Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Foi pior do que se pensava

Compartilhe nas redes:

*Cecília Ritto

O maior banco de dados sobre o tráfico negreiro no mundo mostra que a escravidão no Brasil era ainda mais intensa e disseminada do que se aprende na escola.

fig1

Era um sonho dantesco … o tombadilho / Que das luzernas avermelha o brilho / Em sangue a se banhar / Tinir de (erros … estalar de açoite / Legiões de homens negros como a noite / Horrendos a dançar.” Alvo de intensa campanha abolicionista em seu apogeu, execrada em prosa e verso – como esses de Castro Alves, no poema Navio Negreiro – por um grupo estridente de intelectuais e políticos, a escravidão de africanos no Brasil, uma vez encerrada, acabou relegada a umas poucas páginas nos livros de história que nem de longe retratam sua real dimensão. Quem quiser se aprofundar no tema contará agora com uma ajuda poderosa: o banco de dados do Tráfico de Escravos Transatlântico, um monumental conjunto de documentos alojado no site Slavevoyages.org, com informações retiradas de registros alfandegários, declarações portuárias e diários de bordo sobre a saída e a chegada dos navios negreiros ao redor do mundo conteúdo que em algumas semanas estará disponível pela primeira vez em português. Alimentado por uma equipe internacional liderada pelo historiador americano David Eltis, da Universidade Emory, em Atlanta, o trabalho redimensionou o comércio negreiro para as Américas e compôs um minucioso perfil dos meandros dessa lucrativa atividade em seu entreposto mais efervescente, o Brasil. O vasto material expõe novas ramificações do tráfico dentro do território nacional e mostra que ele foi ainda mais intenso do que se pensava.

fi2

HORROR NO MAR

Escravos torturados na travessia do Atlântico, na gravura de Rugendas, e lista de cativos achados em navio interceptado: o destino da maioria era o Brasil, onde, segundo os novos dados, desembarcaram 4,9 milhões 1,2 milhão a mais do que se sabia

As 35 000 viagens documentadas contabilizam 1,2 milhão de escravos a mais trazidos para o país. Isso eleva a parcela do Brasil nesse comércio de seres humanos à extraordinária cifra de 4,9 milhões – quase metade do total de 10,7 milhões de homens, mulheres e crianças capturados na África e vendidos no Novo Mundo, principalmente, entre 1501 e 1866. A “carga” era despachada por rotas que até então não se sabia existir, revelando uma complexa teia de caminhos Brasil adentro – uma delas partia de Belém, passava por rios amazônicos e desembocava no Centro Oeste. O movimento de escravos também era muito mais vigoroso do que se supunha nos portos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina e em Santos. Depois de 1830, quando um tratado selado com os ingleses fez do tráfico uma atividade ilegal no Brasil, o comércio de africanos continuou numeroso, mas em “pontos menos visados. Registros no banco de dados mostram que no Rio, por exemplo, eles passaram a desembarcar na então longínqua Praia de Copacabana. “A maior parte dos estudos sobre as rotas da escravidão se restringe aos três principais portos da época: em Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. Agora, está claro que o tráfico não era tão centralizado”, explica Manolo Florentino, um dos maiores estudiosos do assunto e diretor da Casa de Rui Barbosa, à frente da tradução do site.

fig3

PORÃO EXPOSTO

Planta do navio negreiro Vigilante, obtida quando foi capturado e levado a um porto inglês: prisioneiros amontoados e imobilizados por travas de ferro, homens nas laterais, mulheres e crianças no meio

O levantamento chegou também a um número inédito sobre a alta mortalidade nas travessias do Atlântico: foram 667 744 os escravos mortos a caminho do Brasil. As informações mais detalhadas vêm das acuradas listas – com nome, idade e procedência – de africanos libertados por barcos britânicos interceptadores de navios negreiros em pleno oceano. Os registros referentes a embarque e desembarque mostram que, nos portos africanos, subiam a bordo em média 400 escravos – uma constante do tráfico da qual não se tinha conhecimento. Amontoados no porão, os homens eram acorrentados nas laterais e as mulheres e crianças no meio. No século XIX, a escassez de água e comida e as péssimas condições de higiene resultavam na morte de no mínimo 10% dos cativos. Os registros disponíveis confirmam ainda que 70% dos escravos despachados para o Brasil vieram dos atuais Congo e Angola e revelam que, no afã de lotar os navios, alguns enganos causaram constrangimentos: a rainha de Libolo, em Angola, desembarcada em Salvador em 1654, teve de ser devolvida a sua o prejudicar a relação dos traficantes com seus fornecedores. “O estudo traça um cenário global e muito detalhado sobre o tráfico negreiro”, avalia o historiador Luiz Felipe de Alencastro, autor de O Trato dos Viventes, resultado de uma pesquisa de três décadas sobre o tema.

A força-tarefa dos maiores pesquisadores do mundo em tráfico negreiro teve ainda o mérito de cravar, pela primeira vez, o ano da última dessas viagens ao Brasil: 1856, seis anos depois da promulgação da Lei Eusébio de Queiróz, que enfim proibiu no Brasil o comércio transatlântico de escravos – um pujante negócio iniciado aqui em 1560 e que, em pouco tempo, abarcaria 40% do comércio internacional. Durante três séculos, o Brasil foi um país movido a escravos e totalmente dependente deles, “Éramos uma sociedade escravista no sentido mais amplo. Ter escravos era natural. Foi necessária uma transformação no pensamento da época para que o tráfico passasse a ser considerado inadmissível”, diz o historiador Alexandre Ribeiro, professor da Universidade Federal Fluminense. Ainda neste ano, a versão em português do site Slavevoyages será incorporada a um novo arquivo na internet, Escravidão e Pós-Abolição: Memória e Acervos, iniciativa da Casa de Rui Barbosa, que acrescentará ao conjunto a vasta documentação sobre o tema do grande jurista, um abolicionista ferrenho para quem a escravidão era “a mutilação da liberdade do branco”.

*Jornalista. Texto na Seção de História da Revista Veja Edição 2411, de 04/02/2015.

Compartilhe nas redes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

COLUNISTAS

COLABORADORES

Abrahim Baze

Alírio Marques