“… faz escuro – mas a governança canta. Canta quando recusa atalhos fáceis. Canta quando troca o curto prazo por visão. Canta quando transforma sustentabilidade em arquitetura e não em adereço. Canta quando escuta. Canta quando mede. Canta quando se vincula. Canta quando insiste em dignidade institucional.”
Há tempos em que a luz não se apaga de uma vez: ela vai sendo desmentida aos poucos, por ruídos, por slogans fáceis, por um “pragmatismo” de bolso que promete atalhos – e cobra naufrágios. Foi em clima assim que Thiago de Mello escreveu o seu verso-bússola: “Faz escuro, mas eu canto” – um canto de resistência em período autoritário, na metade dos anos 1960.
Hoje, o mundo volta a flertar com a tentação autoritária – e o nome dessa tentação muda de roupa conforme a estação, mas conserva o mesmo impulso: reduzir o complexo ao simplório, transformar direitos em “custos”, converter a vida em variável descartável. E, nesse cenário, o movimento anti-ESG aparece como um primo corporativo do obscurantismo: não entra pela porta gritando “retrocesso”; entra pela janela cantando “liberdade”. Este ensaio faz a releitura do alerta trazido pela Capital Reset a respeito das ciladas do movimento anti-ESG., invocando o poesia amazônica de Thiago de Mello.
É aqui que o ensaio precisa trocar de mote sem perder o leme.
Porque governança não é salva-vidas – governança é direção. É leme para atravessar mares turbulentos quando as ondas sobem e as sereias afinam a voz. E o canto anti-ESG, hoje, tem a doçura perigosa dos mitos antigos: promete “menos regulação”, “retorno rápido”, “simplificação” – e tenta convencer lideranças a girarem o timão em direção às rochas.
Mas o escuro de agora é mais concreto do que qualquer metáfora: em 2025, o planeta entrou mais cedo no cheque especial ecológico. O Earth Overshoot Day caiu em 24 de julho – a data simbólica em que a humanidade passa a consumir mais do que a Terra regenera no ano. E ainda assim – ainda assim – há quem venda a ideia de que responsabilidade socioambiental é “agenda”, como se o clima fosse opinião e a escassez fosse invenção.
O que Thiago de Mello nos oferece, então, não é otimismo decorativo. É disciplina de esperança. Cantar, aqui, não é distração: é não entregar a linguagem ao cinismo. É não permitir que a época nos roube as palavras “futuro”, “comunidade”, “verdade”, “compromisso”.
No ensaio original, a imagem de Homero é perfeita: Odisseu atravessa as sereias sem negar o canto – mas sem obedecê-lo. Amarra-se ao mastro para não confundir sedução com rota. Pois a tarefa das organizações decentes, neste tempo, é exatamente essa: criar amarrações institucionais que resistam quando o mundo pedir pressa, lucro de curto prazo e silêncio sobre impactos.
E há um detalhe essencial: essa amarração não é uma mordaça. É um método de escuta. O erro do nosso tempo não é “ouvir stakeholders demais”; é achar que dá para governar sem ouvi-los – e chamar isso de eficiência.
A governança de stakeholders existe para lembrar o óbvio que a euforia do trimestre tenta apagar: empresa e organização não operam no vácuo; operam em ecossistemas humanos, territoriais, reputacionais, climáticos. Quando esse ecossistema é ignorado, o risco deixa de ser moral e vira risco estratégico: perde-se legitimidade, licença social, confiança – e, cedo ou tarde, mercado.
Por isso, se o anti-ESG é canto de sereia, o antídoto não é tapar os ouvidos para sempre: é criar governança que atravesse o barulho. Governança que seja transparente – porque sem informação clara não existe participação real. E governança que seja vinculante – porque compromisso que depende apenas do humor do poder é compromisso frágil, à mercê das oscilações do tempo e das modas ideológicas.
Aqui, “cantar” é fazer o oposto do que o obscurantismo deseja. O obscurantismo quer a noite como método: menos dado, menos auditoria, menos prestação de contas, menos complexidade, menos contraditório. O canto de Thiago quer a noite apenas como travessia: não como morada. E isso vale para governos, para empresas e para a sociedade civil.
Se há um ensinamento prático – e profundamente poético – é este: o futuro não se improvisa; o futuro se governa. Governa-se com instrumentos que durem mais do que a propaganda. Governa-se com processos que resistam mais do que o ciclo eleitoral e mais do que o ciclo de mercado. Governa-se com coragem de permanecer responsável quando a irresponsabilidade vira trend.
O mundo pode até pedir, de novo, a fantasia do homem forte, a nostalgia do “manda quem pode”, o retorno ao “cada um por si”. E pode também tentar vender às empresas a fábula do “negócio descomplicado”, descolado de clima, de gente, de território. Mas a realidade – essa grande editora implacável – continua publicando, todos os dias, o mesmo recado: não existe prosperidade duradoura sobre ruína sistêmica.
Por isso, hoje, reescrevemos o ensaio com o mote de Thiago de Mello: 9
E, cantando, atravessa.
II
ENAMED: o termômetro do País – e a febre que a Amazônia já padece há décadas

“O Exame ENAMED revelou uma rachadura. Mas a rachadura não começou na prova: começou quando o país aceitou que formar médicos poderia virar um mercado sem contrapartida pública, uma concessão sem compromisso, um diploma sem pacto”
O ENAMED estreou como um espelho tardio: refletiu, em números frios, aquilo que a população sente na pele há anos – a formação médica brasileira está se tornando um loteamento, e não um pacto civilizatório.
Os dados divulgados nesta primeira edição são um alarme: entre formandos de cursos privados que fizeram a prova, 38,8% não atingiram o patamar de proficiência (nota menor que 60 em 100). O contraste expõe uma desigualdade que não é só de renda – é de projeto de país. Entre as 49 faculdades com nota máxima, 40 são públicas, e as duas únicas com 100% de alunos considerados proficientes são federais (UFSCar e UFMS). Do outro lado, multiplicam-se cursos com desempenho crítico, muitos abertos no rastro de uma expansão apressada, judicializada e frequentemente descolada de campos de prática e de corpo docente robusto.
O governo promete medidas: tornar o exame anual, restringir vagas e até suspender ingressos em cursos com baixo percentual de concluintes proficientes; o Conselho Federal de Medicina defende o exame de proficiência como pré-requisito para registro profissional; a associação das universidades particulares contesta critérios e bases de dados. Em Brasília, discute-se a régua. No Brasil real, discute-se a sobrevivência.

Foto divulgação
O pressuposto escondido: “mais médicos” não é “melhor medicina”
Há um equívoco que se repete, com a teimosia dos erros convenientes: acreditar que quantidade resolve o que é, antes de tudo, qualidade, território e responsabilidade.
A medicina não é linha de montagem. É presença, técnica, ética, escuta e repertório humano. E repertório não se improvisa em salas sem laboratório, sem hospital de ensino, sem preceptor, sem vivência de SUS, sem enfrentamento do sofrimento concreto – sobretudo onde o Brasil é mais difícil.
O ENAMED aparece como termômetro. Mas o país insiste em tratar termômetro como remédio.
As consequências: diploma fácil, serviço caro – e o risco social da mediocridade
Quando a formação cai, o preço sobe. Sobe em erros, em filas, em judicialização, em iatrogenia, em desconfiança. Sobe no custo emocional de famílias que peregrinam de porta em porta. E sobe na desigualdade: quem pode paga pelo “melhor”; quem não pode, aprende a aceitar o “possível”.
O resultado é perverso: a medicina que deveria reduzir a dor passa a redistribuí-la – concentrando excelência onde já há estrutura, e espalhando fragilidade onde a saúde pública é mais frágil.
A Amazônia como prova final do Brasil
Se o ENAMED quer medir a aptidão do país, a Amazônia é o seu estágio obrigatório.
Aqui, a distância é uma especialidade. O rio é estrada. A floresta é farmácia viva. O calor, a umidade, as doenças negligenciadas, a precariedade logística e a diversidade cultural não são “temas” – são o próprio cotidiano clínico.

Especialistas que estudam a Amazônia
E é justamente aqui que a formação médica brasileira revela seu maior pecado: a arrogância epistemológica.
A medicina ensinada como se São Paulo fosse o mundo – e o mundo fosse um laboratório sem povo – chega à Amazônia sem idioma, sem humildade e, muitas vezes, sem utilidade. Vira técnica sem chão. Vira protocolo sem território. Vira receita que ignora a casa, o rio, a roça, o corpo coletivo das comunidades.
Pior: a medicina, por vezes, se comporta como se fosse a única forma legítima de cuidar – avessa aos saberes originários, indiferente às inteligências tradicionais, desconfiada da fitoterapia como se a floresta fosse superstição, e não ciência acumulada por séculos de observação, uso e transmissão.
Sugestões e indagações
Se a intenção é proteger o paciente – e não apenas ajustar manchetes – o país precisa de uma reforma que encare o problema inteiro, com coragem, com prioridade e civilidade.
| “ Acreditação com realidade, não com papel “ |
Curso de medicina sem campo de prática adequado, sem preceptoria, sem hospital-escola ou rede conveniada de qualidade, não pode funcionar. Não é punição: é proteção social.
| “ Formação onde território é currículo ” |
Na Amazônia, “saúde” inclui logística, saneamento, nutrição, doenças tropicais, clima extremo, violência, mercúrio, desmatamento, saúde mental comunitária. Isso precisa deixar de ser apêndice e virar eixo.
| “ Residências e carreiras de fixação na Amazônia profunda ” |
Sem plano de carreira, condições de trabalho e rede de apoio, não há médico que permaneça – e quando permanece, adoece. Fixação não se pede: se constrói com estrutura e dignidade.
| “ Integração rigorosa com saberes originários e práticas tradicionais ” |
Não como folclore para discurso, mas como diálogo técnico, intercultural e responsável. A Amazônia precisa de uma medicina que saiba escutar – e que reconheça, com método, o valor dos conhecimentos tradicionais.
| “ Fitoterapia e biodiversidade como política de saúde e inovação ” |
A floresta em pé é também um horizonte terapêutico e científico. O SUS pode – e deve – integrar práticas fitoterápicas com segurança, pesquisa, protocolos e respeito aos detentores do conhecimento. Sem biopirataria, sem arrogância, sem apagamento.
| “ Avaliar curso pelo impacto no SUS, não só pela prova ” |
O ENAMED pode ser porta, não destino. Qualidade precisa ser medida também por desfechos: atuação na atenção básica, resolutividade, ética, capacidade de trabalhar em equipe, vínculo com território.
Gritos parados no ar
O ENAMED revelou uma rachadura. Mas a rachadura não começou na prova: começou quando o país aceitou que formar médicos poderia virar um mercado sem contrapartida pública, uma concessão sem compromisso, um diploma sem pacto.
Na Amazônia, essa rachadura vira abismo – porque aqui a medicina não é luxo: é fronteira de humanidade.
Se o Brasil quiser mesmo “avaliar a formação médica”, precisa fazer uma coisa simples e difícil: parar de fingir que o centro explica a periferia – e começar a construir uma medicina que caiba no país inteiro.
E, sobretudo, uma medicina capaz de reconhecer que, em plena crise sanitária e climática, ignorância não é apenas falha técnica: é grave risco social.
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