Manaus, 9 de março de 2026

Zona Franca de Manaus: 60 anos sob a lógica da floresta que sustenta o Brasil

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“Serão seis décadas de um experimento econômico que nasceu sob o signo da soberania nacional e amadureceu sob a pressão permanente de provar sua relevância.”

Nesta mesma semana, o noticiário internacional trouxe um dado que deveria reposicionar o debate. Um estudo publicado em revista de reputação mundial, com base econométrica robusta, estimou em cerca de 20 bilhões de dólares anuais o valor do serviço ambiental prestado pela Amazônia ao garantir chuvas para o agronegócio, para o abastecimento das hidrelétricas e para o consumo humano no Sudeste do país. Não se trata de metáfora ambientalista, mas de cálculo econômico objetivo. A floresta regula ciclos hidrológicos que sustentam cadeias produtivas e segurança energética em escala nacional.

A pergunta, portanto, é inevitável. O que isso tem a ver com o próximo aniversário da Zona Franca de Manaus?

Tem tudo a ver.

A Zona Franca é, desde 1967, o principal instrumento de manutenção da floresta em pé no estado do Amazonas. Ao concentrar atividade industrial em área urbana, gerar emprego formal e arrecadação tributária, o modelo reduziu a pressão por desmatamento extensivo. Enquanto outras regiões da Amazônia Legal registraram expansão acelerada da fronteira agropecuária, o Amazonas manteve cerca de 95% de sua cobertura florestal preservada.

Essa preservação não é um subproduto acidental. 

Ela é resultado direto de uma estratégia econômica que substituiu a lógica predatória pela lógica da agregação de valor. Ao internalizar empregos, renda e tecnologia no espaço urbano de Manaus, a Zona Franca criou um polo industrial que, além de responder por parcela expressiva do PIB regional, atua como barreira econômica contra a conversão da floresta em pasto.

Quando o mundo estima em 20 bilhões de dólares anuais o valor das chuvas que a Amazônia fornece ao agronegócio e ao sistema energético do Sudeste, está precificando um ativo que o modelo da Zona Franca ajuda a proteger. O Centro-Oeste planta e exporta grãos em escala global porque há um sistema climático funcional. As hidrelétricas operam porque há regularidade de regime hídrico. As grandes metrópoles do Sudeste consomem água e energia porque a floresta mantém a circulação atmosférica que redistribui umidade.

A Zona Franca, ao preservar a floresta no maior estado da federação, contribui silenciosamente para essa engrenagem.

Durante décadas, o debate público reduziu o modelo à contabilidade fiscal. Fala-se em renúncia, em incentivos, em custo tributário. Pouco se fala em contrapartida ambiental sistêmica. Se a floresta presta um serviço anual estimado em 20 bilhões de dólares, qual é o valor econômico de um arranjo institucional que ajuda a mantê-la íntegra?

A SUFRAMA, ao longo desses 60 anos, administra não apenas um regime de incentivos, mas um pacto federativo implícito.

A indústria instalada em Manaus paga tributos, investe em pesquisa e desenvolvimento, financia inovação, sustenta universidades, movimenta cadeias logísticas e gera dezenas de milhares de empregos formais. Em paralelo, sustenta uma das maiores áreas contínuas de floresta preservada do planeta.

O aniversário de 60 anos não será apenas um marco histórico. Será um insistente convite à atualização do debate. Se o mundo discute mercados de carbono, serviços ecossistêmicos e precificação da natureza, o Brasil precisa reconhecer que possui, na Zona Franca de Manaus, um modelo que articula indústria, soberania e preservação em escala real.

Infraestrutura econômica que sustenta um ativo climático estratégico para toda a nação

O estudo não fala diretamente da Zona Franca. Mas, ao quantificar o valor da floresta para o restante do país, apenas ilumina o que durante muito tempo foi tratado como externalidade invisível. O modelo industrial de Manaus não é um privilégio regional. É uma infraestrutura econômica que sustenta um ativo climático estratégico para toda a nação.

Ao caminhar para os 60 anos, a pergunta que se impõe não é se a Zona Franca deve existir. A pergunta correta é como aprimorá-la para que continue sendo vetor de desenvolvimento tecnológico, adensamento produtivo e inovação, enquanto preserva o ativo ambiental que garante chuva, energia e estabilidade econômica ao Brasil.

Se a Amazônia vale 20 bilhões de dólares por ano em serviços climáticos, o modelo que ajuda a mantê-la em pé não é um custo. É um investimento estratégico extremamente bem sucedido.

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