Manaus, 7 de janeiro de 2026

Visão computacional nas linhas de montagem: casos de sucesso no PIM

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*Osvaldo Silva

Confesso que a primeira vez que vi uma câmera identificando defeitos microscópicos em placas eletrônicas fiquei genuinamente impressionado. Não era ficção científica, era uma linha de montagem comum em uma fábrica do Polo Industrial de Manaus. A máquina detectava falhas que olhos humanos treinados jamais perceberiam, e fazia isso milhares de vezes por minuto, sem cansar, sem piscar, sem errar. Foi naquele momento que entendi: a visão computacional não é apenas uma tecnologia promissora, é uma revolução silenciosa que já está acontecendo nas fábricas amazonenses.

O que me fascina nessa tecnologia é sua simplicidade conceitual aliada a uma complexidade técnica extraordinária. Basicamente, ensinamos máquinas a enxergar. Câmeras de alta resolução capturam imagens de produtos em movimento, algoritmos de inteligência artificial analisam cada pixel em frações de segundo, e decisões são tomadas automaticamente: aprovado ou rejeitado, dentro do padrão ou fora dele. Parece simples quando explicado assim, mas os resultados práticos são impressionantes. Sistemas bem implementados conseguem identificar defeitos com precisão superior a 95%, algo que a inspeção humana tradicional jamais alcançaria de forma consistente.

O contexto brasileiro atual é particularmente favorável para essa discussão. Em 2024, a adoção de inteligência artificial pela indústria brasileira deu um salto expressivo, com 41,9% das empresas do setor utilizando algum tipo de solução baseada em IA, contra apenas 16,9% em 2022. Esse crescimento de mais de 160% em dois anos demonstra que os industriais brasileiros estão acordando para a transformação digital. E o Polo Industrial de Manaus, por sua vocação natural para a indústria eletroeletrônica, encontra-se numa posição privilegiada para liderar essa mudança.

Quando penso nos casos de sucesso que tenho acompanhado, alguns números me chamam particularmente a atenção. Empresas que implementaram sistemas de visão computacional em suas linhas de montagem relatam redução de até 30% no tempo de inspeção e diminuição de 25% na taxa de retrabalho. Mais impressionante ainda: a queda de 40% nas reclamações de clientes demonstra que a qualidade percebida pelo consumidor final também melhora significativamente. Não são promessas de vendedores de tecnologia, são resultados reais de fábricas que ousaram investir na modernização.

A Nova Indústria Brasil, política industrial lançada pelo governo federal, estabeleceu como meta digitalizar 90% das indústrias brasileiras até 2033. É uma meta ambiciosa, certamente, mas necessária. O programa Brasil Mais Produtivo destinou R$ 2 bilhões especificamente para a transformação digital de micro, pequenas e médias indústrias. São recursos disponíveis para empresas que desejam dar esse salto tecnológico. A pergunta que fica é: quantas fábricas do PIM estão aproveitando essa oportunidade?

O que me preocupa, porém, é a velocidade dessa adoção. Enquanto países asiáticos investem bilhões em visão computacional e outras tecnologias de Indústria 4.0, o Brasil ainda engatinha. A infraestrutura tecnológica de muitas fábricas permanece defasada, a conectividade é instável em diversas plantas industriais, e há uma carência significativa de profissionais capacitados para operar e manter esses sistemas. Não basta comprar equipamentos sofisticados se não houver pessoas preparadas para extrair deles todo o potencial.

Acredito firmemente que o Polo Industrial de Manaus possui todas as condições para se tornar referência nacional em manufatura inteligente. Temos uma base industrial consolidada, especialmente no setor eletroeletrônico, que é justamente onde a visão computacional demonstra seus melhores resultados. Temos acesso a incentivos fiscais que podem viabilizar investimentos em tecnologia. Temos universidades e institutos de pesquisa que podem formar os profissionais necessários. O que nos falta, talvez, seja a urgência coletiva para agir.

A visão computacional nas linhas de montagem não é apenas sobre detectar defeitos. É sobre construir uma indústria mais eficiente, mais sustentável e mais competitiva. Cada produto defeituoso que deixa de ser fabricado representa economia de matéria-prima, energia e tempo. Cada linha de montagem otimizada significa trabalhadores liberados de tarefas repetitivas e desgastantes, podendo ser realocados para funções mais criativas e estratégicas. É uma transformação que beneficia empresas, trabalhadores e consumidores.

Olhando para o futuro próximo, sou otimista. Os casos de sucesso no PIM demonstram que a tecnologia funciona e que os resultados compensam o investimento. Cabe agora aos gestores industriais, às instituições de fomento e ao poder público trabalharem juntos para acelerar essa transformação. A visão computacional já provou seu valor. Os olhos artificiais estão prontos para enxergar mais longe. A pergunta que resta é: estamos prontos para deixá-los guiar nossa indústria rumo ao futuro?

Referências

AGÊNCIA BRASIL. Começa em Brasília festival sobre inovação e tecnologia na indústria. Brasília, 07 out. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-10/comeca-em-brasilia-festival-sobre-inovacao-e-tecnologia-na-industria

MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS. NIB completa 1 ano com R$ 3,4 trilhões de investimentos e crescimento industrial. Brasília, 12 fev. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/nib-completa-1-ano-com-r-3-4-trilhoes-de-investimentos-e-crescimento-industrial

MINISTÉRIO DA FAZENDA. Nova Indústria Brasil. Brasília, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/transformacao-ecologica/programas-em-destaque/nova-industria-brasil

*Osvaldo Relder Araújo da Silva atua como Designer UI/UX e Analista de Sistemas há mais de 15 anos. Sua expertise abrange Design, Comunicação e Multimídia, bem como o Desenvolvimento de Software de Alto Desempenho.

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