Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Vim de igarité a remo (Ensaios e memória)

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Continuação ….

Cultura

I

A Amazônia Ocidental

Pode parecer impróprio incorporar, em trabalho desta natureza, uma narrativa dedicada ao mundo particular do autor. Mas logo se desfaz a impropriedade quando se vê que essa história traz um testemunho ilustrativo à apreciação de tema aparentemente tão árido. O testemunho está no próximo tópico deste ensaio. Por ora cuido de informar sobre a origem, a escolha do assunto e a roupagem de fantasia de que me amparei ao realizá-lo, pontos que considero essenciais ao interesse do possível leitor.

No elenco das providências adotadas com o nome de Operação Amazônia, efetivada na mesma época em que definia o território da Amazônia Ocidental, – área geográfica situada nos limites da grande Amazônia Brasileira, onde ficam os Estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima – e de que se vão ocupar os elementos desta prosa, a administração pública transformava o antigo Banco de Crédito da Borracha no BASA, Banco da Amazônia S/A, que completou sessenta anos em 2002.

A data não podia passar em branco. A instituição possui presença significativa na história do desenvolvimento regional. Era o momento de deixá-la escrita no papel. Seu antigo presidente, o saudoso Prof. Armando Dias Mendes1, pôs mãos à obra e decidiu organizar uma coletânea de ensaios escritos por especialistas sobre a matéria, publicada com o título de A Amazônia e o seu banco. O livro alcançou sucesso, animando o mestre a organizar-lhe uma segunda edição, ampliada, agora com o título de Amazônia, Terra & Civilização, em dois alentados volumes, convidando-me a escrever-lhe um trabalho sobre cultura.

Pensei e repensei o assunto e tive momentos de vacilo em aceitar a tarefa. Mas a recusa poderia desapontar o nobre amazonólogo. Segui em frente e movido por um gesto de atenção e respeito ao mestre de tantas gerações

de intérpretes da Região, lancei-me ao trabalho. Enchi-me de coragem, reuni os conhecimentos adquiridos ao longo das minhas leituras sobre a questão, a vivência, as observações e a fantasia, reavendo a paisagem e o homem e postei-me ante o teclado e a tela do computador para o trabalho braçal de realização do texto. Trafeguei entre o mito e a realidade, o sentimento e o raciocínio pragmático, até lançar âncoras no desejo de servir, que é a gratificação mais confortadora àqueles que se dedicam à tarefa ilusória de lidar com as palavras.

O certo é que logrei realizar o trabalho, nos prazos estabelecidos e nas dimensões determinadas. Tenho dúvidas se obtive alcançar a qualidade que o organizador sonhou para a sua coletânea. Mas trabalhei com alegria e o texto saiu publicado no referido livro.

Tanto me entusiasmou a tarefa que acabei ampliando a primeira parte e transformando-a neste ensaio. Agora, minha expectativa é responder à curiosidade intelectual do paciente leitor. Sim, porque em regra, o que se percebe em alguns dos mais célebres textos escritos sobre a Região, é um tom de pessimismo que por fim tem marcado a postura mental de toda gente que se arroje às odisseias do tema, com raras e honrosas exceções, desde os clássicos como Euclides da Cunha que viu na Amazônia a última página do Gênesis, a Alberto Rangel do Inferno Verde.

Se de todo não consegui me desvencilhar da escuridão de pessimismo em que fatalmente poderia embrenhar-me, caminhando pelas trilhas selvagens dessa floresta, conscientizei-me de que o homem é um elemento essencialmente dotado da virtude da esperança e, por isso, um dos mais eficazes agentes de transformação do mundo. O que vemos hoje não será a mesma coisa amanhã, porque a sociedade a toda hora se renova como as células de um corpo vivo.

É bem um símbolo desta característica da sociedade o mulateiro ou pau-mulato, uma árvore nativa da Amazônia, que rejuvenesce com enorme velocidade, através da constante renovação das suas cascas, por isso considerada pelos amazônidas como a árvore da juventude. Enfim, no ser humano, onde também nasce a fonte da juventude, quer seja do nosso desejo ou não, ardem as luzes do espírito, manancial permanente da esperança.

De outro modo procurei dotar o texto de alguma fantasia, dimensionando-o aos apelos da imaginação criadora que é uma faculdade de efeito ilimitado, mas sensível às alterações que, em determinadas circunstâncias, se manifestam sob a imposição de limites intransponíveis. Na medida em que nos esforçamos em transformar a realidade, na conquista do espaço ideal ao nosso melhor crescimento, animam-nos os apelos da fantasia que se faz de verdade e de mito.

Vem a propósito o seguinte fato:

O múltiplo artista Jean Cocteau2, ao receber a notícia da morte da cançonetista sua compatrícia Edith Piaf 3, recolheu-se ao escritório para compor um lamento sobre a grande amiga desaparecida repentinamente naquele instante. Corria o ano de 1963. Ela contava 47 anos, apenas. A emoção o traiu e trouxe a morte

também nesse dia ao festejado escritor. Estava ele com 74, o mesmo número da idade da criadora do L’hinne à l’amour, mas invertido, como que chamando a atenção para a cilada que o destino urdiu em torno dos dois célebres amigos. Pobre Cocteau que se deixava influir pelos caprichos da fantasia e facilmente era arrastado pela torrente de emoções que assalta a todo o momento os homens de sensibilidade!

Alguns dias antes deste que foi um dos mais trágicos para a cultura francesa, dia em que perdeu dois dos seus mais altos expoentes, teve tempo o artista de divulgar o seu testamento poético.

O autor de Les enfants terribles, ante um grupo de jornalistas e produtores culturais, sob as luzes das câmeras fotográficas e de televisão e de cinema, emitiu incisivas declarações de impacto, talvez no intuito de escandalizar as pessoas como era do seu estilo, ou, simplesmente, na intenção de deixar impressa na memória do seu tempo aquilo em que acreditava. Disse o roteirista de A princesa de Clèves, que ele valorizava mais o mito do que a história, porque a história é a verdade que se tornará mentira, e o mito é a mentira que se transformará em verdade. E saiu fornecendo vários exemplos sobre aquilo que afirmava, numa atitude que comprovava, também, que a fantasia é necessária quando se pretende dar vida aos registros da história e os acontecimentos contemporâneos.

Entre os fatos históricos a que se referia, Jean Cocteau alude à passagem bíblica da Arca da Aliança, que aparece no Antigo Testamento. Segundo a descrição constante em Ex. 25.10ss., a arca era feita de madeira de acácia, recoberta com ouro por dentro e por fora, medindo, em sistemas de hoje, 1,30m de comprimento, por 0,70cm de largura e 0,70 de altura. Sobre a tampa da arca se encontrava uma cobertura dourada onde se postavam dois querubins, um de frente para o outro com as asas estendidas sobre a tampa dourada, que constituía o trono de Javé. Tudo sob uma carga de simbolismo que me foge à competência analisar. Mas vale informar que a Arca da Aliança continha as duas tábuas de pedra que remontavam à época mosaica (1Rs 8,9), as célebres Tábuas da Lei. Segundo tradição rabínica, referida em Hb 9,4, não histórica, guardava também um vaso de maná e o bastão de Aarão.

A Arca da Aliança era levada a frente do povo nas suas movimentações nômades e nas guerras. Era conduzida por sacerdotes paramentados com indumentária própria, amplamente descrita nesses textos bíblicos. Depois de inúmeros acontecimentos, de glória e de esquecimento da arca, Davi decidiu levá-la para o novo santuário de Jerusalém, com o povo de Israel em cortejo a louvar ao Senhor, tocando toda casta de instrumentos de madeira, cítaras, violas, tambores, flautas e timbales. Aí se deu o fato a que se refere Jean Cocteau, segundo 2Sm 6. 6 e 7, que vai em seguida:

Mas logo que chegaram à eira de Naccon, lançou Oza a mão à arca de Deus, e a susteve: porque os bois escoiceavam, e a tinham feito prender. E o Senhor se indignou em grande maneira contra Oza, e o feriu pela sua temeridade e caiu morto ali mesmo, junto à arca de Deus.

A conclusão do poeta para este acontecimento é que os querubins que encimavam a arca eram construídos de ouro negativo e positivo, entrando, periodicamente, em circuito elétrico. Aproximavam-se da arca imunes ao fenômeno somente os sacerdotes, pois estes andavam protegidos por seus paramentos, vestes que os isolavam dos choques elétricos. Oza fora eletrocutado por sua imprudência.

1MENDES, Armando Dias (Belém, PA 1924 – Brasília 2012), professor, escritor, especialista em Amazônia.

2COCTEAU, Jean (Maurice Eugène Clément), (Maisons-Lafitte 1889 – Milly-la-Forêt 1963), dramaturgo, poeta, pintor, romancista e coreógrafo.

3PIAF, Édith Giovanna Gassion (Paris 1915 – Plascassier 1963), grande cançonetista francesa.

Continua na próxima edição…

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