Manaus, 9 de março de 2026

Trajetórias Escolares de jovens no interior do Amazonas: Significados de acesso, permanência e sucesso, em Itacoatiara

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*Meiry Jane Cavalcante Rattes

Continuação…

1 A construção da pesquisa

O desafio de escrever uma tese considerando, sobretudo a perspectiva bourdieusiana, com a qual os referenciais teóricos dialogam fortemente com o cenário amazônico, será evidenciado ao longo da escrita, isso porque compreende-se o trabalho científico como uma atividade de busca, de observação, de indagações de interações de um constante ir e vir, em um movimento de reflexão constante, como também da elaboração de mais questionamentos.

Posto isso neste capítulo, busca-se responder ao primeiro objetivo específico da pesquisa que é o de refletir, a partir da Sociologia da Educação, sobre as formas como os conceitos ligados à construção da categoria Juventudes podem se relacionar às peculiaridades intrínsecas ao cenário amazônico. Cabe lembrar que a questão norteadora indaga: como as concepções teóricas sobre as juventudes abordam as singularidades inerentes a esta categoria?

Dessa forma, o caminho percorrido na construção deste estudo teve como movimento inicial a reflexão a partir do olhar bourdieusiano, a abordagem, bem como o tipo de pesquisa empregado. Como parte deste processo, trouxemos a caracterização do lócus de pesquisa, apresentando seus contextos no âmbito macro e micro para qualificar a análise. E, nesse sentido, uma breve abordagem acerca das características que identificam o espaço da Amazônia Legal, como forma de compreender a complexidade e a heterogeneidade que envolve esta região.

As reflexões deste capítulo são importantes para a tese, pois nele ocorre o mergulho, por meio dos estudiosos Francisco Gomes da Silva e Claudemilson Nonato de Oliveira, nos processos históricos, religiosos, econômicos e culturais que marcaram a fundação da cidade de Itacoatiara, além também de conhecer o processo histórico de fundação da Escola Estadual Deputado Vital de Mendonça e sua significativa contribuição para o desenvolvimento educacional das juventudes itacoatiarenses ao longo dos anos. É parte também deste capítulo o processo de aplicação das técnicas utilizadas para a coleta dos dados e como esse processo foi feito.

1.1 Uma tese bourdieusiana

Este é um estudo sobre políticas públicas para a trajetória socioeducacional das juventudes na Amazônia, no município de Itacoatiara, que tem como participantes jovens estudantes do ensino médio e como objeto de análise o alcance das políticas de acesso e permanência. Situa-se no campo das ciências humanas e está consubstanciado no contexto da teoria crítica do filósofo e sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2022).

A perspectiva bourdieusiana assumida nesta tese, partilha das ideias do autor quando afirma que o método não é estático, é construído, uma vez que se movimenta à medida que a pesquisa científica vai se desenvolvendo e descobrindo os erros e a partir deles, alcançando os acertos. É esse movimento que vivenciamos no processo investigativo, de rever de forma constante os elementos que compõem a investigação.

A teoria de Bourdieu se interessa pelas relações de coerção impostas pelos campos e pelos agentes sociais, conforme as posições sociais desses agentes, uma vez que para este autor é preciso desvelar, a partir de métodos empíricos, a origem social dos indivíduos, bem como as estruturas sociais que são determinadas no espaço e no tempo, por isso o autor não utiliza processos relativos à classificação16 acerca do que está sendo investigado, pois essa prática pode tornar sólido e naturalizar o que não é, sendo ainda arbitrária por desconsiderar realidades que não se encaixam nos padrões, que não se diferenciam de forma fácil. Em suas análises referentes a Bourdieu, Thiry Cherques (2006, p. 32), esclarece que:

Na construção do objeto é preciso separar as categorias que pré-constroem o mundo social e que se fazem subentendem uma referência à teoria. esquecer por sua evidência, o que significa levar a campo conceitos sistêmicos, noções que pressupõem uma referência permanente ao sistema completo das suas inter-relações que

O pensamento bourdieusiano rompe com o senso comum, por entender que o que pensamos, a forma como pensamos está diretamente ligada à posição que ocupamos no campo de luta, no qual estamos inseridos. Para essa ruptura, o autor sugere a vigilância epistemológica17 no sentido do questionamento constante com o uso dos conceitos e das técnicas, bem como de sua validade, apontando sobretudo que o método deve ser condizente com o problema e tema da pesquisa, pois o fenômeno social é construído, considerando desta forma o ponto de vista epistemológico para a efetivação desta pesquisa.

Na presente tese, entre os múltiplos conceitos utilizados da teoria bourdieusiana, destacamos três que norteiam nossas análises e reflexões, a saber: habitus, campos e capital. A partir de Thiry-Cherques (2006, p. 33), “o habitus gera uma lógica, uma

racionalidade prática, irredutível à razão teórica. É adquirido mediante a interação social e, ao mesmo tempo, é o classificador dessa interação. É condicionante e condicionador das nossas ações”. O referido autor ressalta que “Os campos são mundos, no sentido em que falamos no mundo literário, artístico, político, religioso, científico. São microcosmos autônomos no interior do mundo social. Todo campo se caracteriza por agentes dotados de um mesmo habitus” (Thiry- Cherques, 2006, p. 36). Sobre o capital, Bourdieu (2020, p. 113), em suas reflexões, destaca que “o capital simbólico consiste essencialmente num sobrenome – em particular os sobrenomes nobres – sejam uma forma de capital simbólico […] de transmissão e também de conversão em outras espécies de capital”.

Em linhas gerais, o que se propõe a investigar neste texto é o campo das políticas públicas educacionais, logo, o campo social (onde a educação representa um subcampo) que tem relação direta com a distribuição desigual de poder. Um campo que como todos os outros é um espaço de luta e estabelece as condições e as regras de quem faz parte dele, com poderes hierárquicos que produzem o capital (benefícios específicos assegurados pelo campo, aos seus agentes). A abordagem do campo situa a análise do alcance das políticas de acesso e permanência para a trajetória socioeducacional das juventudes na Amazônia, no polo dominado pelo campo do poder, opondo-se, em relação a esta posição, aos governos e autoridades que representam o Estado, que com a implementação das políticas públicas não atende às necessidades das classes mais vulneráveis. De modo específico, dentro do campo das escolas de Ensino Médio, cuja estrutura destas instituições reproduz a ideologia dominante perpetuando a estrutura do campo do poder, por meio da autoridade pedagógica. Bourdieu (2014), ao olhar a escola, chama a atenção:

Assim, sugerindo pela noção amorfa de “controle social”, que o sistema escolar desempenha uma função indivisível em relação à “sociedade global”, o funcionamento totalizante tende a dissimular que um sistema que contribui para reproduzir a estrutura das relações de classe serve efetivamente a “Sociedade”, no sentido de “ordem social”, e, portanto, os interesses pedagógicos das classes que se beneficiem dessa ordem (Bourdieu, 2014, p. 226).

Todo esse processo de legitimação de uma escola que reproduz os interesses dominantes é consequência de ações e efeitos gerados pelos agentes, dentro do campo, cuja ação é pensada e devidamente direcionada, ao ponto de gerar a reflexão que os dominados contribuem com a sua própria dominação, exatamente por estarem inseridos nesta lógica de dominação desde sua primeira socialização. A força simbólica dessa ação simboliza uma forma de dependência e até submissão à experiência dóxica, cuja percepção tem a ver com tudo aquilo que todos no campo social concordam sem precisar assinar/tornar institucionalizado.

É nesse contexto que o tema da reprodução das desigualdades sociais se cruza com o tema central deste estudo que são as políticas públicas educacionais para as juventudes, categoria que tem protagonizado a histórica invisibilidade da ação pública do Estado, compreendendo que juventudes do interior do estado, na perspectiva de uma construção histórica e social, o que inclui suas experiências pessoais, além das várias dimensões que compõem suas trajetórias socioeducacionais.

É a partir das reflexões teóricas apontadas nesta explanação inicial, e que serão aprofundadas ao longo da tese, a partir da contribuição sempre da empiria, para uma análise da condição juvenil na Amazônia. Aqui será tratato de um grupo de jovens que, nestas primeiras décadas do século XXI, tem lutado para fechar o ciclo da educação básica, o que para muitos, no contexto estudado, representa a terminalidade da vida escolar.

1.2 A organização do caminho metodológico da investigação

A eficácia do método se revela mediante aos resultados que gera, sendo que, quando aplicado em diálogo com o objeto estudado de forma coerente, sua execução demanda considerável dose de inteligência, inventividade e esforço laboral, conforme destacado por Bourdieu (2022). O que reforça a ideia de que a aplicação de um método exigente transcende simplesmente a execução técnica, exigindo uma abordagem holística e engajada para alcançar resultados significativos.

E, partindo do pressuposto de que “[…] por mais parcial e parcelar que seja um objeto de pesquisa, só pode ser definido e construído em função de uma problemática teórica que permita submeter a uma interrogação sistemática […]” (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1999, p. 48), a discussão que objetivamos realizar aqui centra-se no desenvolvimento dos passos que amparam todo o processo de escrita desta tese, a partir da construção do objeto, da elaboração do percurso metodológico e de todos os elementos que a compõem, compreendendo que todas essas partes estão intrinsecamente ligadas entre si.

1.3 A abordagem da pesquisa

Como já mencionado, esta pesquisa partiu da análise do alcance das políticas ligadas ao acesso e à permanência, a partir das trajetórias socioeducacionais das juventudes na Amazônia, especificamente às do interior do Amazonas, de um espaço marcado pelos fenômenos da cheia e da seca, pelas dificuldades na travessia do Rio rumo à escola, pelas práticas da agricultura familiar, entre tantos outros que foram trazidos nesta investigação.

A escolha metodológica de eleger as juventudes na Amazônia como agentes18 desta investigação, amparou-se em um pressuposto de pesquisa. Parte-se do fundamento de que as juventudes são interlocutores válidos, uma vez que a partir de suas vivências podemos analisar as políticas públicas para o EM, porque quando se trata de política pública, sabemos que não acontece da forma que almejamos, porque os agentes que a constroem/ construíram estão em posição de dominantes e as formas como elas vão se efetivando na vida cotidiana das pessoas, revelam muito de como esse processo de dominação social é ratificado, muitas vezes, inclusive por iniciativas que foram pensadas inicialmente para solucionar questões ligadas às expressões das desigualdades sociais e educacionais.

Bourdieu nos faz compreender a sociedade a partir dos seus campos sociais. “A nossa posição em um campo determina a forma como consumimos não só as coisas, mas também o ensino, a política o ensino, as artes” (Thiry-Cherques, 2006, p. 36). Valer-se de tal perspectiva ocasionou uma modificação no eixo da nossa análise, substituindo as unidades escolares, que comumente encontramos nas pesquisas, para agentes jovens, passando as políticas públicas a serem problematizadas a partir da ótica das juventudes que as experienciam nas suas próprias vidas, visando a compreensão de suas demandas e necessidades relativas ao acesso e à permanência no ambiente escolar urbano em Itacoatiara-AM.

Encarando a metodologia enquanto caminho para a produção da investigação, utilizamos a pesquisa qualitativa, esclarecendo que a partir dessa abordagem não se pretende medir e enumerar eventos, contudo nos propomos a conhecer os processos sociais, por meio de um contato mais direto da pesquisadora com o objeto e com as pessoas a serem pesquisados, haja vista que na pesquisa qualitativa os focos de interesse se ampliam na perspectiva de compreender e analisar os dados pesquisados, sob uma ótica mais ampla, o que favorece o entendimento das relações que envolvem um determinado grupo social, nesse caso, as juventudes da e na Amazônia, uma vez que este tipo de pesquisa possibilita a interpretação e análise dos fenômenos, atribuindo significações que não podemos analisar numa perspectiva unicamente quantitativa.

Este trabalho assume a abordagem qualitativa com a intenção de contribuir e instrumentalizar os estudos sobre o alcance das políticas de acesso e permanência das

juventudes na Amazônia. Esta escolha se dá em função de algumas características, especialmente no tocante ao privilegiamento da objetividade social:

[…] não é a descrição das atitudes, opiniões, e aspirações individuais que tem a possibilidade de proporcionar o princípio explicativo do funcionamento de uma organização, mas a apreensão da lógica objetiva da organização é que conduz ao princípio capaz de explicar, por acréscimo, as atitudes, opiniões e aspirações. Esse objetivismo provisório que é a condição da apreensão da verdade objetivada dos sujeitos é também a condição da compreensão completa da relação vivida que os sujeitos mantêm com sua verdade objetivada em um sistema de relações objetivas (Bourdieu, 1999, p. 29).

Torna-se importante compreender também os sentidos e significados dados pelas

juventudes aos seus processos de escolarização, pois, amparada em Minayo (2010, p. 47), “é objetivo desse modelo de pesquisa a tentativa de interpretação dos aspectos psicológicos, sociais, econômicos e individuais” em que as juventudes amazônidas estão inseridas, sendo todos eles, frutos de construções históricas.

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16 A pergunta da classificação, como é feita na sociologia, obriga a nos perguntarmos quem classifica no mundo social? Será que todo mundo classifica? Será que classificamos a todo instante? Como classificamos? será que classificamos do mesmo modo que o lógico quando ele classifica, a partir de definições, conceitos etc.? continuando, se todos classificam, será que todas as classificações e, portanto, todos os classificadores têm o mesmo peso social?” (Bourdieu, 2020, p. 21).

17 “A vigilância epistemológica impõe-se, particularmente, no caso das ciências do homem nas quais a separação entre a opinião comum e o discurso científico é mias imprecisa que alhures” (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1999, p. 23).

18 “Todo agente, individuo ou grupo, para subsistir socialmente, deve participar de um jogo que lhes impõe sacrifícios. Neste jogo, alguns de nós nos cremos livres, outros determinados. Mas, para Bourdieu não somos nem uma coisa nem outra. Somos o produto de estruturas profundas. Temos inscritos em nós, os princípios geradores e

organizadores das nossas práticas e representações, das nossas ações e pensamentos. Por este motivo Bourdieu não trabalha com o conceito de sujeito. Prefere o de agente” (Thiry-Cherques, 2006, p. 34).

Continua na próxima edição…

*Meiry Jane Cavalcante Rattes é Doutora em Educação pela UFAM, com foco em Educação, Estado e Sociedade na Amazônia, e Mestra em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela UFJF/MG. Pedagoga de formação com especialização em Metodologia do Ensino Superior, possui sólida trajetória na Educação Básica e na gestão escolar, tendo atuado como gestora do Colégio Vital de Mendonça e professora em Itacoatiara, além de integrar o corpo técnico da SEDUC/AM.
Como pesquisadora, integra o Grupo de Pesquisa em Sociologia Política da Educação e é associada à ANPEd, onde participa do GT de Sociologia da Educação. Sua produção intelectual concentra-se em políticas públicas educacionais, juventudes na Amazônia e Ensino Médio, investigando as interseções entre o Estado e a Educação Básica.

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