Manaus, 16 de março de 2026

Trajetórias Escolares de jovens no interior do Amazonas: Significados de acesso, permanência e sucesso, em Itacoatiara

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*Meiry Jane Cavalcante Rattes

Continuação…

1.4 Dispositivos de construção de dados

Minayo (2010, p.63), “o que toma o trabalho interacional (ou seja, de relação entre pesquisador e pesquisados) um instrumento privilegiado de coleta de informações para as pessoas é a possibilidade que tem a fala de ser reveladora de condições de vida” […]. a partir do raciocínio da autora, a pesquisa faz uso de dados bibliográficos, análise documental e do Grupo Focal como principal estratégia para reunir e catalogar informações sobre as experiências socioeducacionais das juventudes na Amazônia. Assim, a produção de dados ampara-se em duas grandes etapas: a coleta de dados existentes representando a primeira; já a segunda direcionada à construção dos dados inéditos.

A primeira etapa da pesquisa ocorre a partir do levantamento do material documental, que compreende a análise dos dados do Sistema de Gestão Educacional do Amazonas (SIGEAM)19, constituindo-se como base para a organização das informações iniciais da pesquisa, dando à pesquisadora direcionamentos pontuais acerca do quantitativo de estudantes matriculados nas escolas de Ensino Médio, que utilizam o transporte fluvial para sua locomoção até a escola, haja vista que, como mencionado no texto, a questão do transporte escolar está ligada diretamente às políticas de acesso e permanência para as juventudes na Amazônia. Esta atividade inicial, contou ainda com a análise exploratória, favorecendo o contato prévio junto ao universo da pesquisa. Nessa fase é importante considerar o que Bourdieu afirma:

Se, como faz o historiador tradicional, o documento é questionado a respeito dos acontecimentos individuais, ou, ainda melhor, das explicações pelos motivos, das ações dos pensamentos individuais, cujo conhecimento não é necessariamente obtido a não ser por intermédio de um espírito, o documento não é, com efeito, matéria de trabalho científico próprio. No entanto, se a pesquisa está voltada para a “instituição” e não para “o acontecimento”, para as relações objetivas entre os fenômenos e não para as intenções e finalidades concebidas, ocorre muitas vezes que, na realidade, chegamos ao fato estudado não por intermédio de um espírito, mas diretamente (Bourdieu, 1999, p. 147).

Conforme Shiroma, Campos e Garcia (2005), os documentos da área de política educacional são fontes valorosas porque fornecem informações sobre determinados contextos, que somente são possíveis por meio das fontes documentais e que de outras formas dificilmente seriam conhecidas. As informações derivadas dos documentos foram priorizadas conforme se mostraram condizentes com o processo de buscas das possíveis respostas para a nossa questão de pesquisa e para o diálogo com as informações produzidas por meio do Grupo Focal, para possibilitar o compromisso com uma análise de foco qualitativo.

A utilização da análise documental pretendeu trazer o enriquecimento da pesquisa por meio da análise das intencionalidades dos documentos, além de permitir o acesso a documentos atualizados, na tentativa de possibilitar o reconhecimento de algumas tendências contemporâneas relativas às políticas públicas educacionais para as juventudes na Amazônia. Dessa forma, os documentos que compuseram as fontes de pesquisa são: relações nominais dos estudantes que utilizam transporte fluvial, Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, documentos orientadores da Secretaria de educação (SEDUC-AM), Referencial Curricular Amazonense (RCA), estrutura curricular para o Novo Ensino Médio (NEM), Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento da CONAE, Planos Nacionais e Estaduais e de Educação, cuja ênfase foi dada devido a análise construída, a partir destes planos, com o objeto de estudo proposto nesta tese.

A revisão de literatura na perspectiva integrativa, compõe a segunda etapa da pesquisa, no sentido de saber o que os estudos dizem acerca do objeto investigado. E a partir do contato com a literatura especializada voltada ao nosso tema e demais temáticas correlatas, foi possível melhorar a compreensão do objeto desta pesquisa, além de elencar os principais referenciais teórico-metodológicos que dialogam com as pesquisas neste campo. Além disso, esclarecemos que não há um capítulo em que a revisão de literatura será tratada de forma mais detalhada, pois optamos que os textos selecionados estejam em diálogo ao longo de toda a tese, porém, trazemos um apêndice com um quadro para apresentarmos o que foi priorizado nesta etapa de pesquisa (Apêndice 1).

Teses e dissertações, no Banco de Teses e Dissertações da Coordenação e Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES e na Biblioteca Digital de Tese e Dissertações (BDTD), artigos publicados em periódicos científicos e livros, como também artigos disponibilizados nos indexadores: Scielo, Scopus e Web of Sciense, integram o mapeamento que priorizamos para esta etapa, com recorte temporal para conhecer a problemática no período de 2013-2022, em âmbito nacional e internacional. Tais publicações desempenharam o papel de dar suporte, com a intenção de conhecer o que os pesquisadores estão escrevendo acerca do nosso objeto de estudo e nos auxiliaram a amadurecer debates teóricos e metodológicos importantes para o desenvolvimento desta pesquisa doutoral.

Nesse sentido, foram efetivadas pesquisas bibliográficas em sites com domínio público, banco de teses da CAPES, nos portais do governo federal, visando a compreensão da construção sociológica acerca das juventudes, bem como o papel do Estado como integrante do jogo na luta pelo poder, que movimenta os interesses em torno das políticas públicas no Brasil. Uma forma de manter uma aproximação mais qualitativa com os trabalhos precedentes a esta tese, que tem como palavras-chave: Política educacional; Juventudes; Ensino Médio.

Quadro 1 – Demonstrativo dos trabalhos encontrados nos indexadores

Fonte: Elaborado pela autora.

No movimento de busca dos trabalhos na CAPES foram utilizadas descritores de busca “Políticas Educacionais” AND (“Jovens” OR “Juventude”) AND “Ensino Médio” com os atributos para refinamento da busca: Grande Área do conhecimento- Ciências Humanas; Área do conhecimento – Educação; Área de Concentração – Educação; Educação Básica, Tecnologias, Trabalho e Movimentos Sociais na Amazônia; Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares e, Políticas Públicas e Gestão Educacional. Como resultado, foram encontrados dezenove (19) trabalhos – sendo quatorze (14) dissertações e cinco (5) teses.

Na BDTD usando os mesmos descritores de busca “Políticas Educacionais” AND (“Jovens” OR “Juventude”) AND “Ensino Médio” para o período de 2013-2022, obteve-se como resultado setenta e dois (72) trabalhos – sendo quarenta e cinco (45) dissertações e vinte e sete (27) teses. No indexador Scielo, utilizando os descritores “Políticas Educacionais” AND “Juventude” AND “Ensino Médio”, obteve-se quatro (4) artigos. No indexador Scopus, foram encontrados vinte e oito (28) artigos e/ou artigos de revisão, usando a strings de busca “Educational PoliciesAND YouthAND “High School” e os filtros de busca: Área disciplinar: Ciências Sociais; Tipo de documento: Artigo; Linguagem: espanhol. inglês e português.

Na base de dados Web of Science obteve-se como resultados trinta e três (33) artigos e/ou artigos de revisão. Usando os descritores de busca: “Educational Policies” AND “Youth” AND “High School” e os filtros: Categorias: Educação e pesquisa educacional; Tópicos de citação: Educação e pesquisa educacional; Tipo de documento: Artigo e artigo de revisão; Linguagem: espanhol, inglês e português.

“Políticas Educacionais” AND (“Jovens” OR “Juventude”) AND “Ensino Médio” com os atributos para refinamento da busca: Grande Área do conhecimento- Ciências Humanas; Área do conhecimento – Educação; Área de Concentração – Educação; Educação Básica, Tecnologias, Trabalho e Movimentos Sociais na Amazônia; Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares e, Políticas Públicas e Gestão Educacional. Como resultado, foram encontrados dezenove (19) trabalhos – sendo quatorze (14) dissertações e cinco (5) teses.

Ainda em busca por trabalhos produzidos sobre juventudes e educação na região Amazônica, o movimento de busca dos trabalhos, encontrou no repositório da UFAM, no período de 2020 a 2024, por meio dos descritores de busca Juventude AND Ensino Médio AND Amazônia; Grande área do conhecimento Ciências Humanas e Educação o equivalente a quarenta dissertações (40) e vinte e três teses (23) teses.

É importante registrar que, no processo de orientação, ao definirmos as palavras principais para a busca, pensamos a princípio: Família, Políticas e Jovens, porém, o termo Família trouxe pesquisas direcionadas aos conflitos sobre o uso de drogas, gravidez na adolescência, conflitos familiares, entre outras temáticas que, embora sejam importantes para uma compreensão mais qualificada das condições juvenis no cenário brasileiro, não correspondiam a ideia de enfatizar a análise de políticas públicas no âmbito educacional.

A terceira etapa da pesquisa contemplou um importante instrumento utilizado para a coleta dos dados da pesquisa – o Grupo Focal – trazer para o cenário das políticas públicas a voz dos sujeitos, com o intuito de entender as percepções destes jovens acerca do papel da família na sua trajetória socioeducacional, bem como a percepção que os próprios estudantes têm da escola para as suas vidas e como eles veem o papel das políticas educacionais no seu processo de escolarização, sendo uma “estratégia subversiva” (Thiry-Cherques, 2016).

Foi realizado, com os estudantes do Ensino Médio, um Grupo Focal (GF), que nesse contexto, de acordo com Vergara (2004), o uso do GF é particularmente apropriado quando o objetivo é esclarecer como as pessoas consideram uma experiência, uma ideia ou um evento, uma vez que a discussão durante as reuniões é efetiva em possibilitar informações sobre o que as pessoas pensam ou sentem ou, ainda, sobre a forma como agem. Thiry-Cherques (2006, p.43) complementa sobre essa questão, fazendo uma advertência:

Bourdieu discute longamente o “habitus sociológico “, as disposições do pesquisador na aplicação de princípios abstratos em pesquisa empírica. A sua preocupação diz respeitos às condições do conhecimento, à reflexividade, isto é, ao fato que todo conhecimento é condicionado pelo habitus. Ele leva em conta que a percepção do empírico é distorcida não só pelo habitus dos agentes, mas pelo nosso próprio habitus.

Trata-se de uma técnica que favorece a interação direta dos participantes envolvidos, permitindo que as pessoas sejam observadas, ouvidas e registradas para além da fala, como também por suas expressões, possibilitando à pesquisadora apreender o pensamento dito, além de capturar as expressões que são manifestadas pelos/pelas participantes, contribuindo para uma diversidade de informações coletadas na pesquisa. Gatti (2005), por sua vez, salienta que a técnica de grupo focal precisa estar condizente com o problema proposto, sendo desenvolvida de forma criteriosa e alinhada aos objetivos propostos da investigação. Além disso, o autor, em sua obra O ofício do sociólogo (1999), chama a atenção para a seguinte questão:

Com efeito, quando o sociólogo pretende tirar dos fatos a problemática e os conceitos teóricos que lhe permitam construir e analisar tais fatos, corre sempre o risco de se limitar ao que é afirmado por seus informadores. Não basta que o sociólogo esteja à escuta dos sujeitos, faça a gravação fiel das informações e razões fornecidas por estes, para justificar a conduta deles e, até mesmo, as razões que propõem: ao proceder dessa forma, corre o risco de substituir pura e simplesmente suas próprias prenoções pelas prenoções dos que ele estuda, ou por um misto falsamente erudito e falsamente objetivo da sociologia espontânea do “cientista “e da sociologia espontânea (Bourdieu, 1999, p. 50).

Ainda sobre a caracterização do GF, Gondim (2003), chama atenção para esta técnica de investigação qualitativa comprometida com a abordagem dos sujeitos, e destaca sobre fatores que afetam ao processo de discussão dos grupos focais e a validade de seus resultados “Durante a Segunda Guerra Mundial, os grupos focais foram utilizados para examinar os efeitos persuasivos da propaganda política, avaliar a eficácia do material de treinamento das tropas, bem como os fatores que afetavam a produtividade nos grupos de trabalho” (Gondim, 2003, p. 151).

A utilização desta técnica na presente pesquisa foi pensada a partir dos pontos descritos acima e passou por algumas etapas. Inicialmente, houve o processo de planejamento dos blocos temáticos para gerar as questões que compõem a discussões desenvolvidas no GF, levando em consideração a vivência das juventudes no Ensino Médio, para futuras análises da pesquisadora, pois de acordo com Bourdieu “sem dúvida, pode-se e deve-se coletar os mais irreais discursos, mas com a condição de ver neles não a explicação do comportamento, mas um aspecto do comportamento a ser explicado (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1999, p. 51).

Foi construído um roteiro contendo quatro grandes blocos com temáticas diferenciadas, e um encontro para informações gerais, a saber: um encontro para apresentar a pesquisa e as seguintes temáticas: 1) escolha da escola (o que me trouxe para cá?); 2) desafios do Ensino Médio (eu, o outro e a diversidade nas experiências escolares); 3) organização e expectativas familiares: famílias e vivências nos estudos e 4) trajetórias juvenis no Ensino Médio: sentidos e desafios. Vale destacar que esse roteiro ficou em aberto para inserir alguma outra questão, que pudesse surgir no momento de sua aplicação e sentíssemos a necessidade de acrescentar algo. Também foi pensado o local onde ocorreram os encontros, uma vez que os estudantes participantes, mediante os critérios de inclusão e exclusão para essa seleção, são moradores da comunidade situada no outro lado do Rio Amazonas, e em conversa com a Professora/Orientadora da presente tese, consideramos mais adequado realizar os encontros do Grupo Focal na própria escola. No que diz respeito ao trabalho de campo, Minayo (2010, p. 61), destaca:

O trabalho de campo permite a aproximação do pesquisador da realidade sobre a qual formulou uma pergunta, mas também estabelecer uma interação com os “atores” que conformam a realidade e, assim, constrói um conhecimento empírico importantíssimo para quem faz pesquisa social. É claro que a riqueza desta etapa vai depender da qualidade da fase exploratória.

Ao iniciar o ano letivo de 2023, buscou-se reestabelecer um contato maior com a escola campo de pesquisa, equipe diretiva e professores, por meio de algumas visitas, solicitando da secretaria da escola informações relativas aos endereços dos estudantes, com o propósito de reunir dados sobre o perfil deles/delas para, a partir dessas informações, eleger os jovens com os quais iríamos trabalhar.

Por meio dos dados do SIGEAM foi possível notar que 58 estudantes utlizaram transporte escolar, seja rodoviário ou fluvial, no ano letivo de 2022. Essa relação é feita a partir dos dados dos estudantes, fornecidos pelos pais no ato da matrícula para a secretaria da escola. A partir dessa percepção, detivemos nosso olhar nos estudantes residentes nas comunidades rurais. E na realidade amazônica, devido às distâncias de um lugar para outro, mapeamos jovens que moravam nas comunidades situadas às margens do Rio Amazonas, devido ao acesso à cidade. No total eram 8 (oito) jovens.

O primeiro momento de realização do GF aconteceu como previsto, na própria escola, no dia 13 de setembro de 2023, no auditório, pensado como lugar estratégico por ser um espaço amplo, bem iluminado e acolhedor, onde também foi possível posicionar as poltronas no formato de círculo, a fim de evitar as dispersões originárias das conversas paralelas, de maneira que todos pudessem se ver e participar em posição de igualdade uns com os outros, visando favorecer o diálogo e a interação entre todos os participantes.

Essa primeira atividade contou com a participação da pesquisadora/mediadora, que conduziu o diálogo, apresentando as suas responsabilidades na mediação do grupo focal, como: saudação de votos de boas-vindas, apresentação da pesquisa aos participantes; esclarecimento acerca do que é um Grupo Focal, qual o seu objetivo e como funciona; exposição da importância da assinatura do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE) e do Termo de Consentimento Livre Esclarecido20; apresentação do cronograma dos encontros e tempo de duração; apresentação das regras básicas: participar, ouvir e respeitar a fala e opinião do outro; agradecimentos pela participação e pedido de permissão para gravação de áudio, com a finalidade de não perder nenhuma das informações fornecidas por eles/elas, haja vista que mais de um participante pode falar ao mesmo tempo e alguma informação pode não ser devidamente registrada. A realização desse primeiro momento do GF teve 45 minutos de duração, aproximadamente, destinados às informações gerais sobre o desenvolvimento dos quatro encontros previstos em nosso cronograma.

Não foi possível dar continuidade aos encontros do grupo focal no ano letivo de 2023, devido aos três motivos impeditivos, a seguir: o 1º motivo, a partir da segunda quinzena do mês de setembro não foi possível realizar nenhuma atividade na escola, devido a sua preparação para a aplicação do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), pois a gestão estabeleceu um cronograma de atividades a ser cumprido. Nesse período, as escolas se voltam estritamente às questões desta avaliação externa, como o trabalho com os descritores, comprometendo o cumprimento do currículo escolar; o 2º motivo, ainda nesse mesmo período, a escola teve problemas com os ar condicionados das salas de aula, e com isso, começou a liberar os estudantes mais cedo, devido à falta de água e o intenso calor. E aqui cabe destacar que as escolas precisam do suporte contínuo da sua mantenedora, que é a SEDUC-AM, sendo a responsável pela manutenção predial e tudo o que está relacionado a isso, para garantir o direito à educação. E por último, a grande seca que afetou nossa região, isolando algumas comunidades rurais, entre elas a comunidade São Sebastião da Costa do Siripá, o que dificultou a vinda dos estudantes para a escola, haja vista as inúmeras dificuldades para a locomoção dos barcos e rabetas no rio, deixando os moradores em suas comunidades, sem acesso à cidade.

Portanto, os demais encontros para a efetivação do GF com os estudantes foram realizados nos meses de abril, maio (após a qualificação) e junho do ano 2024, cumprindo assim a reorganização do cronograma previsto no projeto de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética.

Após o início do ano letivo, que se deu em fevereiro de 2025, seguindo o cronograma de pesquisa, o desafio foi a aproximação dos estudantes que estavam estudando em turnos diferentes, ou seja, cinco estavam matriculados pela manhã e três à tarde. A partir dessas informações, foi agendado com a diretora da escola, que nos auxiliou nesse contato com os estudantes e realizamos os encontros que estavam faltando.

O segundo encontro aconteceu em 08 de abril de 2024, em cada turno dos estudantes. Foi necessário reforçar com cuidado, e de deixar claro desde o início, que a participação era voluntária e que ninguém receberia nenhum tipo de recompensa por participar. Desse modo, seguimos o GF com o roteiro preparado para o dia, intitulado “Escolha da escola” (o que me trouxe pra cá), composto de seis subtemas, cujo objetivo era promover um debate interativo, conhecendo o processo de formação educacional dos jovens. A pesquisadora apresentou o roteiro, comentou qual seu objetivo. Todos participaram, contando um pouco da sua trajetória escolar. Alguns aparentaram mais empolgação, outros ficaram mais tímidos, em seus momentos de fala. O encontro teve a duração de 80 minutos. Ao final, a pesquisadora agradeceu a presença e participação de todos e encaminhou a próxima data.

O terceiro encontro ocorreu em 23 de abril de 2024. Neste dia, dos cinco estudantes do turno matutino só estavam três. No turno vespertino, por sua vez, todos estavam presentes. O roteiro preparado para esta data foi o seguinte: “Desafios do Ensino Médio” (eu, o outro e a diversidade nas experiências escolares), composto de sete subtemas, com o objetivo de conhecer aspectos do cotidiano dos jovens, para identificar dificuldades relativas ao acesso e à permanência na escola, bem como o funcionamento da política de transporte escolar. Apesar de não estarem todos presentes, o encontro teve a duração de duas horas, porque vieram muitas questões à tona, entre elas, o bullying com que já foram tratados por colegas de sala por não morarem na cidade.

O quarto e último encontros foram marcados com os dois temas previstos conclusão do grupo focal e ocorreram em 19 de junho de 2024. Optamos por realizar os dois últimos roteiros em um único dia, devido ao mês de junho, onde começam as férias escolares e ainda era final de bimestre, devido às avaliações do período, além do cumprimento do cronograma da pesquisa. Os temas dos roteiros foram os seguintes: “Organização e experiências familiares” (família e vivência nos estudos) com seis subtemas, cujo objetivo era conhecer o contexto familiar e como se constituem as relações entre os jovens e seus familiares; o último roteiro intitulado “Trajetórias juvenis na Amazônia”; sentidos e desafios, composto de cinco subtemas, com o objetivo de analisar as experiências relativas às vivências dos jovens e identificar as estratégias de enfrentamento das dificuldades para sua escolarização, no cenário amazônico. O encontro teve duração de 90 minutos, e nesse tempo os jovens evidenciaram as suas dificuldades diárias para acessar e permanecer na escola. Uns porque não tem parentes na cidade, e em dias chuvosos não gostam de faltar às aulas, sendo necessário algumas vezes, porque não é possível fazer a travessia do Rio com a rabeta. Outros colocaram que às vezes ajudam os pais na cidade (em serviços de marcenaria, pedreiro, ou alguma venda na feira) e participam de cursos no CETAM, o que demanda estar na cidade sempre, por isso precisam de gasolina para abastecer a rabeta, devido à rotina movimentada do seu dia a dia.

Após a realização dos encontros previstos para o Grupo Focal, o trabalho se concentrou na fase da transcrição literal dos relatos dos agentes da pesquisa. Uma etapa cansativa, mas que se revelou importante, na medida em que se passou a conhecer com certa profundidade muitas histórias de vida, inseridas em um contexto totalmente desconhecido pela pesquisadora, mas que paradoxalmente, no momento de textualizar as narrativas sobre os desafios impostos para a escolarização, foi se auto identificando neles também. Esse processo foi responsável também por proporcionar as reflexões iniciais sobre as trajetórias dos jovens com os quais dialoguei e escutei na pesquisa de campo, as quais foram se consolidando e originaram as categorias de análise da pesquisa.

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19 Sistema desenvolvido em ambiente de grande porte, centralizado na PRODAM, cujo objetivo é a administração das escolas, e é integrado aos demais sistemas da área escolar da SEDUC.

20 Para a assinatura deste termo, a pesquisadora solicitou da gestão escolar uma reunião com os pais ou responsáveis dos estudantes participantes do GF, a fim de apresentar a pesquisa e o desenvolvimento das etapas, cuja participação de seus filhos seria necessária. E a partir do consentimento das famílias e assinatura do termo, daríamos continuidade nos encontros.

Continua na próxima edição…

* Meiry Jane Cavalcante Rattes é Doutora em Educação pela UFAM, com foco em Educação, Estado e Sociedade na Amazônia, e Mestra em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela UFJF/MG. Pedagoga de formação com especialização em Metodologia do Ensino Superior, possui sólida trajetória na Educação Básica e na gestão escolar, tendo atuado como gestora do Colégio Vital de Mendonça e professora em Itacoatiara, além de integrar o corpo técnico da SEDUC/AM.
Como pesquisadora, integra o Grupo de Pesquisa em Sociologia Política da Educação e é associada à ANPEd, onde participa do GT de Sociologia da Educação. Sua produção intelectual concentra-se em políticas públicas educacionais, juventudes na Amazônia e Ensino Médio, investigando as interseções entre o Estado e a Educação Básica.

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