“Pepe e Francisco lembram que a humanidade encontra-se diante de sua maior prova: não será derrotada pelas catástrofes em si, mas pela resignação diante delas. Os verdadeiros vencidos serão os que desistirem de lutar, os que aceitarem a farsa como destino.”
A herança dos que partiram
Quando o presidente Lula evoca, na tribuna da ONU, as figuras de Pepe Mujica e do Papa Francisco, e presta tributo a biografias notáveis, ele aciona a memória de um humanismo radical, austero e fraterno, que ousou se contrapor à lógica dominante do poder. Mujica, com sua simplicidade campesina, lembrava que governar não é acumular bens pessoais, mas redistribuir dignidade. Francisco, com sua voz pastoral, deslocava a fé para o campo da justiça social e ecológica, denunciando a economia da exclusão e a idolatria do mercado.
Ambos atravessaram o século XXI como faróis improváveis, profetas desarmados diante de impérios armados até os dentes. Ao invocá-los, o presidente do Brasil ergueu um espelho incômodo: será que ainda somos capazes de ouvir tais vozes, ou já nos tornamos impermeáveis a tudo que não seja o eco do próprio egoísmo?
A ONU e o tempo das escolhas
A Organização das Nações Unidas nasceu das cinzas de uma guerra mundial como a promessa de um pacto civilizatório. Suas oito décadas não foram lineares, mas nelas sempre se insinuou a ideia de que a humanidade, embora fragmentada, pode encontrar pontos de convergência para evitar o abismo.
Hoje, no entanto, a ONU se vê desmoralizada por lideranças que, como Donald Trump, não apenas negam a crise climática – chamando-a de “o maior conto do vigário de todos os tempos” – como desprezam a própria razão de existir da instituição. A cena é mais do que política: é uma espécie de iconoclastia oportunista, em que se quebra o templo do multilateralismo e se erige, em seu lugar, o altar da indiferença autocrática .
A pergunta que resta é perturbadora: pode a humanidade sobreviver sem instrumentos coletivos de diálogo, ou está condenada a voltar ao estado hobbesiano da guerra de todos contra todos? Para Hobbes, o homem sempre será o lobo do homem.

Presidente Lula na tribuna da ONU – Crédito: Ricardo Stuckert / PR
O clima com e o juízo final
A questão climática é mais do que um debate científico ou ideológico: é o tribunal invisível diante do qual a humanidade comparece diariamente. A cada incêndio florestal, a cada enchente devastadora, a cada seca prolongada, a natureza repete sua sentença: não há impunidade ecológica.
Negar isso, como fazem os mercadores do cinismo, é mais do que ignorância – é um projeto de poder. Ao desacreditar a crise climática, para agradar os patrocinadores do combustível fóssil, não se posterga tão somente a ação necessária, mas se legitima a pilhagem dos recursos que restam, como se o futuro fosse um território abandonado onde já não viverão filhos nem netos.
Em contraste, os profetas lembram que a degradação ambiental e a desigualdade não são inexoráveis. A vida, dizem eles, ainda pode ser defendida. Mas o tempo, esse árbitro severo, não perdoará os que cruzarem os braços.

O teatro das relações breves
O encontro de 39 segundos entre Lula e Trump, nos corredores da ONU, é uma parábola contemporânea. Em segundos, condensa a trivialização da política global, reduzida muitas vezes a gestos performáticos, likes improvisados, selfies de ocasião. O poder tornou-se espetáculo, e a diplomacia, muitas vezes, uma coreografia de bastidores.
Mas também há uma ironia aí: por trás da cordialidade fugaz, escondem-se mundos antagônicos. Lula, evocando Mujica e Francisco, reivindica valores universais de solidariedade e justiça; Trump, ao contrário, personifica a lógica do curto prazo, da negação e do isolamento. Entre eles, a humanidade observa – talvez perplexa, talvez anestesiada – esse duelo de narrativas que ultrapassa a biografia de ambos.
Profetas e mercadores: duas genealogias
A história da humanidade pode ser lida como a tensão permanente entre profetas e mercadores. Os profetas – não necessariamente religiosos – são aqueles que anunciam a possibilidade de outro mundo, que lembram a urgência do cuidado, que conclamam à coragem de agir. Os mercadores, por sua vez, são os que monetizam o medo, que exploram a desigualdade, que convertem a esperança em mercadoria.
Hoje, essa dicotomia se expressa na encruzilhada climática. Os profetas pedem transição energética, justiça socioambiental, paz com a natureza. Os mercadores oferecem negação, ódio e a promessa ilusória de que tudo pode continuar igual.
A escolha não é abstrata: ela definirá se haverá futuro habitável para a humanidade ou se nos tornaremos a primeira civilização da história a planejar conscientemente o próprio colapso.
O amanhã em nossas mãos
O discurso de Lula encerra-se com uma afirmação que é, ao mesmo tempo, advertência e esperança: “o amanhã é feito de escolhas diárias, e é preciso coragem de agir para transformá-lo”.
Aqui está o ponto: não há neutralidade possível. Cada gesto, cada política pública, cada decisão de consumo é um voto no plebiscito invisível sobre o destino do planeta.
A humanidade encontra-se diante de sua maior prova. Não será derrotada pelas catástrofes em si, mas pela resignação diante delas. Os verdadeiros vencidos serão os que desistirem de lutar, os que aceitarem a farsa como destino.
E é aqui que o fio humanista de Mujica e Francisco, lembrado por Lula, volta a arder como chama resistente: a de que ainda é possível conjugar solidariedade, dignidade e coragem como verbos fundamentais de um novo tempo.
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