Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Polo universitário

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O ensino superior no Brasil tem início no final do século XIX para início do seguinte, quando a balança comercial apresentava superávit robusto, advindo da extração do látex da Hevea Brasiliensis, fenômeno que se convencionou chamar de primeiro ciclo da borracha (1879-1912), onde, para os seringais nativos se deslocavam grandes levas de arigós vindos do nordeste do país, dando crédito ao anúncio de que a Europa, com o desenvolvimento tecnológico proporcionado pela Revolução Industrial, necessitava importar grandes quantidades do produto amazonense, transformando Manaus em uma cidade cosmopolita conhecida como a Paris dos Trópicos.

Com recursos financeiros entrando fácil era comum, no período enfocado, a criação de clubes militares vinculados à Guarda Nacional, instituição responsável pela formação de profissionais vocacionado nas diversas áreas, mas, especialmente, na luta em defesa do território. Foi o tenente-coronel Joaquim Eulálio Gomes Chaves, engenheiro civil originário de Minas Gerais, e originário daquela entidade, o responsável pela criação em 17 de janeiro de 1909 da Escola Universitária Livre de Manaus que, logo em seguida, no ano de 1913, passaria a denominar-se Universidade de Manaus.  De acordo com o registro do Guinness Book, recebeu o status de primeira instituição de ensino superior do país.

Em 12 de junho de 1962, o então senador Arthur Virgílio Filho, aproveitando a boa relação que mantinha com o Governo do presidente João Goulart, do qual era líder no Congresso Nacional, apresentou um projeto que resultou na Lei federal nº 4.069-A, mudando a denominação da antiga entidade para Fundação Universidade do Amazonas (FUA).  Quarenta anos depois, ou seja, em 20 de junho de 2002, com a edição da Lei Federal nº 10.468, de autoria do também senador José Bernardo Cabral, ela passa a chamar-se Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Porém, durante mais de meio século, a FUA/UFAM teve atuação restrita ao lugar de sua sede – a cidade de Manaus. Nesse largo período muitos embates ocorreram em defesa do projeto de sua interiorização, envolvendo estudantes dos principais municípios amazonenses. Finalmente, na década de 70, a Universidade garantiria à “capital do petróleo amazônico” – a cidade de Coari – ser a primeira sede municipal interiorana a possuir uma infraestrutura conhecida como CRUTAC – Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária, instalado na Estrada Coari-Mamiá, e assim possibilitando a realização  de uma  futura  academia. Em 1980 em uma parceria com a Fundação Kellog foram criados outros mecanismos de intervenção social naquela região tão carente e esquecida naquele período, diferentemente do contexto atual impulsionada pela produção petrolífera.

À época exercia, estava como reitor o professor-doutor Roberto dos Santos Vieira (1985-1989), por coincidência filho de Itacoatiara.  Na solenidade de formatura da 1ª turma de Pedagogia, na cidade Coari, recebeu algumas lideranças estudantis, descrevendo que tinha recebido inúmeros ofícios e abaixo-assinado de uma determinada Comissão de Interiorização da Universidade do Amazonas, empenhada no processo de descentralização da Universidade que sugeria a urgente implantação do 2º polo universitário no Médio Amazonas, com sede em Itacoatiara. Aquela era uma luta insana, que não nascera ali, naquele momento. Vinha de longe – desde a aprovação do projeto vitorioso do senador Arthur Virgílio Filho.

Por exemplo: na década de 1960/70, a luta pró-extensão da FUA/UFAM a Itacoatiara foi liderada pelos experiente deputado estadual João Valério de Oliveira e pelos então jovens Galdino Girão de Alencar, Heliberto Paiva, Pedro Rattes, Fernando Nunes de Oliveira, Lia Maria Vasconcelos Araújo, Hemir Figueiredo de Menezes e outros; na década de 1970/80 pelos estudantes da geração de Francisco Gomes da Silva, Antônio Lira Mendes, Raimundo Silva, Esmeraldo Figueiredo, Francisco Nazaré e outros; e na década de 1980/90, pela geração deste articulista e filho do ex-vereador Pedro Chagas, acompanhado por companheiros do quilate de Guilherme Fernandes, Auricélia Fernandes, Francisco Melo, etc.. Todos (e foram muitos!) idealistas em defesa da educação, da cultura e das tradições da nobre Cidade da Pedra Pintada.

Para o cidadão nascido na terra, tentar a qualificação fora do município era uma tarefa árdua: à época, só eram oferecidas Licenciaturas Curtas. Após a conclusão desta modalidade oriunda do entulho ditatorial, buscavam meios para viajar a outros estados, sem bolsa ou incentivo algum para complementar os estudos. Sem dúvida, foi uma estratégia governamental para dificultar, retardando a disseminação do conhecimento e que a consciência política chegasse ao grosso da população brasileira.

Se ausentar dos familiares e, geralmente, passar dois anos estudando fora, nos locais onde eram oferecidas vagas para a plenificação, essa foi à rotina de muitos docentes que conseguiram ultrapassar o doloroso desafio de possuir um diploma de curso superior. Sacrifício de milhares de professores amazonenses que sonhavam buscar uma formação sólida e digna para ensino-aprendizagem de seus alunos, quando chegassem ao lugar de origem.

Mas, descobrindo a razão pelas quais diversos prefeitos e autoridades execravam as lideranças, taxando-as de subversivas, revolucionárias e vermelhas, tentando desacreditar e, desta maneira, desarticular a utopia, a Comissão de Interiorização, fez circular na Velha Serpa a campanha de um abaixo-assinado, buscando a parceria dos sindicatos, das igrejas, de organizações da sociedade civil, da população e dos estudantes, coletando um calhamaço de assinaturas de, aproximadamente, 15.000 munícipes.

De posse do robusto documento a comissão dirigiu-se ao Prefeito Francisco Pereira da Silva (1989-1992) – o popular Chico do INCRA – que, sensibilizado, deu todo apoio para viabilizar o sonho da população, na implantação de um polo universitário, mas tendo a cidade como sede. Com o conhecimento do reitor, imediatamente assinou uma ordem de serviço fretando um barco para que a representação do movimento visitasse todos os municípios, acompanhados pelas professoras-doutoras Valdete Luz e Valéria Weigel, da Faculdade de Educação da FUA – subscritoras de um dos projetos -, reunindo com os prefeitos e realizando assembleias com os docentes da rede estadual e municipal de ensino, todos concordes em tornar realidade e legitimar o direito constitucional.

A comissão atuava em três frentes: em Manaus, no Médio Amazonas e nos meios de comunicação, acalentando o sonho popular, embora sofrendo a desconfiança dos céticos. O passo seguinte foi procurar a Secretaria da Universidade para protocolizar a reivindicação e que, recebida pelo então reitor Marcus Barros (1989-1993),  prometeu estudar uma estratégia para discussão e aprovação da matéria.  Enquanto “Chico do Incra” costurava parcerias e fechava acordos em reunião com os prefeitos dos municípios vizinhos, o magnífico reitor designava uma mesa para a abertura do debate público no Auditório Rio Solimões, reunindo as partes interessadas, inclusive com a participação de estudantes da unidade da capital.

Antes da implantação do polo universitário, Marcus Barros fez questão de trazer em uma comitiva toda reitoria, demonstrando irrestrito apreço pela luta dessas lideranças, logo avaliando diversas locações em que poderia servir para ministrar o ensino. Mas essa vitória sofreu muitas resistências: nos corredores da própria UFAM, em Manaus, até doutores desacreditavam da iniciativa, afirmando que não iriam se deslocar ao interior “para matar carapanãs”.  Assinado o contrato na sede da reitoria, na Avenida Getúlio Vargas, no final de março de 1991, diante de inúmeras autoridades e do reitor Marcus Barros, Francisco Pereira da Silva entra para a História como o homem que viabilizou o ensino superior em Itacoatiara. Finalmente, no dia 09 de abril daquele ano, em sessão solene na sede do Luso Esporte Clube de Itacoatiara, foi instalado o CEUNI – Centro Universitário de Itacoatiara. A partir dalí (segundo discurso proferido na ocasião pelo promotor de Justiça Francisco Gomes), a instituição passou a ser considerada “Universidade do Amazonas pelo povo itacoatiarense”, porque, até ali, “em virtude das inúmeras negativas em interiorizar suas ações mais propriamente merecia ser chamada Universidade de Manaus!” .

O histórico desse ato transcendental à cultura e ao futuro de Itacoatiara, inclusive da caminhada dos primeiros anos do CEUNI, está inserido às páginas 364/367 do livro “Cronografia de Itacoatiara”, volume 2º, 1998, de autoria do historiador Francisco Gomes da Silva. Vale a pena consultar!

A luta ficou tão radical que um determinado personagem do movimento ao chegar ao ICHL – Instituto de Ciências Humanas e Letras com um envelope amarelo, circulava a lenda de que funcionários, técnicos e professores fechavam as janelas e portas para não recebê-lo, pois criam que logo iria ‘exigir’ que as reivindicações fossem cumpridas imediatamente, segundo relatos de professores da capital. Foram diversos seminários, jornadas e mesas de debates nas quais a comissão participava e tinha até um bordão que repetia para os opositores, o de que a interiorização da Universidade era irreversível.

No período da administração de outro itacoatiarense, o professor-doutor Walmir de Albuquerque Barbosa (1997-2001), como autoridade máxima,  assentou a pedra fundamental do Campus Universitário Moysés Israel, em terreno da antiga fazenda Cacaia, a leste da cidade, uma justa homenagem ao humanista que doou o terreno, residência e objetos de sua propriedade à UFAM. Na área foi construído o ICET – Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia, funcionando com nove cursos, inclusive um Mestrado. Porém a experiência de criar o projeto de uma graduação em Engenharia de Software deveria ter continuado…

No município, hoje, além da Universidade Federal do Amazonas, atuam instituições como Universidade do Estado do Amazonas e Instituto Federal do Amazonas; no âmbito das particulares mais três faculdades que mantêm cursos isolados, ou seja, a UNOPAR – Universidade Norte do Paraná e a Universidade Aberta do Brasil. Por que o Prefeito Municipal não propõe a formação de um consórcio de universidades, para construir um fórum de debates para discutir as questões mais urgentes, buscando a solução para os problemas locais? Ou Sua Excelência só sabe dar calote eleitoral ao prometer a Universidade do Médio Amazonas?

Mas – como disse acima – a história registra que a luta para tornar Itacoatiara uma cidade universitária não é de agora.  Muitas gerações de estudantes sentindo a necessidade de dar seguimento aos estudos e buscar uma profissão, inconformados com a situação tomaram a peito a concretização dessa realidade. A primeira tentativa de instalação de uma universidade na Cidade da Canção ocorreu na década de 60, em pleno regime militar, quando estudantes da antiga Escola Comercial de Itacoatiara (atual Escola estadual Vital de Mendonça), liderados pelo Grêmio Estudantil “Fernando Ellis Ribeiro”, eleitos pela comunidade escolar para fazer parte de um dos maiores movimentos culturais, colhendo assinaturas, levaram tais pleitos às mãos das autoridades políticas e universitárias. Resultaram vãos tais esforços.

No final da década de 1970 “foram reclamar ao bispo”, reunindo forças nas lideranças, tentando sensibilizar a Igreja para a articulação de cursos da PUC – Pontifícia Universidade Católica (SP), aproveitando o convênio Igrejas-Irmãs (São Paulo-Itacoatiara) para,  tentando se aproximar da fé, obter resultados positivos. Os políticos locais ficaram vermelhos com a ideia, mas não foi dessa vez… Sobre o momentoso assunto, Francisco Gomes da Silva (sempre ele!) nos informa em seu livro “A Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Itacoatiara”, Manaus, 1999. E, pautado na obra deste nosso conterrâneo, o padre gaúcho Celestino Ceretta retoma o assunto no segundo volume de sua “História da Igreja na Amazônia Central”, Manaus, 2014, aduzindo nestes termos:

Em 1979 a Prelazia viu a necessidade de instalar em Itacoatiara alguns cursos de licenciatura curta, para isto contava com o apoio da Universidade Católica de São Paulo; as tratativas esbarraram nos órgãos federais que inviabilizaram o Campus Avançado da PUCSP em Itacoatiara.

Reservadamente, Francisco Gomes conta que uma segunda tentativa nesse sentido foi feita, mas igualmente devido a fortes pressões políticas, resultou derrotada. Organizada, uma comissão composta pelo próprio, pelo bispo dom Jorge Marskell, pela professora (diretora da Escola Vital de Mendonça) Hemir Menezes e por alguns outros, partiu para Manaus. Intermediados pela professora-doutora Josephina de Mello, diretora da Escola de Enfermagem de Manaus, os comissionários puderam contatar pessoalmente com o então Ministro da Educação Jarbas Passarinho e, este, sensível ao problema, os encaminhou recomendando-os ao Projeto Rondon. Quando tudo parecia fácil (e a PUC-São Paulo já estava preparada a assumir a Faculdade em Itacoatiara), lá vem, de novo, a tal política partidária para “rebentar”, sepultar de vez a iniciativa de pautar a realização do almejado sonho de muitos poderem cursar o ensino superior em nossa cidade…

Hoje, a realidade é bem outra. Houve avanços, é certo, mas falta ainda muito. Precisamos estar unidos para tornar factível, real, o sonho maior, definitivo: melhorar as condições sociais, econômicas, políticas e culturais de nossa terra. Somos todos chamados a viver a cidade que a gente ama; construir a cidade que a gente quer.

A luta não foi em vão, itacoatiarenses!

Agora o povo espera a contrapartida dos universitários.

SEEEEEEELLLLVA!!!

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