Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Sertanistas e missionários

Compartilhe nas redes:

arthur cézar ferreira reais
*Arthur Cézar Ferreira Reis

A exploração e consequente ocupação da bacia amazônica continuou, sem cessar, pelo século XVIII. Os sertanistas do Pará e do Maranhão, exibindo provas de uma coragem, de uma resistência admiráveis, prosseguiram na penetração, atingindo os pontos mais distantes do território que foram incorporando ao domínio português. Galgaram cachoeiras, lutaram com a aspereza do clima, batalharam contra o indígena. Venceram quase sempre. Foram os protagonistas de um drama sensacional. Revelaram que àqueles dias já estava formada uma gente enérgica, capaz dos maiores cometimentos. Não havia perigos que os fizesse desanimar.

Desde o primeiro instante, recebendo a lição do nativo, tinham aprendido a aproveitar as riquezas que lhes oferecia a terra, regada pela maior torrente d’água doce que o mundo conhece. As reservas piscosas, os frutos selvagens, a caça dos matos, toda, enfim, a cozinha indígena, entrara a ser aceita, saboreada, com grandes desvantagens para a alimentação europeia, que fora sendo posta de banda.

Nos primeiros tempos, a legislação para as entradas, já vimos, clara, não era cumprida, embora os religiosos clamassem e a metrópole tentasse evitar os abusos. Interpretada ao sabor dos interessados, ora missionários, ora sertanistas, não podia produzir os resultados que se pretendiam, de garantir em absoluto a liberdade dos nativos, com as exceções marcadas e insofismáveis. Novas disposições, novas ordens régias, amontoando a legislação já farta, nada adiantavam em benefício do nativo porque a exegese continuava capciosa. Serviam apenas para significar o interesse das autoridades portuguesas, inegavelmente impressionadas e dispostas a amparar os direitos do ameríndio.

A resolução de 17 de fevereiro de 1718, do Conselho Ultramarino, e as ordens régias de 9 de março de 1718 e 13 de abril de 1728, fixaram de modo positivo os casos em que ficavam permitidas as entradas, que só podiam realizar-se mediante autorização ou à ordem das autoridades. Os missionários tiveram mantida a licença, pela persuasão às tribos, taxadas de hostis aos portugueses, acusadas de antropofagia e outros delitos e costumes condenados, se recusassem a atendê-los no convite para a localização em Belém ou São Luís. Os ameríndios, uma vez trazidos àqueles centros, matriculados em livros especiais, seriam repartidos pelos moradores, nos trabalhos agrícolas e domésticos, vestidos e sustentados pelos senhores, obrigados, ainda, a estipendiá-los, de acordo com as forças, idade, préstimo e capacidade de cada um.

 

* * * *

 

Foi por essa época que os missionários começaram a fixar o indígena, entregue até então à vida nômade, pacificando-o, civilizando-o. Já não operavam quase os descimentos. Agora localizavam as tribos, aproveitando as aldeias onde as encontravam, ou as conduziam a paragens melhores, fundando as missões que deram origem às vilas e cidades de mais tarde, de nossos dias.

Representando diversas ordens religiosas, cada qual mais empenhada em obter maiores vitórias na dilatação da fé, internavam-se também pelo sertão, arrostando perigos, expostos à inclemência de surpresas de toda sorte. Surgiriam, naturalmente, dessa atividade constante das ordens, conflitos de jurisdição. A fim de evitá-las, a carta régia de 19 de março de 1693 dividiu o teatro das operações; confiou aos jesuítas os trabalhos no distrito sul do rio Amazonas até a fronteira com as colônias espanholas; e aos religiosos de Santo Antônio e da Piedade, a margem esquerda desse rio até perto do Urubu e o Negro e todo o vale deste. À Companhia de Jesus pareceu de avantajadíssimas proporções a circunscrição que lhe cabia. Outra carta régia (29 de novembro de 1694), reformando a anterior, pôs termo à dificuldade, entregando aos mercenários o Urubu e aos carmelitas o rio Negro.

Os religiosos da Piedade não chegaram a missionar em território amazonense. Ficaram na zona oriental do Jamundá. Os mercenários já possuindo no lago do Saracá, que lhes coubera na partilha, a aldeia de Saracá, fundada por frei Raimundo nos tempos da sangueira de Pedro da Costa Favela, estabeleceram mais quatro: uma no Anibá, outra no Uatumã e as de São Pedro Nolasco e São Raimundo no Urubu. As duas primeiras foram, anos depois, incorporadas à do Saracá, dando origem à atual vila de Silves; as demais não tiveram grande prosperidade, desaparecendo, ao cabo de algum tempo, com a dispersão dos nativos aldeados.

Os padres da Companhia de Jesus tomaram a seu cargo os índios do Madeira. Tiveram de enfrentar as correrias constantes dos Muras, terríveis, só pacificando às vésperas do século XIX. Despendendo esforços inauditos, conseguiram, no entanto, reunir índios na foz do Mataurá, de onde passaram, perseguidos pelos Muras, para o Canumã. Ainda daí tiveram de mudar-se levando os catecúmenos para a boca do Abacaxis, onde puderam permanecer definitivamente. Em 1757, o nascente povoado foi transladado para a margem esquerda do rio Amazonas, a um sítio de pedras pintadas, conhecido por Itacoatiara. É a cidade desse nome.

*O maior historiador da Amazônia. Nasceu em Manaus (08/01/1906) e faleceu no Rio Janeiro (07/02/1993). Autor de mais de cem livros sobre a Amazônia. Ex-governador do Amazonas (1964/1967). Presidiu a SPVEA (atual SUDAM), o INPA e o Conselho Federal de Cultura/MEC. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Amazonense de Letras e dos Institutos Geográficos e Históricos do Amazonas, Pará, Mato Grosso, Bahia, Ceará e Maranhão. O texto acima foi extraído do seu livro de estreia, “História do Amazonas”, Manaus, 1931.

Compartilhe nas redes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

COLUNISTAS

COLABORADORES

Abrahim Baze

Alírio Marques