Manaus, 23 de março de 2026

Trajetórias Escolares de jovens no interior do Amazonas: Significados de acesso, permanência e sucesso, em Itacoatiara

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*Meiry Jane Cavalcante Rattes

Continuação…

1.5 Caracterização do campo da pesquisa

Optou-se pela caracterização do campo da pesquisa, abordando o contexto amazônico e as especificidades da nossa região, que dialogam fortemente com o objeto de estudo, apresentamos também o município de Itacoatiara, com a intenção de tratar um pouco sobre a história da cidade, no sentido de trazer para a academia uma investigação no cenário itacoatiarense, apresentando a História da Escola Vital de Mendonça, sem esquecer da comunidade rural onde eles moram (os dados sobre a comunidade constam no capitulo 4).

No que diz respeito à Amazônia Legal, ela está situada em um contexto de organização político-espacial onde o significado de território não se reduz apenas à delimitação geográfica, mas sobretudo à diversidade de espécies, aos desafios ambientais, às questões culturais, políticas, com destaque às peculiaridades dos povos que habitam e constroem a sua identidade própria nesse espaço.

De acordo com Novaes (2006, p. 106), “o endereço faz toda a diferença, ‘abona ou desabona’, amplia ou restringe acessos”. A importância de iniciarmos essa seção refletindo sobre essa questão, especialmente no que se refere ao local de moradia das juventudes pesquisadas, nos remete a conhecer a trajetória socioeducacional dos jovens no cenário amazônico e as implicações dos esforços empreendidos para o seu percurso educacional, implica saber o lugar de onde vêm esses sujeitos.

Em seus estudos, Dayrell (2016, p. 184) nos lembra que “o local de moradia deixa de ser marca somente das desigualdades econômicas, para exercer impactos sociais e culturais, especialmente no que tange ao acesso a determinados bens e serviços”. Diante disso, a partir de agora buscaremos apresentar o lugar onde estão inseridos os jovens sujeitos desta pesquisa, logo, qualquer interpretação a respeito de suas vivências não pode ser feita dissociada do contexto no qual os indivíduos estão inseridos.

1.5.1 O cenário amazônico

Todas essas particularidades que envolvem os aspectos socioculturais, ambientais e produtivos da Amazônia revelam a complexidade e o antagonismo que envolvem relações de poder entre grupos, populações e movimentos sociais presentes na região e mais especificamente no meio rural em torno da disputa pela hegemonia de projetos sociais específicos; de suas identidades culturais próprias; e do uso dos recursos naturais da Região (Hage, 2005, p. 67).

 

O pensamento de Hage acima exposto dialoga fortemente com os caminhos desta pesquisa, quando lembra a heterogeneidade do nosso próprio lugar, afirmando que o “cotidiano da vida, do trabalho e das relações sociais, culturais e educacionais dos sujeitos que nela habitam, heterogeneidade essa, que deve ser valorizada e incorporada nos processos e espaços de elaboração e implementação de políticas e propostas educacionais para a região” (Hage, 2005, p. 61).

Em um contexto mais amplo, cuja história é marcada pela catequização jesuítica e imposição da cultura europeia, o mapa que aparece na figura 2, abaixo, é formado pelos três grandes lugares da pesquisa, os cenários brasileiro, amazônico e itacoatiarense, que constituem espaços de povos que carecem de políticas públicas capazes de garantir o seu pleno desenvolvimento e o enfrentamento das assimetrias históricas, sociais e regionais que marcam a história social do Brasil e da Amazônia brasileira.

 

Figura 2 – Lócus da pesquisa: Representação geográfica da área onde se desenvolveu a pesquisa doutoral

Fonte: Andrade (2021)

 

Inserida no cenário brasileiro, esta investigação considera em suas análises o espaço chamado Amazônia Legal, cuja formação se dá por nove estados da região Norte pertencentes à bacia amazônica, são eles: parte do estado do Maranhão, Pará, Rondônia, Amapá, Tocantins, Roraima, Acre, Mato Grosso e Amazonas – estado onde acontece a pesquisa- totalizando aproximadamente, 808 municípios.

Conforme as afirmações do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA (2008), essa designação foi instituída em 1953, com a finalidade de demarcar geograficamente a atuação da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) e com isso, cooperar para o desenvolvimento includente e sustentável desta região. O termo “Amazônia Legal” serve para efeitos de planejamento econômico e fins administrativos.

De acordo com os dados disponíveis no site Amazônia Legal em Dados, trata-se de um grande espaço em termos territoriais, que corresponde a 60% da área brasileira. A população da Amazônia Legal foi estimada em 29,5 milhões de habitantes em 2022, crescendo 12% em relação a 2012 e cerca de 68,2% da população desta região concentra-se em três estados: Pará, Maranhão e Amazonas, representando 13,7 da população do país, composta de brancos, negros e população indígena.

Segundo Hage (2005), há muita complexidade na construção das identidades culturais da Amazônia, pois o modo de vida, bem como os saberes e os valores eram enraizados na cultura indígena, porém o povo amazônida passou a ser influenciado pela imposição dos padrões oriundos de seus colonizadores e povoadores, dentre os quais ganham destaque: portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, ingleses e norte-americanos, os povos africanos que chegaram, na condição de escravos, os asiáticos e japoneses, os judeus e sírio-libaneses, e os imigrantes vindos do Nordeste e de outras regiões brasileiras. O autor chama a atenção para o fato de que as populações indígenas e caboclas desenvolveram as suas matrizes histórico- culturais, construindo o seu modo de vida, a partir de uma relação próxima com o meio ambiente, adaptando-se às características regionais, beneficiando-se das oportunidades advindas da floresta, várzea e rio, e a partir deles utilizando os recursos materiais para seu sustento (suprindo suas necessidades com fartura), o que influenciou especialmente, na formação de seus mitos e lendas.

Diante de situações existenciais tão diversas que envolvem ecossistemas, biodiversidade, socio-diversidade e tantos outros elementos que compõem o acervo de saberes, experiências, e tecnologias da região, é inadmissível que as políticas e as práticas curriculares vigentes continuem a se perpetuar desconsiderando essas especificidades que constituem as identidades culturais de nossa região (Hage, 2005, p. 67).

A partir das colocações do autor, fica claro que toda tentativa de análise sobre a Amazônia deve considerar as especificidades da região, atentando para os fatores socioeconômicos, culturais, históricos, geográficos, territoriais, entre outros, isso porque o processo de elaboração e implementação das políticas públicas tem caminhado na posição contrária às necessidades e anseios da população amazônida, privilegiando os discursos e as práticas neoliberais.

Uma questão que precisa ser destacada quando falamos da Amazônia, diz respeito aos desmatamentos sofridos por essa região. O desmatamento acumulado da Amazônia Legal não seguiu a trajetória nacional de redução. Em 2022, a região teve um nível de desmatamento superior às demais regiões do Brasil, com 18,2 mil Km² de desmatamento acumulado. Houve crescimento de 116,4% do indicador em relação a 2012. No período que compreende os anos de 2012 e 2022, o maior e o menor número de focos de queimada registrados foram em 2020, com 155 mil focos, e em 2013, com 89 mil, respectivamente. A Amazônia Legal foi responsável por 151 mil focos de queimada em 2022, ocupando papel central no cenário brasileiro. Os estados onde o desmatamento ocorreu de forma calamitosa foram: Mato Grosso (29.039), Pará (41.421) e Amazonas (21.217).

Assim, falar da Amazônia, particularmente no espaço amazonense, onde está inserida a cidade de Itacoatiara, consiste em considerar os diversos desafios ligados à ordem ambiental, social, política, histórica, cultural e sobretudo geográfica, isso porque os cenários na Amazônia têm se revelado múltiplos, mediante à ação humana, tanto no que diz respeito à degradação do meio ambiente, quanto em relação à importância do processo educacional, assumindo uma postura de luta, na tentativa de combater o descaso e o desrespeito, no tratamento com a Amazônia, sobretudo pelo poder público, grandes latifundiários, garimpeiros, entre outros que, visando a exploração das potencialidades desta terra, com interesses capitalistas, colaboram para a perpetuação das desigualdades sociais na nossa região, pois o percentual de pessoas em situação de vulnerabilidade em 2022, no Amazonas foi de 2.293.974, representando 55, 1% da população e 16,9% no total da região (IBGE, 2022).

 

Figura 3 – Mapa Amazônia Legal

Fonte:IBGE(2019)

 

Nossa pesquisa foi desenvolvida no município de Itacoatiara, cidade porte médio na região metropolitana do estado do Amazonas, norte brasileiro. O Amazonas é um dos sete estados que compõem a Região Norte, sendo composto por 62 municípios. Com uma população aproximadamente de 3.941.613 pessoas, ocupando a 14ª posição, entre os estados, de acordo com o censo de 2022, concentrando ainda a maior população indígena do país. Seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,7 ocupando a 18ª posição no cenário nacional. Sua área é de aproximadamente, 1.559.255,881 km², sendo a maior unidade da federação em extensão territorial. A cobertura vegetal amazonense é formada pela Floresta Amazônica, que abriga a maior diversidade do mundo. O clima predominante no estado é o Equatorial, caracterizado pela elevada umidade do ar (80%, em média) e pelas altas temperaturas que ocorrem durante os meses do ano (IBGE, 2022).

No território amazonense destacamos o município de Itacoatiara, onde no seu espaço rural está localizada a comunidade São Sebastião da costa do Siripá, local de moradia dos jovens participantes dessa pesquisa.

Pela expansão do território amazonense, cabe aqui destacar que existem comunidades no estado que não têm acesso às escolas, ou quando tem, as aulas acontecem em salas multisseriadas, cujo funcionamento é com estudantes de diversas etapas de ensino, desrespeitando a sua idade/ série. O próprio Plano Estadual de Educação – PEE 2014/ 2024, ainda em vigor, reconhece a realidade amazônica “A biodiversidade é que faz do Amazonas um lugar especial. O seu povo impregnado de multiculturalismo faz desse chão a maior celebração ecológica da vida que a Terra conhece (Amazonas, p. 16, 2015), porém ficou bem distante de alcançar o cumprimento das metas estabelecidas, para superar os inúmeros desafios amazônicos no âmbito educacional, no caso desta tese o acesso e a permanência à escola.

Nesse sentido, por todos os aspectos apresentados, a região se constitui como um espaço privilegiado para a realização desta pesquisa e para o enfrentamento das desiguais condições que se colocam como imperativo social e cultural para as juventudes da Amazônia.

Continua na próxima edição…

*Meiry Jane Cavalcante Rattes é Doutora em Educação pela UFAM, com foco em Educação, Estado e Sociedade na Amazônia, e Mestra em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela UFJF/MG. Pedagoga de formação com especialização em Metodologia do Ensino Superior, possui sólida trajetória na Educação Básica e na gestão escolar, tendo atuado como gestora do Colégio Vital de Mendonça e professora em Itacoatiara, além de integrar o corpo técnico da SEDUC/AM.
Como pesquisadora, integra o Grupo de Pesquisa em Sociologia Política da Educação e é associada à ANPEd, onde participa do GT de Sociologia da Educação. Sua produção intelectual concentra-se em políticas públicas educacionais, juventudes na Amazônia e Ensino Médio, investigando as interseções entre o Estado e a Educação Básica.

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