Manaus, 2 de fevereiro de 2026

Os frutos da esperança

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Continuação…

O abraço do tempo

A imagem da árvore engolindo a placa de bronze comemorativa à fundação do Clube da Madrugada voltou-me à lembrança, com a leitura deste novo romance de João Bosco Botelho. Testemunhei um fato curioso ao passar por debaixo do mulateiro da Praça Heliodoro Balbi, ou do Colégio Estadual ou Praça da Polícia como é também conhecido esse espaço público onde nasceu o Clube da Madrugada. Um dia os poetas acharam por bem comemorar o aniversário da instituição com uma placa de bronze pregada no tronco da bela árvore que abrigou por anos e anos as reuniões e os debates daqueles jovens, de dia, de noite e de madrugada. Acontece que o mulateiro é considerado na floresta amazônica a árvore da juventude. O prodígio sucede com o processo com que se renovam as suas células. O mulateiro está sempre trocando de casca, fato que na engenharia florestal funciona como a pele no organismo humano. Por causa disso, no ato de renovação da árvore, o mulateiro estava como que assimilando aquele objeto na estrutura do seu tronco. O mulateiro engolia a lâmina de bronze no momento em que os poetas da madrugada começavam a ingressar na Academia Amazonense de Letras, que era o reduto mais radical do conservadorismo intelectual, pelo menos assim considerado pelos madrugadores. Veio-me então a conjectura de que aquela imagem constituía um símbolo de como se poderia entender o fenômeno daquele exemplo de mobilidade social. O corpo da Academia. que é a grande árvore da floresta intelectual de Manaus, assimilava novas células na mudança da casca e recebia os madrugadores. Djalma Batista foi o arquiteto da obra e a Academia nunca mais se fechou ensimesmada nos aprumos dos tão propalados valores acadêmicos. Abriu literalmente as portas às novas gerações, recebeu em sua revista trabalhos de autores externos aos seus quadros e não hesitou quando foi preciso usar as mídias sociais para se comunicar com a sociedade.

Este livro de João Bosco Botelho trabalha esse fenômeno e reafirma a presença do cirurgião e Professor de Medicina, defensor de tantas teses na área de sua especialização, como autor de excelentes obras literárias de ficção. Antes da criação dos nossos Cursos de Letras, dominava entre os escritores brasileiros, romancistas, poetas e ensaístas, profissionais de nível superior oriundos dos Cursos de Direito. Eram raros os médicos dedicados à literatura. Os que se projetaram também assumiram logo as dimensões de um Afrânio Peixoto e um João Guimarães Rosa. No Amazonas, Aurélio Pinheiro, Ramayana de Chevalier e Djalma Batista, entre tantos outros que contribuem com o seu talento e saber na esfera do conhecimento e da criação artística. Entende-se o fato por se saber da tradição que os bacharéis exerceram nos movimentos culturais e políticos da vida brasileira, todos formados nos Cursos de Direito, de que foram pioneiros as Faculdades de São Paulo e Recife, não obstante serem os cursos de ciências da saúde os primeiros instalados no país, na linha da famosa Faculdade de Medicina da Bahia. Observa-se a precedência dos bacharéis em Direito até recentemente na vida brasileira, pelo simples motivo de constituírem essas Escolas o palco mais frequente dos movimentos políticos e sociais agitados no país, como o movimento abolicionista, considerado o de maior repercussão na história republicana. João Bosco Botelho soma-se, hoje, à legião dos médicos dedicados à Literatura, em termos nacionais, na prosa de ficção e na poesia, na análise de questões sociológicas e de meio ambiente, história e estudos linguísticos.

Neste livro, João Bosco Botelho volta ao tema do Clube da Madrugada, agora de modo mais amplo e específico. Em um dos seus livros anteriores de sucesso intitulado Entre as sombras, vertido em primorosas edições para o francês e o italiano, ele já mexe no assunto. Em verdade, neste livro vai mais além, levanta questões da vida intelectual da cidade, os contextos históricos da economia dos ciclos da borracha e da Zona Franca de Manaus. Esclarece o episódio do ato de pirataria praticado por “Sir” Wickham, no caso da hévea. Refere o domínio inglês nos serviços básicos de eletrificação, transportes, administração financeira e de instalações portuárias de Manaus, até deter-se no problema da desvalorização mundial do preço da borracha amazônica. Nesse momento, surge a Academia Amazonense de Letras. As suas sessões de recepção de novos membros constituíam uma das poucas alternativas de lazer da sociedade de então, cujos discursos enchiam de tédio as mademoiselles que viam nesses eventos uma oportunidade de exibir os seus lançamentos da moda. Enquanto isso, por volta dos anos 50, verifica-se o fenômeno do Clube da Madrugada. Foi Djalma Batista, um dos acadêmicos mais notáveis, quem desse modo se manifestava ao se referir ao movimento. Coincidentemente surgia nas atividades empresariais o novo ciclo econômico da política de incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus. E, logo em seguida, o ingresso dos poetas e prosadores do Clube nos umbrais da Academia. Tudo isso está neste livro.

Aí João Bosco Botelho investiga o prodígio do antigo devorando o novo. Em verdade não se tem notícia do que aconteceu com as células do mulateiro face à intromissão daquele objeto estranho no organismo vegetal, nas entranhas daquela árvore. Quanto à Academia, a grande árvore intelectual, os jovens madrugadores acabaram por influenciar, com a ajuda de Djalma Batista, na abertura das portas daquela casa austera e respeitável, às novas gerações e assim cumprir o seu papel de instrumento de transformação da sociedade. Mas a coisa não era tão escandalosa assim. Os madrugadores não eram assim tão radicais. Luiz Bacellar, por exemplo, um dos líderes e autor do nome do Clube, constitui uma síntese do que representava a imagem da Academia com a presença dos madrugadores lá dentro. Ele era um poeta ao mesmo tempo conservador e instigante. Não se pejava em escrever poema sobre um pincel de barba e, ao mesmo tempo, adotar as formas clássicas das odes anacreonticas e horacianas. Por sua posição de equilíbrio não era ele na Academia um estranho no ninho, portanto. Possuía iluminada a consciência de que a modernidade temperada com os ingredientes da tradição é uma consequência adequada no processo de desenvolvimento cultural,

Por todos os motivos, este romance de João Bosco Botelho revela bem a substância do gênero libérrimo da prosa de ficção. É a primeira obra a envolver um período de nossas letras apenas estudado por especialistas dos Cursos de Letras de Manaus. O escritor lhe incute sangue e animação. Mescla a fantasia com a verdade histórica, os personagens fictícios com a vida social de Manaus e dos intelectuais componentes do Clube da Madrugada. Levanta o movimento político estudantil efetivado no Colégio Estadual do Amazonas, tudo extremamente comprometido com o Clube, porque, enfim, muitos dos seus membros foram professores do colégio e muitos dos seus alunos membros constitutivos do Clube. Ao curso do debate político entre personagens fictícios muitas vezes disfarçados na pele e biografia de personalidades reais, o autor apresenta um número considerável de poemas, numa autêntica antologia com a amostragem da poesia que se praticava então no Clube.

Se me faltasse condição para situar a família estética deste romance, eu poderia dizer que esta obra constitui o conceito de um livro autêntico, dotada de todas as qualidades de um bom livro, apto a proporcionar aos seus leitores o prazer da leitura.

Manaus, Praia da Ponta Negra, abril quando o rio Negro ainda está bem cheio, em 2020.

Continua na próxima edição…

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