Manaus, 13 de julho de 2026

É preciso ler para poder e querer ver.

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Os povos originários do litoral não viram as caravelas chegar. Uma cabocla amazonense ao ver o mar de Fortaleza pela primeira vez achou que era um grande rio o qual não se via a outra margem. Uma brasileira em supermercado no Japão estranhou que não havia placas indicando o local dos produtos. As placas eram em japonês.

A pergunta que o “filósofo baré” faz é:

– Só se vê aquilo que se quer? Aquilo que está interiorizado no nosso cognitivo? Para ver ou querer ver é preciso ler.

É certo mesmo que os indígenas não viram as caravelas? É certeza que a amazonense considera rio e mar a mesma coisa? Estaria com razão a brasileira de que não havia orientação para se comprar com rapidez em supermercados japoneses?

Vejamos a cabocla amazonense. Ela vê o mar de Fortaleza não como mar, mas como memória de rios do Amazonas. Nos parece um encontro entre o que a gente conhece e o que a gente quer ver. No supermercado japonês, as placas falam menos. Aliás não falam nada para a brasileira. Era como se não existissem. A mesma provável sensação dos indígenas que receberam os portugueses.

O espanto ante a ausência de informações compreensíveis deve ser a mesma sensação que um analfabeto sente ao entrar num supermercado em seu país. As letras e nada é a mesma coisa. Cada palavra para o analfabeto e cada ideograma para a tal brasileira carregam uma suspensão indefinida. Um respirar que não permite que a memória dialogue com o novo. As placas em japonês não seriam apenas indicação do local do produto. Elas desafiam a pressa, lembrando que aprender uma língua estrangeira leva tempo. A brasileira no Japão percebe que ver pode ser treino e estudo. Cada ideograma é uma vela que acende uma curiosidade. Ver não é apenas abrir os olhos. Pode ser permitir que o intelecto acompanhe o ritmo das coisas não ditas e não lidas. Mas há os que se recusam a ler, a pensar, matutar, refletir. Uns conscientes. Outros nem tanto. Para estes, escritores, filósofos e pensadores não têm serventia.

É preciso coragem, humildade e discernimento para perguntar, acatar e até aceitar o novo, a nova leitura, o novo pensar como consequência. E poder ver o novo ou poder ver e querer ver o diferente. Esse novo indecifrável acontece para os que não querem ler ou quando a sinalização falha ou não existe. Ou quando valores arraigados e preconceitos não os deixam ver.

No fim, talvez seja tudo uma soma. O que se conhece e o que se quer ver se entrelaçam, para nos lembrar que aprender é pedir passagem ao próximo ponto do mapa. O dilema permanece aberto, não como uma pergunta que precisa de resposta única. Ver ou ler algo novo é, portanto, um exercício contínuo de humildade. É reconhecer que o mundo não cabe por inteiro na nossa cartografia mental e que cada leitura é uma oportunidade de ampliar horizontes.

Para isso é preciso ler. 25 de julho se comemora o dia nacional do escritor. Celebremos.

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