Manaus, 21 de setembro de 2026

Um poema épico nas letras amazonenses

Livros de Newton Sabbá Guimarães sobre a mesa de uma biblioteca
Livros sobre a mesa

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Newton Sabbá Guimarães
* Newton Sabbá Guimarães

“Este livro poderá parecer hoje uma novidade, por isso mesmo que é antigo. Eu próprio, quando agora o reli, cuidei penetrar num mundo desconhecido, não porque jamais existisse, mas porque os sentimentos e as ideias, as correntes de opinião pública que então predominavam, deixaram de existir ou grandemente se modificaram….”

Alberto Pimentel in A Porta do Paraíso (Chronica do reinado de D. Pedro V). 1900.

As andanças poéticas de um velho professor

Recebo de Manaus o livro São Nuno de Santa Maria1, uma epopeia do santo português e uma das maiores figuras históricas de Portugal, e este santo e guerreiro acaba de ser louvado e exaltado por um poeta nosso, da nossa terra, amigo de longa data. É tanto um poema de veneração pelas coisas portuguesas, como um voto feito em momento de profunda simpatia e carinho pela terra portuguesa que é, também, pela língua, pela literatura, pelas tradições um pouco a nossa. Acontece que o poeta, como escrevi, é um velho amigo meu, por quem sinto carinho de irmão que a vida me houvesse dado e não os laços familiares e de sangue. E Francisco tem muita coisa a contar e a relembrar pela sua longa e generosa existência, pelos seus muitos anos bem vividos, com honradez e probidade e, sobretudo, bondade.

E como palavra puxa palavra, o longo poema de Abreu Cavalcante evoca em mim fatos conhecidos e aqui evocados enquanto escrevo algumas linhas sobre o livro e seu autor. E velhas leituras como a das bem escritas obras de Alberto Pimentel, o amigo devotado, o discípulo amado, o biógrafo dedicado do maior romancista português do século XIX, Camilo Castelo Branco, visconde de Correia Botelho, plasmador de romances que nos tocam a alma e enriquecem a literatura da sua pátria, O santo da montanha e outros. Parece que as palavras de Pimentel, com bem mais de um século de impressas, se dirigem a nós neste já bem entrado século tão cruel, quando o mundo se debate em guerras desarrazoadas e o nosso próprio e desgraçado País se debate com o mais cruel tipo de ditadura, aquela que não tem mais a quem apelar, ante a cobardia do povo bestializado e emasculado, as almas acovardadas e silenciadas pelo pavor ou pela grassante corrupção que a tudo devasta e estabelece a cleptocracia mais desavergonhada que jamais existiu na América Latina. E é neste contexto que traço o paralelo dos dias vividos por um guerreiro e santo que guerreava pela sua terra, mas não esquecia que era homem e precisava da proteção divina, como o poeta, com muita propriedade cantou piedosa e fervorosamente, o que sonhava Dom Nuno era bem outro destino: o de entregar-se a Deus e viver humildemente entre os monges e a gente humilde:

CCLXIII

Para viver no convento como por ele desejado
Nuno desfez-se de todos os seus bens
Ficou sem nada material e de coração alçado
A pisar no chão e entregar-se às nuvens
Vivendo como sempre desejou no passado
Mas não em suas fantasias jovens.

Pois bem, é de Pimentel em um de seus mais aplaudidos romances que retiro pequena epígrafe que me abre caminhos para escrever do poema religioso e elevado de Abreu Cavalcante. Este, por sua vez, cimenta a sua trajetória de poeta e de mestre de gerações com a glorificação da vida de um santo, um homem escolhido que vivia entre a espada para defender o Rei e a Pátria e a busca da santidade, tornando-se com o perpassar dos séculos, mais um santo da Cristandade. E há um ponto surpreendente nesta estória, a que trago ao leitor, destes caminhos cruzados: Portugal, que o poeta e eu tanto amamos; o santo guerreiro que lhe fornece material para uma epopeia. D. Nuno Álvares Pereira, depois conhecido como D. Nuno de Santa Maria, beatificado em 23 de janeiro de 1918 pelo papa Bento XV e, curiosamente, santificado por um outro Bento, o XVI, em 21 de fevereiro de 2009. É uma das figuras históricas mais importantes do velho Portugal, chamado pelos historiadores ora o Santo Condestável, ou o santo vencedor de Aljubarrota, uma figura que comove pela sua grande pureza, lealdade ao Rei e aos seus princípios, um amor sem desfalecimentos pela sua terra e a sua gente, como escreve com seriedade e admiração Oliveira Martins, historiador probo, mas algumas vezes duro e irônico em certos retratos de personagens históricas do sua pátria, na por todos motivos excelente biografia A Vida de Nun’Alvares.2 Eu lera, fazia muitos anos, a obra do historiador e político contemporâneo de Eça e de uma geração inquieta que deixaria marcas de suas atividades literárias e lera as citações e referências sempre enaltecedoras em Os Lusíadas sobre o santo e, em páginas da História de Portugal, relatos de suas proezas militares. E, agora a leitura das proezas do santo pelo meu estimado colega e amigo de mocidade, em uma outra versão: a poesia de uma vida memorável, que toca mais à nossa sensibilidade espiritual do que à nossa por vezes vaidosa busca de erudição. E se nas minhas leituras anteriores admirei o guerreiro, o homem de ação, aquele que não baixava a cabeça aos obstáculos, tudo fazendo, o possível e o impossível, pela liberdade e engrandecimento de sua pátria, o homem e amigo fiel do rei e da monarquia, agora, pelas mãos de Francisco de Abreu Cavalcante, conheço o santo cristão. E novamente uma pequena estranheza: não sou cristão e escrevo com simpatia e emoção de um santo cristão, como um dia fez, em momentos cruentos das perseguições nazistas contra os Judeus, um dos grandes vultos da literatura judaica europeia de língua alemã: Franz Werfel, com o seu comovente A Canção de Bernadete3. É esta, repito, uma estória de dor e esperança ao mesmo tempo de confiança nos desígnios divinos. O poeta é profundamente religioso e demonstra-o sempre, pelo que lhe louvo e admiro a religiosidade, hoje em dia tão fragilidade, nem sempre verdadeira. A leitura do poema de CCCVII estrofes de métrica irregular e rima pobre e um epílogo, é o resultado de uma velha relação de amizade e devoção do poeta e o seu santo escolhido. E bem escolhido. Acompanho, destarte, o voto de um amigo quem, indo com a família a Portugal, deu início a uma demorada peregrinação, buscando os sítios, os monumentos, as igrejas centenárias, pelos quais o santo passara e onde encontraria a “presença” espiritual de Nun’Álvares: que esteve inclusive na igreja de Vila Nova da Rainha, no concelho de Azambuja, onde o futuro santo casara com dona Leonor de Alvim, muito rica, viúva sem filhos e quatro anos mais velha do que ele e assim vai desenrolando aspectos da vida e feitos de Dom Nuno. Enquanto o leio, preparo-me para escrever acerca da peregrinação de Francisco. Faço-o comovido, sem omitir uma observação, como há quase um século, um extraordinário escritor, um humanista, um homem bom que acreditava no homem, confessava nas primeiras linhas de um livro que se tornaria um best-seller e, mais tarde, tornar-se-ia um clássico da leitura devocional e que muito o engrandecia, porquanto ele, o humanista extraordinário de Die vierzig Tage des Musa Dagh, que não calou as atrocidades turcas contra um povo desarmado e frágil, os armênios, tinha, também, a nobreza moral de confessar que escrevera um livro de piedade cristã, lembrando ao seu leitor que esse livro era um voto cumprido, por alguém que não era católico.

Com o seu casamento e com a alta nobreza que era também a sua, estava garantido o futuro do futuro grande guerreiro e herói da unidade lusitana. Com apenas 28 anos, ficaria viúvo e não mais voltaria a casar. Teve dois filhos e uma filha, Beatriz, que chegaria à idade adulta. Como outras vidas daquele distante período medieval, a de Nun’Álvares foi das mais agitadas e parece que não desvestiu a cota de malhas senão poucas vezes nos seus 71 anos de vida, pois mesmo doente, perto de fechar os olhos, ele ainda queria partir para a guerra para defender a sua pátria, em Ceuta, pouco lhe importando estivesse velho e alquebrado de saúde. Pelo menos é o que contam as hagiografias. Jamais fugiu aos perigos das batalhas, nem deu as costas aos inimigos: enfrentava-os a peito aberto. Contudo

“a guerra não era para ele uma paixão, nem o combate uma embriaguez, nem a glória um fim. A guerra era apenas o meio de chegar ao destino da redenção do Reino; e glória só a via sedutora nas revelações do Céu para onde a sua alma piedosa batia em permanência as asas”4,

Escreve, com admiração, Oliveira Martins. E, em elogio do guerreiro, acrescenta que ele não permitia que os seus guerreiros saqueassem as aldeias dos vencidos, nem lhes queimassem as casas e roubassem o gado. Jamais permitia que crianças, mulheres e os miseráveis acolhidos sob sua proteção fossem maltratados e humilhados, o que era raríssimo naqueles dias de extrema violência e dureza de trato, em que prisioneiros eram sempre vistos como inimigos e devolvia-os aos seus lugares de morada “quando o ciclone da guerra, tremendo, tinha passado”5, acrescenta o mesmo biógrafo. Era como se houvesse estabelecido o tratamento humanitário dos vencidos e derrotados, coisa que até hoje é pouco seguida em casos de guerras em todos os continentes e isto muito antes de se falar em “guerra humanitária”.

Eis em linhas gerais a trajetória de um grande homem que não escondia a santidade do seu caráter e a nobreza de seu coração. Assim era Dom Nun’Álvares Pereira ou São Nuno de Santa Maria, de quem o poeta amazonense parece ser devoto.

Agora, algumas palavras sobre o poeta, meu conhecido e amigo de mais de meio século, bem mais. Porque o livro de Francisco evoca em mim as lembranças de um passado distante. É a força extraordinária da memória que escavaca nos anos e eu vejo novamente alguns amigos muito caros quando nenhum de nós havia ainda sofrido o que depois a vida castiga, quase sempre. Nem todos estão ainda aqui. Muitos partiram cedo, outros nem sequer quiseram esperar algum tempo neste mundo de dores e surpresas: tinham pressa de partir. E este escavar no passado, faz-me lembrar umas palavras muito bonitas de Dame Daphne du Maurier, ilustre escritora britânica que se tornou conhecidíssima com um romance de intriga e lembranças de um passado que ela traz até ao leitor e lho entrega, generosamente. O romance é Rebecca6, no qual há intrigas e maldades escondidas e, sobretudo, a lembrança do passado em cada personagem. Logo no segundo capítulo, Dame Daphne indica ao leitor que a trama novelesca será movimentada por rememorações, ainda que o narrador, peremptório e fatalista, inicie a narrativa escrevendo que jamais podemos voltar ao passado7. É aí que pedimos nos acuda a memória, esta que quase sempre nos castiga, mas também nos faz recuar até dias distantes e traz-nos lembranças agradáveis, faz-nos pensar em momentos bons, em pessoas que nos foram tão caras com as quais faz muito já não podemos vê-las nem falar-lhes.

E amparado por uma boa ficcionista, como é du Maurier, lembro reencontros.

Lembranças do passado. Um reencontro com o poeta

Relembro Francisco lá dos primeiros anos da década de 1960. Formávamos pequeno, mas constante grupo: Wladimir Pontes da Silva, o mais velho dentre nós, Francisco e eu, o mais moço. Morava na Cachoeirinha e ali Francisco, vinha algumas com Wladimir a palestrar. Era recebido com carinho. Algumas vezes, durante o shabbat, assistia e participava das “nossas coisas”, como Wladimir, o mais falante do grupo, dizia. Nossas conversas eram quase sempre sobre livros, poesia, escritores… E os três sonhávamos com um futuro venturoso, como, aliás, todos parecem sonhar. Curiosamente, apesar de nossa idade, não demonstrávamos muito interesse pela política. Acho que ela, em nosso País, já se mostrava como lixo moral que é atualmente… Wladimir possuía uma carpintaria e, diziam, era bom carpinteiro. Francisco trabalhava com ele e davam-se muito bem. Eu trabalhava em uma empresa britânica que mais tarde fechou ou mudou-se para o Canadá, a Booth Line (Brazil) Steamship. E quando nos encontrávamos, cada um de nós trocava as suas experiências. Eu gostava de pescarias e caçadas, nas que acompanhava meu Pai, enquanto os dois outros amavam as festas e os bailes. Para mal dos meus pecados, nunca soube dançar. Wladimir era casado e sinceramente não sei como fazia para não melindrar a esposa, um tanto festeiro como parecia ser… Nós dois éramos solteiros. Chico, sempre com planos mirabolantes, queria estudar japonês e tinha boa amizade com uma família japonesa que nos acolhia com simpatia. Eu, o mais tímido do pequeno grupo, estava indeciso entre ser diplomata ou militar. Sempre de olho mui aberto para as “minas”, como dizíamos então, especialmente se eram loiras e tinham olhos claros… Fazíamos algumas vezes as nossas tão alegres e desafinadas serenatas e – imagine só o pobre leitor a situação! -, os três cantávamos. Ou acreditávamos que cantávamos… Saíamos dali para longas conversações, muitas vezes até alta madrugada. Naqueles dias a nossa cidade era pacífica e podíamos vagabundar pelas ruas até tarde da noite sem qualquer perigo. Quando o estudante Delmo Campelo Pereira, em noite de farra assassinou um pobre motorista e foi por sua vez assassinado brutalmente pelos motoristas em trágica revanche pelo colega assassinado, foi um Deus nos acuda. Foi o assunto único por dias e dias na cidade. Mas isto era raro. Vivíamos em paz e tranquilidade, muitas vezes a dormir com as portas encostadas, sem chaveá-las. Manaus era uma grande e aprazível aldeia, onde quase nada acontecia. Era nesse paraíso perdido que os três constantes amigos viviam. E sonhavam…

Mais tarde a vida separou-nos: Francisco despediu-se da marcenaria e foi trabalhar em São Paulo; Wladimir continuou a labutar na sua marcenaria e eu fui para o estrangeiro. Cada um de nós seguiu o seu destino e somente muito mais tarde nos reencontramos. Cada um havia seguido o seu destino, como se dizia. Wladimir teve insucessos nos negócios, a saúde decaiu muito e foi o primeiro a partir. Era um homem bom e é com saudades que o relembro no momento em que escrevo estas linhas: a sua expansividade, os seus planos comerciais mirabolantes, a sua generosidade, a sua bondade, as suas muitas quedas e uma saúde delicada que cedo o traiu, tudo fazia do loquaz Wladimir um companheiro um bom companheiro e, por isto mesmo, inesquecível; Francisco também planejava muito, experimentou várias profissões e, concluindo a licenciatura em Letras, optou pelo ensino secundário, como professor de Inglês e Português, quando foi viver o ciceroniano otium cum dignitate que a aposentadoria lhe permitiu, cercado de seus filhos e envelhecendo ao lado de sua boníssima companheira de toda uma vida. Eu, que vivi sempre longe, da terra, dos amigos, – e o pior, de mim mesmo! – sem contudo nada nem a ninguém esquecer, em um desses retornos, reencontrei Francisco, já agora autor de livros e cimentando a sua glória de poeta. Nesse longo hiato de tempo, Francisco dedicara-se aos livros e às Letras e cultivava amorosamente a Poesia. Era o mesmo sujeito bom, alegre, causeur encantador. Casara, e tinha em Clarice, a suave e maravilhosa companheira de um vida toda, e filhos que se parecem com o querido Chico pela finura de trato, a simpatia e a maneira calorosa de receber os amigos de seus pais, o que até certo ponto me espanta: eu venho deste Sul laborioso e apressado, da laboriosidade um pouco seca da velha Europa, na qual a polidez supre o afeto e sinto-me, outra vez, o menino da Cachoeirinha, perto da igreja do Pobre Diabo que – como gosto de lembrar – em bairro distante e possivelmente a única dedicada àquele que tentou desafiar a Deus, quando escrevo e rememoro dias passados e a figura de Francisco de Abreu Cavalcante e escrevo do seu belo e tocante livro.

E agora tenho em o seu mais recente livro São Nuno de Santa Maria que leio, encantado, e sobre o qual medito para saudá-lo daqui, desta bela e fria Santa Catarina nestas páginas. Diria que esta é uma das poucas epopeias já surgidas na literatura da nossa terra. Pessoalmente não conheço nenhuma outra. Max Carphentier, possivelmente um dos maiores poetas do Amazonas, escreveu, faz quase meio século, um vasto poema, com o belo e raras vezes igualado O sermão da selva8. Tentou chamar a atenção dos filhos da terra com um poema no qual os alerta para os perigos que a Amazônia, aquele vasto mundo esquecido e miseravelmente cobiçado, enfrenta nestes dias: verdadeiro canto amazônico, com laivos do fascínio da terra e apelos que não hesitaria chamar de bíblicos, soa como uma espécie de alerta para a defesa da região, hoje, infelizmente, nas mãos de bandoleiros e de ongs, que exploram a nossa gente e querem, aos poucos se apossar das riquezas naturais, ali muitíssimas. Conhecia apenas esta obra de Carphentier, e mais nenhuma outra que se pudesse chamar de um vasto poema, se bem que a abrangente Seleta Literária do Amazonas,9 de José dos Santos Lins, cite uma epopeia com a qual se estabelece a nossa protoliteratura, com a A Muhraida, poema heroico em seis cantos, de autoria de Henrique João Wilkens e de leitura raríssima.

Abreu Cavalcante é, portanto, o primeiro. Foi buscar o motivo da sua epopeia a uma figura-mor da história portuguesa. Com as falhas metodológicas e estilísticas, que não são despiciendas. Ele levou a cabo na quietude do seu gabinete de trabalho um trabalho que lhe tomou vários anos, a dar-se crédito à sua apresentadora. Mais de seis anos levou o poeta a trabalhar na sua obra que é, sem favor, a sua obra cimeira, aquela que ficará e que certamente lembrará o seu nome. Acredito que o poema de São Nuno de Santa Maria é o que quinto livro. E o melhor e o que mais atesta as qualidades poéticas, criativas, do autor. Como escrevi linhas antes, o livro apresenta algumas falhas que o leitor relevará pelas nobres intenções do poeta, há falhas na métrica, nas cesuras, algumas palavras, por culpa quem sabe da revisão (não conheço livro que não seja traído pela revisão!), há versos frouxos que poderiam ser eliminados, mas, no todo, São Nuno de Santa Maria é uma obra que ficará. Orgulho da nossa Literatura pelo esforço do poeta em dar aos seus conterrâneos, a primeira epopeia das letras amazonenses e um presente com que Francisco de Abreu Cavalcante, tão bondosamente, já entrado nas suas nove décadas de vida, oferece aos que virão, mostrando que, no mundo das Letras, nada é impossível. O meu querido amigo de juventude leva-me com a sua epopeia pela Biblioteca monumental e assombrosa de Jorge Luis Borges, o imenso Borges, este que era mágico e brincava com as palavras como acaso poucos. E, mais uma vez, certifico-me que, no Mundo Mágico das Letras, tudo é possível.

O grande mestre da crítica, William H. Grass, dizia no seu magnífico A ficção e as imagens da vida10, que nunca podemos ter tudo e que um método pode privar-nos de outro. Ou seja, pequenas falhas apontadas no seu livro não desmerecem os esforços despendidos para que a sua epopeia venha a ser lida com apreço e respeito e o poeta elogiado e exalçado como merece. Como o faço aqui, nesta tentativa de leitura da epopeia de São Nuno de Santa Maria, cantado por Francisco de Abreu Cavalcante, amazonense!

Florianópolis, 1º./4. de setembro de 2026.


Notas

1 Cavalcante, Francisco de Abreu. São Nuno de Santa Maria canto em versos. Manaus: BK Editora, 2026. 155p. + 5 de ilustrações a cores.

2 Martins, Oliveira. A vida de Nun’Alvares. Prefácio e selecção de Afonso Botelho. 2ª. edição. Lisboa: Guimarães Editores, 1958. 244p.

3 Werfel fugia das perseguições antijudaicas e passando por Lourdes, fez uma promessa: se escapasse com vida dos horrores da guerra e chegasse às terras livres da América, escreveria a canção da menina pobre que, segundo se dizia, operava milagres. Escapou e chegou aos Estados Unidos, a Grande Pátria da Liberdade. Coincidência ou não, ali chegou são e salvo. E escreveu um dos mais belos livros de fé e confiança na vida. Confessa-o nas palavras iniciais do livro Das Lied von Bernadette. (Romance. Viena: Berman-Fischer Verlag, 1949). Não esconde que é judeu e que, portanto, a sua obra não quer dizer uma adesão ao Cristianismo e sim, o cumprimento de um voto em momento de desespero. Lindas palavras! Tenhamos bem presentes as palavras de um homem de bem, um homem sério e fiel aos votos e às promessas: “Ich habe es gewagt, das Lied von Bernadette zu singen, obwohl is kein Katholik bin, sondern Jude” (Ousei cantar a canção de Bernadete, embora não seja eu católico, e sim Judeu).

4 Op. cit., p.218.

5 Idem, ibidem, p.219.

6 Maurier, Dame Daphne. Rebecca. Nova Iorque: Cardinal Edition, 1953. 424p

7 Cfr. Op. cit., p.5, onde se encontram estas palavras: “We can never go back again, that is much certain”. Uma frase simples, que dizemos possivelmente muitas vezes em uma vida, mas que, se nos detemos sobre ela, veremos quanto é verdadeira. E cruel!

8 Carphentier, Max. O sermão da selva. Prefácio de Arthur Cézar Ferreira Reis. Manaus: UBEAM, 1979. 51p.

9 Lins, José dos Santos. Seleta literária do Amazonas. Com notas biobibliográficas. Série Raimundo Monteiro, vol. V. Manaus: Edições do Governo do Estado do Amazonas. 1966. 303p. esta foi, sem qualquer favor, uma das mais generosas tentativas de apresentar um roteiro da literatura amazonense. É muito falha como metodologia científica e cometeu omissões lastimáveis, mas chamou a atenção do estudioso para o que se tem feito pelas boas letras em nossa terra. Somente um governante culto e bom conhecedor da sua terra, como Ferreira Reis, poderia ter levado adiante publicações como esta.

10 Gass, William H. A ficção e as imagens da vida. Tradução de Edilson Alkmin Cunha. São Paulo: Cultrix, 1974. 254p.

*Newton Sabbá Guimarães (Manaus, 1941) é um renomado magistrado, professor universitário, escritor e ensaísta brasileiro. Doutor em Direito e em Letras, possui uma vasta produção literária e acadêmica com foco em humanismo e teoria literária, colaborando frequentemente com periódicos no Brasil e em Portugal.

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