Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Luiz Bacellar e sua poesia

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VII – Ultimas palavras

Vendo bem, parece que alimentei nesses anos o desejo de escrever alguma coisa sobre o meu amigo Luiz Bacellar. Até no intuito de retribuir-lhe os seus ensinamentos. E não foi difícil porque escrevi este texto com o maior prazer deste mundo. Tenho certeza de que o meu amigo jamais pensou algo em troca no nosso intercâmbio de ideias. Muitos achavam o poeta uma pessoa esquisita, frio e indiferente, não demonstrando alegria em fazer um favor a alguém. Seus amigos e até parentes mais próximos diziam, para glosá-lo sobre esse jeito de ser, que ele era um gato, não pelo talhe elegante do perfil, como enfim as mulheres classificam um homem bonito. Era um gato no sentido do procedimento ensimesmado. Poucas vezes viu-se o Bacellar emocionar-se com algum acontecimento. Emocionava-se com a boa música e o bom poema. Como que guardava a emoção a sete chaves, numa caixa fria de prata ou de marfim. Mas também não se conseguia avaliar o esforço que o meu amigo fazia para manter-se assim. Uma autoanálise que é o retrato do seu perfil pessoal está na seguinte quadra das Duas canções, oferecidas a Fernando Pessoa, no Frauta de Barro, referindo-se à sua vida:

Sim, abjeta e repelente
existência que se abate,
contra quem tudo contesta,
contra quem tudo combate.

Vê-se que era severo demais na sua autocrítica. Por fim guardava a emoção para expressá-la por meio das várias vozes que soavam dos seres líricos que o habitavam, os poemas, produto dessas vozes, que me esforcei em mostrar neste livro. Tenho plena consciência disso. Minha homenagem é de tal modo simples que não ambicionei me aprofundar nos meandros de sua poética, rica em significado e beleza, num universo que suscita muita riqueza existencial e que ainda vai provocar muitos panos para as mangas. Tenho certeza de que muita gente boa ainda vai se ocupar dos motivos tão fascinantes de sua poética, porquanto que este livro é apenas um tributo para guardar no coração.

Abordo pormenores que não escapariam ao leitor corrente de seus versos. Por exemplo, alguns aspectos de raro requinte da gramática e da arte literária de que são ricos os seus poemas. Os traços da vida na cidade de Manaus, seus hábitos alimentares e os costumes, a experiência espiritual e os conflitos de sua alma, mas sem aprofundamento técnico.

Aí vai o trabalho que ninguém me pediu para escrever. Escrevi-o no impulso de atender a um desejo de servir a memória de uma personalidade de escol, como se dizia no passado. Espero apenas que não seja maçante ao possível leitor que lhe tome nas mãos.

Manaus, Praia da Ponta Negra, plena enchente do rio, a 15 de maio de 2020.

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