Manaus, 25 de fevereiro de 2024

O jeito do Brasil

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lya luft
*Lya Luft

“É difícil uma reunião de amigos ou família em que não se intrometa este assunto: a corrupção, os culpados, como serão (ou não) punidos, quem vai compensar o povo por esses desvios, quem vai pagar a conta”

Por alguma razão, medo ou timidez, hipocrisia e cinismo, ou simplesmente comodismo, muitas vezes achamos que não dizer a verdade é mais simples. Discordo: a experiência mostra que a verdade é o caminho mais simples, com menos chance de cair e quebrar a cara (ou a alma, o que é pior). Claro que há exceções: algumas verdades não cabe a nós dizer. Se um amigo está no estágio terminal de uma doença, possivelmente cabe ao médico anunciar isso, ou à família decidir o que se faz. Se uma amiga é muito feia, ninguém normalzinho vai lhe dizer isso, a não ser que seja consertável, como mudar o penteado ou maquiar-se com mais discrição. Se uma pessoa nos parece arrogante ou grosseira, é preferível deletá-la da nossa vida, e não começar uma discussão que só trará aborrecimento: argumentar com alguém assim é luta inglória, e podemos sair machucados.

Faço toda essa retórica inicial para comentar o cansaço que me assedia, e possivelmente muitos de meus leitores, em relação aos resistentes, desagradáveis, tristes e vergonhosos, ou tudo isso junto, fatos da nossa política e nossa economia. De repente, todo um mundo no qual vivíamos relativamente confortáveis e seguros, com coisas boas e ruins, está se desmantelando. Cai um pedaço de telhado aqui, um muro ali, paredes vão rachando, crateras no pátio, os quartos se confundem, as portas não funcionam, janelas que abriam para fora abrem para dentro, móveis escorregam de um canto da sala a outro, e pior: os habitantes usam máscara de monstros, de bichos, palhaços malignos.

Que mundo é este?, perguntamos, assustados (ou brincalhões, para disfarçar o medo). O que fazer agora quando as pessoas não são mais aquelas, as casas se desestruturaram, as ruas e estradas são areias movediças, a paisagem e um deserto calcinado, a gente não sabe o que esperar, e a cada dia há uma novidade pior?

Pessoas em quem confiávamos revelam falhas de caráter impensáveis dias ou semanas atrás. Empresas respeitáveis que nos orgulhavam eram fachada para falcatruas gigantescas que escapam à nossa capacidade de calcular. Bilhões agora são padrão, milhões já parecem ninharia, e os miseráveis milhares que ganhamos honradamente para pagar contas e manter a vida digna são poeirinha na terra. Alguns dos grandes empresários admitem com inesperada franqueza que, se não entrassem no esquema de corrupção, se não pagassem as irreais propinas, suas empresas ficariam “de fora” da roda dos mafiosos: simplesmente, sairiam perdendo. Todo mundo fazia isso, então a gente também participava – parece coisa de menino de colégio, que dá a mesma resposta quando censurado por alguma trapalhada escolar: “Todo mundo faz. Ué”

De modo que nosso universo está desestruturado, e para piorar tudo algumas dessas pessoas podem até ser inocentes, pois tantos são os suspeitos. Suspeito é o que está sendo investigado, e da investigação resultará a inocência ou a culpa de muitos, que então serão réus. Declarada a inocência de uns poucos, esses serão livres de processo, mas talvez carreguem pelo resto da vida aquela mancha que não se apaga: “Um dia ele foi suspeito de … “.

O mundo anda confuso, triste, inquietante e chato. É difícil uma reunião de amigos ou família em que não se intrometa este assunto: a corrupção, os culpados, como serão (ou não) punidos, quem vai compensar o povo por esses desvios, quem vai pagar a conta (nós?). É um óleo gosmento que invade as conversas alegres e os gestos afetuosos. A gente tranca a porta, fecha as fresas, mas lá estão, olhando-nos, as caretas repulsivas da corrupção e vergonha que tomaram conta do Brasil, onde os honrados, homens e mulheres de princípios e vergonha na cara, até parecem deslocados como se não fossem eles, os pequenos, os verdadeiros legítimos senhores do país, enquanto os corruptos, os traidores, desqualificados são na verdade os intrusos. Momento difícil, sem graça, esperemos que não sem jeito.

Que nunca mais alguém se atreva a dizer: “O jeito do Brasil é esse mesmo”.

*Escritora. Articulista da Revista Veja. Texto na edição 2421, de 15/04/2015.

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