
*Meiry Jane Cavalcante Rattes
Continuação…
1.6 A preparação para o campo e a realização da pesquisa empírica
A entrada no espaço da pesquisa aconteceu de forma pacífica e tranquila, sem recusas ou qualquer forma de objeção para o acesso à escola. Havia, por parte da pesquisadora, um certo receio de retornar à escola para investigar, após os quase cinco anos atuando na gestão. Durante esse tempo, a escola já passou por duas gestoras, com as quais foi mantida uma relação cordial e de parceria. De alguma forma, a presença do pesquisador, ainda que em outras situações tenham sido vivenciados vínculos de parceria com os integrantes do espaço da pesquisa, é possível que ocorra algum desconforto, isso porque é perceptível certa apreensão relativa ao olhar do pesquisador.
É relevante mencionar também que esse movimento inicial de entrada no campo da pesquisa, simbolizou um momento carregado de desafios, pois até então toda a realidade da escola, tanto na área pedagógica ou administrativa, era conhecida pela pesquisadora, o funcionamento e sua rotina, porém com o olhar de gestora escolar, que não deveria ser desconsiderado, pois serviu como ponto de partida para chegar à construção do objeto de estudo, mas precisava ser filtrado para não cometer o erro, o qual Bourdieu chama atenção sobre a tentação do profetismo “todo sociólogo deve combater em si próprio o profeta social que, segundo as exigências de seu público, é obrigado a encarnar” (Bourdieu, 1999, p. 37).
Para o processo de inserção da pesquisadora no espaço escolar, foram utilizadas algumas estratégias como: diálogo com a Coordenadoria, visitas à escola, divulgação da pesquisa para a equipe gestora e professores, com a intenção de estabelecer e manter condições favoráveis para uma boa interação com os integrantes da comunidade escolar, e com isso, evitando a manifestação de resistências entre os sujeitos para que o clima de cooperação com o desenvolvimento da pesquisa seja constante. Nessa relação com o objeto, é importante considerar
É preciso de certo modo, ter-se renunciado à tentação de se servir da ciência, para intervir no objecto, para se estar em estado de operar uma objectivação que não seja simples visão redutora e parcial que se pode ter, no interior do jogo, de outro jogador, mas sim a visão global que se tem de um jogo passível, de ser apreendido como tal porque se saiu dele (Bourdieu, 2022, p. 56).
A submissão do projeto de pesquisa ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) representou primeira medida de cunho ético, além de todos os termos relativos ao consentimento para os participantes, sejam os pais responsáveis (TCLE) e de assentimento direcionados aos estudantes, uma vez que todos os eleitos, são menores dezoito anos (TALE). No período de preparação dos trâmites burocráticos, foram realizadas algumas visitas à escola, a fim de apresentar a proposta de pesquisa para a comunidade escolar, e por meio desse processo de transparência na pesquisa, mantê-los informados sobre as etapas da investigação a serem cumpridas na escola, bem como mostrar-lhes a importância do espírito colaborativo de todos para o bom andamento da pesquisa.
Com a aprovação do CEP30, partimos para cumprimento de todo o protocolo de oficialização da parceria para a realização da pesquisa, que teve início com a visita à Coordenadoria Regional de Educação (CREI), com a finalidade de solicitar a permissão para a realização da pesquisa, bem como informar a respeito do cronograma estabelecido para a realização do Grupo Focal.
1.7 Procedimentos de análise dos dados
Após o cumprimento do cronograma de encontros do grupo focal, o passo seguinte foi buscar as formas condizentes para a análise dos dados, visando o alcance dos objetivos propostos para esta investigação. Dessa forma, optamos pela técnica de análise de conteúdo, que, de acordo com Bardin (1977, p. 48), define a metodologia como “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não)” que permitem a inferência de conhecimentos relacionados às condições de produção e recepção dessas mensagens.
Sobre a estrutura desse caminho de análise, a autora sugere que caminhos devem ser trilhados no trabalho de interpretação dos dados a partir dessa técnica. Define três fases distintas, mas, complementares entre si para a efetivação desse trabalho: a primeira fase, intitulada de pré-análise, se caracteriza pela sistematização do material coletado durante o processo de pesquisa, pois são dados que irão compor o corpus a ser analisado. Assim, esta primeira fase passa pela leitura de todo material selecionado para a análise – em se tratando de análise de entrevistas, ou grupo focal, devem passar pelo processo de transcrição.
Bardin (1977) apresenta quatro caminhos que compõem essa fase: a) Leitura flutuante, que representa o primeiro contato com os documentos da coleta de dados; b) Escolha dos documentos, que consiste na definição do corpus de análise; c) Formulação das hipóteses e objetivos, a partir da leitura inicial dos dados; d) Elaboração de indicadores para a interpretação do material selecionado. Em suas recomendações, a autora aborda a obediência das seguintes regras: Exaustividade, para não deixar fora da pesquisa nenhum de seus elementos; Representatividade, no caso da seleção de muitos dados, indica-se trabalhar com uma amostra; Homogeneidade, os documentos eleitos devem ser homogêneos, segundo critérios claros de escolha; e Pertinência, analisar se a fonte documental é adequada ao objetivo que se propõe o estudo.
A segunda fase relaciona-se com a exploração do material e tem a ver com as operações de codificação, a partir dos recortes dos textos, inseridos nas unidades de registro. São definidas as regras de contagem e classificação, para a constituição das categorias. A efetivação desse processo acontece por meio de um tema, palavra ou frase, pela frequência que leva à categorização. A terceira e última fase da análise de conteúdo, conhecida como tratamento dos resultados, ocorre com o processo de categorização, para classificar os elementos em categorias e aproximar as unidades de contexto pela semântica ou similaridades. As unidades que estão aproximadas são retiradas do texto e organizadas em categorias para receber interpretações reflexivas ou críticas.
Nesse sentido, os relatos, falas e observações dos estudantes no Grupo Focal foram submetidos à análise de conteúdo (Bardin, 1977), primando pela descrição das etapas acima descritas, por meio das quais os temas mais recorrentes nas falas foram classificados em categorias-chave, verificando se estas categorias consistiam em elementos relevantes na relação com o problema de pesquisa. Na sequência, as falas foram agrupadas por categoria, a partir de frases e parágrafos dos relatos feitos.
O tratamento analítico dos dados construídos por meio da pesquisa se deu por inferência, que é um tipo de interpretação controlada. Para Bardin (1977), a inferência poderá amparar-se nas informações que compõem a estrutura clássica da comunicação: a mensagem (signo e identificador) ou/e emissor e receptor. Dessa forma, os dados passaram a ser analisados, a partir da teoria crítica de Bourdieu (2014), com ênfase na luta e nos processos de dominação na dimensão da realidade humana, entendendo que a pesquisa social não tem força sozinha de intervir no campo pesquisado, mas contribui para um olhar menos romântico sobre o que é investigado, além de destacar a ideia de campo como espaço social, onde as disputas e os capitais a serem negociados são regulados pelos agentes dominantes que determinam as regras do jogo entre seus agentes. Nas análises, ainda nos amparamos em Lahire (2004), que se debruça sobre os casos individuais daqueles que sucedem na escola, apesar das condições objetivas de possibilidade, o que para nossa pesquisa é importante, pois mesmo na condição de iletrados, há pais, por exemplo, que podem contribuir de maneira concreta para que os filhos e filhas tenham familiaridade e se aproximem do processo legítimo da cultura.
Com base nas ideias dos autores supracitados, buscou-se caracterizar o objeto em função das relações com as categorias de análise (acesso, permanência e sucesso), indicando as condições materiais para o acesso e permanência dos agentes pesquisados, analisando ainda a condição de “sucesso escolar” por eles definida. As informações colhidas por meio do GF foram classificadas e organizadas na forma de quadro de caracterização dos jovens, sendo utilizados os seus relatos literais para permitir construir os processos de análise e interpretação dos resultados obtidos.
Destaca-se que a análise a partir dos dados coletados no Grupo Focal é central para essa investigação, pois, a partir das experiências vivenciadas pelos agentes da pesquisa, compreendemos o processo de escolarização dos jovens na escola urbana em Itacoatiara, amparados pelo suporte de seus familiares.
Após situar o leitor sobre as informações ligadas ao lugar da pesquisa, instituição pesquisada, bem como os procedimentos metodológicos que norteiam a pesquisa, como das técnicas e dos cuidados a serem tomados para garantir a qualidade dos dados, além de preservar os agentes da pesquisa; no capítulo seguinte serão tratadas as discussões à luz dos teóricos que fundamentam o debate sobre as políticas públicas para o Ensino Médio.
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30 CAAE 69786723.1.0000.5020.
Continua na próxima edição…
* Meiry Jane Cavalcante Rattes é Doutora em Educação pela UFAM, com foco em Educação, Estado e Sociedade na Amazônia, e Mestra em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela UFJF/MG. Pedagoga de formação com especialização em Metodologia do Ensino Superior, possui sólida trajetória na Educação Básica e na gestão escolar, tendo atuado como gestora do Colégio Vital de Mendonça e professora em Itacoatiara, além de integrar o corpo técnico da SEDUC/AM.
Como pesquisadora, integra o Grupo de Pesquisa em Sociologia Política da Educação e é associada à ANPEd, onde participa do GT de Sociologia da Educação. Sua produção intelectual concentra-se em políticas públicas educacionais, juventudes na Amazônia e Ensino Médio, investigando as interseções entre o Estado e a Educação Básica.
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