
*Wilson Nogueira
Livro do pesquisador Francisco Gomes revela que a Avenida Parque supera a rua Gonçalo de Carvalho, em Porto Alegre, em extensão arbórea.
O título de túnel verde mais bonito e mais longo do Brasil não pertence à rua Gonçalo de Carvalho, na cidade de Porto Alegre (RS), bairro Independência, mas ao logradouro da mesma categoria da cidade amazonense de Itacoatiara.
A correção do “equívoco” é do escritor e pesquisador Francisco Gomes, no livro “Itacoatiara: cronologia da Avenida Parque” (1870-2025), publicado pela Academia Amazonense de Letras, da qual o autor é membro.
Ainda não há reconhecimento oficial desse título no país, mas a rua porto-alegrense se beneficia, há tempo, da repercussão espontânea de reportagens e guias de viagens nacionais e internacionais.
Enquanto a rua Gonçalo de Carvalho possui um pouco mais 100 árvores ao longo de 500 metros, a avenida Parque tem 348 pés de oitizeiros nos seus 1.830 metros de extensão. O parque é ladeado por vias de circulação de carros.
Estrada de chão batido
O túnel verde da avenida itacoatiarense surgiu em 1870, como estrada de chão batido, para o trânsito de pessoas e carros de boi, margeada por floresta nativa.
A obra, na opinião de Gomes, é resultado da visão urbanística do primeiro administrador da então Vila de Serpa, Elias Pinto de França, que exerceu o cargo de 1869 a 1872. Foi ele que iniciou a construção da estrada planejada de 3,2 quilômetros.
Em 1874, a vila foi elevada ao status de cidade, com o nome de Itacoatiara (pedra pintada, em língua nheengatu), teve como prefeito (antes esse cargo era denominado de intendente) Isaac José Perez, que deu segmento ao projeto de França.
Champs-Elysées
Por sinal, o livro assinala que Perez se empenhou em transformar estrada em avenida parecida com a avenida Champs-Elysées, de Paris, onde havia estado antes de assumir o cargo.
Vale ressaltar, que a Amazônia, no final do século 19 e começo do novo século, passou por mudanças urbanísticas, principalmente Belém (PA) e Manaus (AM), em razão da economia gerada pela extração da borracha da sua floresta.
O imaginário das elites econômicas estava atribulado pela vontade de se criar na selva um estilo vida igual ao francês, que se promovia como farol civilizatório.
Então, a partir de 1927, o prefeito alargou a estrada para 32 metros e criou um canteiro central, com jardins e emoldurados por oitizeiros.
Os primeiros 400 metros da avenida, já com a feição de parque, foram inaugurados em 1928.
E na revitalização mais recente do logradouro, feita pelo então prefeito Chico do Incra (1989-1992), saltou dos 900 metros lineares aos atuais 1.830 metros.
A avenida nasce na margem esquerda do rio Amazonas, atravessa cinco quarteirões, onde se localizam prédios históricos, e se interliga à estrada AM-10, que se estende até Manaus, perfazendo uma extensão de 280 quilômetros.
Patrimônio cultural do Brasil
O túnel verde de Itacoatiara está reconhecido como Patrimônio Cultural de Natureza Material pelo estado, desde 2018, e pelo município desde 2019.
“Esperamos que as autoridades […] possam, algum dia, articular junto à representação política, em Brasília, para viabilizar a apresentação de um projeto de lei propondo o reconhecimento da avenida Parque como Patrimônio Cultural de Natureza Material do Brasil”, sugere Gomes, em seu livro.
Ecologia urbana
Em entrevista ao BNC Amazonas, Francisco Gomes, autor de 19 livros tematizados na história do município de Itacoatiara, explica que a comparação é irrelevante diante da importância dos dois monumentos para a ecologia urbana.
“Quem dera tivéssemos mais e mais túneis verdes espalhados nas cidades brasileiras e do mundo”, disse Gomes.
Ele disse lamentar, entretanto, que o governo amazonense concentre suas ações e realizações na capital, cuja atenção política e empresarial se volta preferencialmente para atender ao funcionamento do distrito industrial de Manaus, codinome da Zona Franca de Manaus (ZFM).
“Falta planejamento que contemple outros municípios com projetos e programas de desenvolvimento econômico, ecológico, turístico ou de infraestrutura”.
Em razão desse vazio de políticas públicas estruturantes, os municípios e suas cidades, à exceção de Manaus, passam ao largo da divulgação das suas potencialidades econômicas e culturais.
“Mesmo assim, Manaus é uma cidade com mil problemas sociais. É uma cidade feia. Não protege seus igarapés, não tem planejamento urbano que equilibre desenvolvimento e meio ambiente”, afirmou Gomes, que mora em Manaus.
Pesquisa
Gomes disse que o seu livro, o 19º tematizado na história do patrimônio cultural de Itacoatiara, é fruto de minuciosa pesquisa documental e vivência cotidiana.
Hoje aposentado, o pesquisador é natural de Itacoatiara, onde exerceu a função de promotor de Justiça por longos anos.
Ele conta que esteve inclusive em Porto Alegre, onde visitou a rua Gonçalo de Carvalho, e, também em lugares fora do país, sem encontrar um logradouro público com o tamanho e beleza da avenida Parque.
Turistas e pesquisadores do Brasil e de outros países que visitam a cidade ficam impressionados com o túnel formado por árvores.
Yuko Miki
“A avenida Parque merece se destacar entre avenidas mais bonitas do mundo”, disse Gomes, ao repercutir um comentário da professora e pesquisadora de Fordham
University (Nova Iorque – EUA) Yuko Miki, que esteve em Itacoatiara, no mês passado, exclusivamente para conhecer o maior túnel verde do Brasil.
Yuko, nascida em Tóquio (Japão), é professora associada de história e estudos latino-americanos e latinos na Fordham University, em Nova York.

Yuko Miki e Francisco Gomes
A edição inglesa de “Fronteiras da cidadania” conquistou o prêmio de melhor livro de história da diáspora africana da American Historical Association e o de melhor livro de história brasileira da Conference on Latin American History.
A versão em português foi editada pela Companhia das Letras, no ano passado.
As árvores da avenida de Itacoatiara abrigam pássaros, répteis, insetos, micro-organismos, fazem sombra e contribuem para amenizar a temperatura desse trecho da cidade.
No começo da manhã, final de tarde e na boca da noite se transforma em abrigo e caminhada da população local.
Fotos: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas e acervo pessoal do escritor**
*Escritor e jornalista parintinense, Wilson Nogueira é Doutor em Sociedade e Cultura pela UFAM e referência no pensamento social amazônico. Com uma obra que une rigor acadêmico e sensibilidade literária, destaca-se por títulos como “Órfãos das Águas” e “Do Outro Lado do Sol”. Sua escrita é dedicada a preservar a identidade ribeirinha e analisar as complexidades da vida na floresta, atuando também como colunista influente no BNC Amazonas.
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