Manaus, 7 de janeiro de 2026

Estrada Manaus – Itacoatiara

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*José Lins

“Estrada Manaus Itacoatiara”, obra de José Lins, é aqui republicada em série com a devida autorização gratuita do Governo do Estado do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, Departamento de Gestão de Bibliotecas (DGB) e seu Centro de Documentação e Memória da Amazônia (CDMAM). A republicação tem fins exclusivamente históricos e culturais.

EDITADO PELO GOVÊRNO DO ESTADO DO AMAZONAS

Secretaria de Imprensa e Divulgação

Palácio Rio Negro

Continuação…

De 1953 1956

II

“Quando solicitamos, semanas atrás, a atenção dos podêres públicos para a necessidade de ser planejada e construída uma estrada de rodagem, ligando Manaus e Itacoatiara, apenas tivemos em mente alertar nossos homens de govêrno, incitando-os à execução de uma obro de notável utilidade e capital importância para o presente e para o futuro do Estado. Não lançamos, pròpriamente, uma idéia nova, como pareceu a vários e autorizados comentadores de publicação, que o “Jornal do Comércio”, generosamente agasalhou em sua primeira página. A construção dessa rodovia tem sido objeto de cogitação de muitos e já mereceu a atenção de administradores pretéritos, que chegaram a iniciar estudos sôbre o seu traçado, embora tivéssemos abandonado, posteriormente, a idéia de sua execução.

O que desejamos e o que realmente fizemos, foi provocar um movimento de opinião pública, objetivando compelir a administração a colocar aquela rodovia no plano de suas preocupações imediatas, porque a consideramos um empreendimento intransferível, se pretendermos, realmente, assegurar uma base física permanente e indestrutível à precária e vacilante economia amazonense.

A repercussão que logrou alcançar no seio da população, de um modo geral e, em particular, nos círculos mais responsáveis do florescente município de Itacoatiara, foi das mais animadoras, assegurando a continuação do movimento lançado, que só deve parar, quando as turmas de execução da projetada artéria, partindo da sede daquele município e da capital amazonense, tomarem contacto no coração da floresta, assegurando o conclusão e o êxito dêsse grande empreendimento.

Um clube foi fundado, na vizinha Serpa, para manter acesa e viva a chama da luta e do entusiasmo pela realização da grande emprêsa. Vozes merecedoras do maior conceito manifestaram, em entrevistas concedidas ao decano da imprensa amazonense, apôio e aplausos à campanha pela construção da estrada, cujo sentido econômico colocaram em marcante evidência. Isto, porém, não é tudo. Não alimenta a convicção de que a administração reagirá satisfatòriamente ao impacto da sugestão feita, com o só propósito de fortalecer e consolidar a economia do Estado.

Faz-se mister não deixar arrefecer êsse primeiro e vitorioso impulso. Do contrário, a estrada Manaus-Itacoatiara ficará para as calendas gregas e permanecerá o Estado, ainda por alguns decênios, com suas populações de palafitas acocoradas à beira dos barrancos, no sedentarismo da pesca e na insegurança de meio de vido, sem resistência e sem profundidade, beneficiadas e sacrificadas pela água, que ora os alimenta, ora lhes anula os renovados esforços, no periodismo monótono das enchentes e das vazantes.

É para isso, para evitar que se apaguem os últimos estros de entusiasmo com que foi recebido o movimento prol da imediata construção da rodovia Manaus-Itacoatiara, que aqui estamos, de novo, trazendo o assunto para a vanguarda dos problemas do Estado, tornando-o presente e reclamando para o preferência da ação administrativa.

Não o fazemos, porém, sem aduzir novos e poderosos argumentos a favor do conceito de prioridade que lhe deve ser atribuído.

Pretendemos, agora, colocar em destaque um fato altamente significativo para os interêsses amazonenses e que se relaciona, de perto, com os resultados que a discutida rodovia poderá proporcionar, de imediato, à economia do Amazonas, tanto pública como particular. Está no conhecimento de muitos e foi objeto de reveladora exposição do dr. Mário Barroso Ramos, conterrâneo ilustre, hoje capitão de indústria em São Paulo e latifundiário em Mato Grosso, afirmando que o atual govêrno dessa unidade já vendeu acima de 300 milhões de cruzeiros de terras do Estado, pouco restando do solo mato-grossense como terra devoluta. As compras de gleba já alcançaram, ali, as vertentes do rio Aripuanã. Verdadeira corrida cm busca de solos férteis, poro a cultura do café, da seringueira e para estabelecimentos pecuários. Capitalistas e pioneiros de São Paolo, de Minas e do Paraná disputam o solo daquele Estado para fundações agro-pecuárias, denunciando expressivo transbordamento de recursos, provocado pela alta do café e como corolário de uma nova e impetuoso marcha sertanista rumo ao norte do país pelos caminhos do centro-oeste. Há verdadeira fome de terras agricultáveis, porque empobreceram e se esgotaram as glebas de uso centenário daqueles Estados. Todavia, o argumento central dessa epopéia de novo bandeirismo é a construção da rodovia chamada Transbrasiliana, que avança, de há poucos anos, rumo a Porto Velho. É a certeza de que, dentro de um quinquênio ou pouco mais, um vasto sistema rodoviário, com variantes, partindo da estrada-eixo, tornará aquelas áreas acessíveis ao empreendimento humano.

Enquanto isto ocorre no grande Estado confinante do Amazonas, o solo amazonense permanece distante da cobiça dos empreendimentos daqueles brasileiros, porque as nossas terras ou se constituem das aluviões marginais, incapazes de receber e sustentar uma população permanente, ou de terras firmes sem outro acesso além do que se obtém por via fluvial, através de longos dias de viagem, com pouco rendimento, dispendioso custo e complicados processos burocráticos e fiscais. Outro exemplo frisante do papel mobilizador e civilizador da rodovia, em função, também, da ligação entre as áreas de produção e os centros de distribuição e de consumo, que seria o coso da Manaus-ltacoatiara, ectá na preferência que vem de ser dada pela Good-Year do Brasil às terras marginais da estrada de ferro de Bragança, poro localizar os suas plantações de seringueiros. Preferem os técnicos da grande fábrica de pneumáticos merco por meio de adubos, as terras pobres da zona bragantina, servidas de meios de transporte terrestre, a procurarem sertão bravio e inacessível, as zonas férteis, embora eleitos como melhor solo para heveicultura.

Neste momento, outras emprêsas de alto porte movimentam-se para iniciar a grande heveicultura do Brasil. Todavia, nenhuma delas tem as vistas voltadas para o Amazonas, porque só lhes oferecemos a selva, desconhecida e sem meios de comunicação eficiente, porque sòmente acessíveis por via fluvial.

Tivéssemos concluída ou iniciada a rodovia Manaus-Itacoatiara, garantindo fácil supervisão dos empreendimentos agrícolas a se realizarem e assegurando dois portos de acesso e de vazão do que fôsse produzido, e, não temos menor dúvida, a plantação de seringueiras, que é urna providência intransferível para aquelas companhias, seria feita em solo amazonense, nas terras marginais e férteis dessa extensa rota.

Há que se levar a administração amazonense a enfrentar com urgência e decisão o problema da construção dessa rodovia. Com o objetivo de manter presente a necessidade dêsse empreendimento, todos os esforços devem ser mobilizados e congregados. A imprensa, por seus órgãos da capital amazonense, as difusoras que obedecem à estimulante orientação de Josué Cláudio de Souza e Epaminondas Barahúna, precisam constituir-se em defensores dêsse movimento, ao qual os parlamentares da Assembléia estadual e dos Câmaras Municipais de Manaus e Itacoatiara devem associar as suas vozes, num pleito animoso e incitante pela construção da rodovia mois necessária à vida e à economia do Estado.

De nossa parte, aqui estaremos, em outros e novas oportunidades, sempre dispostos a manter viva e ardente a flama dessa campanha que, como dissemos, só deve encerrar-se no dia inaugural da rodovia que reabilitará o Estado”.

Continua na próxima edição…

*O Professor Doutor José dos Santos Lins foi um importante educador e escritor amazonense, reconhecido por sua contribuição fundamental para o ensino e a literatura do Amazonas, especialmente na segunda metade do século XX.
Sua atuação se deu primariamente na docência, tendo sido consistentemente referido como Professor Doutor, indicando uma formação acadêmica de alto nível.
Sua obra mais notável é a “Seleta Literária do Amazonas”, publicada em 1966. Este livro se tornou um material didático essencial, servindo como uma importante compilação de textos para garantir que as novas gerações tivessem acesso e compreensão da história e da literatura regional do Amazonas.

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