar os vestígios, que são os materiais enterrados no solo e entender como o solo foi formado naquele lugar há muitos anos. Ele fotografa o lugar, conversar com a população próxima do sítio para capturar mais informações do lugar.

– Quando o Arqueólogo encontra o vestígio, faz a escavação para retirar o objeto. Ele usa métodos e instrumentos apropriados para recuperar o máximo possível do vestígio sem danificá-lo. Os principais instrumentos utilizados nesta etapa são: pinceis, colheres de pedreiro, baldes, pás e peneiras.

– Antes da retirada dos vestígios é preciso registrar exatamente o local onde foram encontrados (nome do sítio, quadrícula, profundidade/camada, número da peça). É realizado também um desenho (croqui) que indica a associação espacial entre os vestígios. Após a retirada do material é levado aos laboratórios de instituições de pesquisa como museus ou reserva técnicas de Universidades.

– Aqui no Estado do Amazonas temos reserva técnica do Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e o Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional (IPHAN), ambas localizadas na capital Manaus.

– E o que fazer ao encontrar um sítio arqueológico?

– Aqui no nosso Estado e na Amazônia como um todo, é comum encontrar vestígios arqueológicos, as vezes depois de uma grande chuva nos terrenos aparecem restos de cerâmicas, no lugar tido como terra preta de índio, lugar bom para plantar sempre aparecem peças de cerâmica ou até urnas funerárias. Ou nas cidades quando as pessoas vão cavar as fundações de uma casa ou para construir fossa séptica.

– Mas professora, o que fazer quando encontrar um sítio arqueológico? Perguntou Estevão.

– Crianças, é importante dizer que todo o patrimônio arqueológico é bem da União ou seja, do Estado Brasileiro. Porque tudo que está no subsolo é da Nação. A exploração ou aproveitamento desses bens ou desses recursos deverá ser realizado sempre em benefício de toda sociedade nacional.

– É importante dizer que é um crime causar qualquer dano ao patrimônio arqueológico. É proibido o comércio ou a destruição de material arqueológico. Tem que ser denunciado as autoridades.

– Bom, crianças vamos tentar entender os vestígios que comumente encontramos no solo. É dividido normalmente em tradição e fase.

– Tradição diz respeito a persistência em tempo e espaço de um conjunto de traços que caracterizam a tecnologia cerâmica. A fase, é qualquer conjunto de cerâmicas ou líticos, relacionados no tempo e no espaço, em um ou mais sítios.

– Aqui em Itacoatiara, temos vestígios arqueológicos denominada de Fase Itacoatiara de Tradição Borda Incisa, parecida como a Fase Paredão (séculos VII e XI dc.), com cerâmicas que têm várias características decorativas. A presença de decoração modelada é bem menor, estando restrito a apêndices (saliência externa acrescentada ao corpo da vasília, podendo ser alça, asa, flange ou ainda figuras tridimensionais zoomorfas [figuras de animais] ou antropomorfas [figuras humanas modeladas]), aplicadas sobre os ombros das urnas funerárias. As pinturas podem ser vermelhas ou pretas, formando motivos em gregas ou espirais sem em linha finas. São encontradas nas regiões do Rio Negro e Solimões.

– Mas também há outras fases na Amazônia. Fase Açutuba (século III dc), são cerâmicas como características com variedades de formas, são decoradas com a utilização de diferentes técnicas, como modelagem, incisões, excisões, engobo (camada de argila com substância vegetal) vermelho e pintura policroma, com várias tonalidades de vermelho, preto e branco.

– A Fase Manacapuru (século VII ao século IX dc), pertence a tradição Borda incisa ou Barrancóide. A sua relação cerâmica está associada a outros complexos do baixo Amazonas e do Caribe. É característico de cauxi como antiplástico, e vasos de formas variadas, que tem em comum modificações plásticas nas bordas e flanges labiais, servindo como suporte para aplicação da decoração que consiste em incisões em linhas finas como motivos geométricos, espiralados e em gregas.

– A Fase Guarita (século IX ao século XVI d.c.) é representada por toda extensão da Amazônia, desde a foz do Amazonas na Ilha do Marajó no Pará, até os formadores do alto Amazonas e seus afluentes, no Peru, equador e Colômbia. São diferentes da marajoara, as suas características decorativas é o uso do canelado, isoladamente ou em conjunto e vasilhas com flanges. A policromia é também utilizada na decoração de urnas funerárias antropomorfas, com representações quase naturalista da cabeça, membros e genitálias.

– Bem crianças, veremos agora como classifica-se este sítioarqueológico que estamos visitando hoje.

– Segundo a Arqueóloga Marta Cavallini em seu estudo publicado em 2014, este é o Sítio Ponta do Jauary, recebe este nome por causa que está localizada neste bairro aqui na área urbana da cidade de Itacoatiara, a margem esquerda do Rio Amazonas. A primeira descrição das gravuras foi feita pelo Padre João Daniel na segunda metade do século XVIII. O segundo a descrever este lugar foi Ermano Stradelli no ano de 1883, foi ele que interpretou as inscrições da pedra Itacoatiara, aquela que visitamos na praça da Matriz. O terceiro a registrar em livro foi Bernardo Ramos em 1930, foi que deixou claro que estas marcas nas rochas (petriglífos) representam rostos humanos e signos, que seriam associados a antigos alfabetos mediterrâneo, que estavam localizados ao lado e embaixo da cidade de Itacoatiara, acima de 4 blocos rochosos. O quarto a registrar no campo da arqueologia no ano de 1992 foi de André Prous, que descreve o sítio de Itacoatiara, como exemplo de manifestações rupestres que se afastam da tradição conhecida para Amazônia, apresentando painéis de sinais muito simples formados por bastonetes e secantes. E em 2010, em um trabalho relativo ao resgate emergencial do sítio, foi documentada a presença de rostos humanos picotados e de incisões geométricas (…) enquanto marcos simbólicos na paisagem (…) e destacando como as gravuras ainda constituem uma referência para cidade de Itacoatiara.

– O tipo de sítio é considerado como de arte rupestre a céu aberto na beira do rio. A técnica é de gravura; picotamento direto, incisão e abrasão. Ou seja, este sítio é composto por petróglifos que demonstram variações de figuras cefalomorfas (figuras que tem relação com a natureza como animais e plantas). As gravuras estão associadas a um sítio com matriz de terra preta e vestígio cerâmicos vinculados às tradições Borda Incisa e Policroma da Amazônia.

– Professora, então quer dizer que temos um sítio de Arte Rupestre a Céu aberto na beira do rio? – Perguntou Pedro.

– Sim Pedro! Vejam só o privilégio que temos em ver este sítio aqui na cidade no período da seca na beira do rio. Agora dar para ver. Peçam para os pais de vocês trazerem vocês para observar de perto. Eu e a outra professora não damos conta de levar vocês tão perto do rio. – Crianças, mas no município de Itacoatiara temos outros sítios arqueológicos que podem ser visitados mais só que eles estão na beira dos rios na área rural da cidade, como por exemplo, o Sítio Sangáua II, localizado a margem esquerda do igarapé Sangáua, afluente do Rio Urubu, a 05 km da comunidade, é também considerado um sítio de arte rupestre a céu aberto na beira do rio. Temos também o Sítio Rupestre Caretas que fica localizado na margem esquerda do Paraná do rio Urubu, numa curva de rio. E o Sítio Pedra Chata encontra-se na margem esquerda do chamado Paraná do rio Urubu.

Durante todo o momento que a professora falava sobre a Arqueologia da Amazônia e do Sítio Ponta do Jaury, Estevão pensava em como se classificaria o sítio Arqueológico que tem na frente da Comunidade Itapeaçú. Os antigos da cidade diziam que o nome em nhengatu significa pedra grande. Pensou que o nome faz sentido, uma vez que existe uma enorme laje que tem umas caretas e figuras parecidas com as encontradas no Sítio Rupestre da Ponta do Jauary. Estevão fez uma pergunta a professora.

– Professora! Na minha comunidade em Itapeaçú, também tem arte rupestre parecida na laje que fica em frente a comunidade. Os antigos da comunidade, contam que lá embaixo do rio, tem uma cidade encantada, que em noites de lua cheia é possível ouvir barulho de uma grande festa, e é proibido estarmos a partir das 18h da tarde andando por lá, caso alguém teime, pode ficar encantado e querer se jogar no rio para morar nesta cidade. Aqui também tem esta lenda?

– Sim Estevão! Aqui também contavam os antigos moradores de Itacoatiara, que aqui também têm uma cidade encantada que ficava embaixo da cidade, ela é uma cidade repleta de casarões e palácios, parecido com a cidade perdida de Atlântida. Diziam que antigamente aqui mesmo no porto do Jauary, apareciam enormes cavernas que dava entrada para esta cidade. Porém ninguém tinha coragem de entrar, com medo de ficar encantado e nunca mais voltar. Alguns diziam que ouviam vozes vindo destes lugares. Acreditavam que as cerâmicas que encontravam na beira do rio, poderiam ser louças vinda desta cidade encantada.

– Também na Amazônia, tem algumas cidades que acreditam que destas lajes ou líticos, seriam por onde os Pajés Curandeiros os Sacacas entram para as cidades encantadas existentes no rio. Eles são os únicos capazes de viajar pelo rio transformados numa cobra grande. Dizem que estas cidades do fundo, tem casas que brilham feito ouro, as pessoas são brancas, altas e muito bonitas, porém, uma vez estando numa cidade destas, não devesse comer nada, pois se não ficam para sempre neste reino encantado.

– Professora, lá na comunidade da Terra Preta, próximo a Itapeaçú, tem a história de uma moça que caiu na água e ficou desaparecida por duas horas, as pessoas estavam procurando ela no rio, lá pelas tantas, ela saiu da água envolvida por uma gosma e ainda viva, contou que estava numa cidade encantada participando de uma festa, que o boto tinha levado. – Falou Estevão.

– Estevão, nossa Amazônia tem muitas lendas e mitos, vocês lembram que eu falei para vocês? Os mitos são uma forma de explicar o mundo e proibir que as crianças cheguem na beira do rio correndo o risco de se afogar e morrer?! Tenham muito cuidado com o rio, pois ele não tem cabelos para agarrar. Falou a professora num tom de advertência.

– Meus alunos, vejam como é lindo este pôr do sol aqui do porto do Jauary, podemos dizer que esta visão pode ser considerada como Patrimônio Cultural Paisagístico, pois esta bela visão é única em todo mundo.

Terminado a visita aos Patrimônios Culturais da cidade, todos os alunos retornaram para sua escola. Já era tarde. Estevão mais uma vez não vendeu seus mingaus pelas ruas do bairro. Apenas ajudou sua tia que entusiasmada ouvia todas as histórias sobre o descobrimento da Amazônia, a Cabanagem, a Batalha Naval de Itacoatiara e de que a cidade de Itacoatiara deveria se orgulhar por ter um sítio de Arte Rupestre a Céu Aberto na Beira do Rio chamado de Sítio Ponta do Jauary, lugar que as pessoas da cidade conheciam popularmente como porto do Nêgo das pedras.

Continua na próxima edição…

*O autor é natural de Itacoatiara, vem trabalhando com a temática sobre patrimônio cultural a mais de duas décadas. É formado em Ciências Sociais (UFAM) e Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia (PGSCA/UFAM) especialista em Festas Populares e Religiosas da Amazônia. Formado em Direito (ULBRA/Manaus), MBA em Gestão, Licenciamento e Auditoria Ambiental (Anhanguera-Uniderp). É professor Universitário. Publicações em coautoria nos livros “Cultura popular, patrimônio imaterial e cidades” (2007) e “Culturas populares em meio urbano” (2012). Autor dos livros “A Senhora, o Folclore e o Festival” (2022) e “Descobrindo o Patrimônio Cultural de Itacoatiara (2024)”. É Assessor Jurídico e sobre o patrimônio imaterial etno-história da Amazônia para empresas de licenciamento ambiental e arqueológico.

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