Continuação…
Meu presente
O jornal me pergunta que presente daria à Manaus no dia do seu aniversário. Eu daria um projeto de despoluição dos mais de 150 rios que banham a cidade. Eles nascem no meio da floresta ou em cabeceiras situadas na sua área urbana, visto a cidade ter continuado a crescer para dentro da floresta e vão fluindo até desembocar nos rios maiores, o Negro e o Tarumã. Chamamos esses cursos d’água de igarapés, mas, em verdade eles são rios mesmo. Os igarapés são mais estreitos e geralmente fazem a ligação de um lago aos cursos de água, por isso chamados caminhos de canoa. No pequeno vocabulário intitulado Nheengatu Rupi, o etnólogo Dom Frederico Costa registra as duas palavras que lhe compõem o nome: igara = canoa e pé = caminho.
O certo é que esses cursos de água deixaram de ser caminhos, pela poluição e pelas contingências do seu destino. Eles enchem e secam de acordo com o regime das águas na Amazônia, de seis em seis meses. Ficam navegáveis nos tempos de cheia e fechados durante a seca. O engenheiro Nelson Neto alimentava a ideia de manter a conservação dos rios de Manaus sempre navegáveis, por meio de um processo de eclusas. Eles funcionariam como forma de transporte de lazer, passeios turísticos em barcos especializados, ou como vias de transporte urbano, também realizado por meio de embarcações adaptadas a esses serviços, como se fossem bondes ou ônibus flutuantes. Os táxis funcionariam em lanchas menores.
O rio Tâmisa de Londres era considerado no século XIX o rio do fedor. O parlamento inglês que fica às suas margens, em determinado momento teve de suspender as suas sessões por não suportarem os parlamentares o mau cheiro do rio. Eram águas mortas e podres, sem chance de vida animal. A partir de uma decisão definitiva e um plano permanente, o rio foi sendo despoluído, numa obra que atinge hoje 120 anos, eliminando o cheiro mal e fazendo suas águas abrigarem 121 espécies de peixes, num sinal de rio bom.
Os rios de Manaus não chegaram ainda a esse ponto, emboru nāt sejam lá muito cheirosos. A gente ainda vê em suas margens garças socós pescando. Em um desses rios que banha o bairro da Ponta Negra, vivem famílias de jacarés. Aqui a natureza é forte, mas necessita da ajuda do homem. Pesquisas realizadas no Inpa comprovam que um aguapé chamado mureru é o melhor elemento de despoluição das águas. O mureru prolifera nos rios de Manaus e ajuda, sem dúvida, a livrá-los da poluição crônica. Mas é preciso ajudar a natureza. Os rios de Manaus ainda não morreram, contudo precisam das nossas mãos para ficarem mais dignos da notoriedade conquistada pela paisagem amazônica.
Sinceramente, que se eu pudesse, seria esse o meu presente no aniversário de Manaus.
Continua na próxima edição…
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