Em busca de lições que só o passado consegue fornecer, enveredo pelas notícias da boa imprensa nos primeiros dias do ano de 1926, que foi inaugurado com a posse do governador Ephigênio Ferreira de Salles, eleito após acordo político que envolveu todos os caciques e chefes de partidos e em razão da divisão dos cargos eletivos distribuídos harmonicamente com cada grupo, além do acerto quanto à sua sucessão, o qual foi cumprido quatro anos depois, sem qualquer dificuldade nem desvios, com a eleição de Dorval Porto.
Eram ainda nove horas de 1.º de janeiro quando o carro oficial apontou na rua do palácio da Assembleia, conduzindo o novo governador e dois auxiliares, escoltado por um piquete de lanceiros. Recebido à porta por comissão de deputados, levado ao plenário, saudado pelos líderes partidários, feito o juramento e o discurso de posse, todos se dirigiram ao Palácio Rio Negro para a transmissão do cargo. No palácio, o discurso de Alfredo Sá foi enfático sobre a moralidade pública, as mudanças que empreendeu na administração e na política, seguindo-se o de Ephigênio que realçou o compromisso de manter a mesma rota, amparar e valorizar a borracha, fomentar a pecuária, as indústrias, abrir estradas de rodagem, implantar telégrafos e ser “inflexível e severo na aplicação das rendas públicas”.
Anunciou uma administração liberal e pacífica e que sua equipe seria formada por homens de “valor moral”, conclamando o povo a perfilar-se a esses propósitos, e logo comprovou a declaração dando posse aos auxiliares Manoel Osório de Sá Antunes, Ajuricaba de Menezes, J. F. Araújo Lima, Joaquim Vidal Pessoa, Álvaro Maia e José Victor Sobrinho.
A cidade ainda guardava edificações harmônicas e conservadas, de boa estrutura, praças e ruas bem arborizadas, igarapés limpos, ventilação corrente mesmo em tempo de temperatura elevada pelos meses de agosto e setembro e as águas das chuvas de janeiro, tão comuns e fortes, escorriam livres por entre as pedras portuguesas do calçamento das vias e pelo meio-fio bem construído que preservava as calçadas de pedra de lioz que nos foram legadas pelo apogeu da borracha. Impossível de ser comparada com a visão da atualidade, completamente diversa.
Em meio ao impacto de febres e com varíola e varicela grassando, editorial de jornal chamava a atenção para o fato de que alguns poucos desavisados moradores jogavam lixo nos igarapés, notadamente no de São Vicente, o que provocava moscas, perniciosas à saúde humana, recomendando o breve conserto do forno de incineração do lixo e, enquanto isso, deveriam ser abertas valas para sepultar os detritos e a coleta feita a noite para evitar a decomposição do lixo.
A nota de destaque que escolhi para este artigo, entretanto, dentre tantas dos jornais, como a intensa campanha de vacinação que Samuel Uchoa comandava e os problemas com o envelhecimento e pouca manutenção de navios, como os vapores “Maranguape” e “Baependi”, o que escolhi para assinalar o novo ano foi a providência formal e pública do governador, por ofício de 4 de janeiro, determinando a devolução de dez contos de reis que recebera pelo Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, a título de indenização para seu transporte para Manaus e posse no cargo, “a cujo título não me parece ter direito, mesmo sendo decorrente de lei estadual”, devendo o valor ser estornado aos cofres públicos imediatamente.
Melhor exemplo de probidade administrativa e do cumprimento da palavra empenhada no discurso de posse não poderia haver: iniciava o governo devolvendo verba que lhe era destinada por lei, pela assunção do cargo.
Views: 4



















