Manaus, 21 de setembro de 2026

São Nuno de Santa Maria: a epopeia que amplia os horizontes da literatura amazonense

Capa do livro São Nuno de Santa Maria Cantado em Versos, de Francisco de Abreu Cavalcante, ao lado da imagem do santo guerreiro
São Nuno de Santa Maria Cantado em Versos, de Francisco de Abreu Cavalcante: um marco para as letras amazonenses.

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Elizabeth Duarte Cavalcante
* Elizabeth Duarte Cavalcante

Texto baseado no ensaio crítico de Newton Sabbá Guimarães sobre a obra São Nuno de Santa Maria Cantado em Versos, de Francisco de Abreu Cavalcante, publicado em setembro de 2026.


Nos preparativos para o lançamento, em Manaus, de São Nuno de Santa Maria Cantado em Versos, o escritor, crítico literário e membro da Academia Amazonense de Letras, Newton Sabbá Guimarães, dedicou à obra um extenso ensaio que combina apreciação literária, reflexão histórica e memória afetiva.

Mais do que uma análise do novo livro de Francisco de Abreu Cavalcante – que tenho a satisfação de ressaltar ser meu pai –, o texto constitui um depoimento de quem acompanha há mais de seis décadas a trajetória humana e intelectual do autor.

Ao longo do ensaio, Sabbá Guimarães destaca a dimensão histórica, espiritual e literária do poema épico inspirado na vida de São Nuno de Santa Maria, defendendo que a obra ocupa posição singular no panorama das letras amazonenses. Para o acadêmico, Francisco Cavalcante realizou um empreendimento raro na literatura produzida no Amazonas: a construção de uma epopeia dedicada a uma das maiores figuras da história de Portugal, resultado de anos de dedicação e pesquisa do autor, bem como de clara devoção ao santo e guerreiro.

O guerreiro e o santo

No ensaio, o autor relembra a trajetória de Dom Nuno Álvares Pereira, herói da independência portuguesa e figura central da Batalha de Aljubarrota. Contudo, observa que a grande contribuição do poema de Francisco Cavalcante está em revelar uma dimensão que muitas vezes fica em segundo plano nas narrativas históricas: a do homem profundamente religioso que, após uma vida dedicada à defesa do reino, escolheu o caminho da humildade e da renúncia material.

Sabbá Guimarães destaca que, por meio dos versos do poeta amazonense, o leitor tem acesso não apenas ao estrategista militar admirado pelos historiadores, mas também ao personagem espiritual que buscou a santidade como realização máxima de sua existência.

Um projeto literário de longa maturação

O crítico observa que a construção da obra demandou muitos anos de dedicação. O poema, composto por mais de trezentas estrofes, representa um projeto ambicioso que exigiu estudo, disciplina e perseverança. Para ele, trata-se da realização mais importante da trajetória literária de Francisco Cavalcante, resultado de uma vida inteira de convivência com os livros e com a poesia.

Em sua análise, reconhece que a obra apresenta alguns aspectos formais passíveis de observação crítica, mas considera que tais questões não diminuem a relevância do conjunto. Ao contrário, entende que o valor cultural, histórico e literário do trabalho supera amplamente eventuais imperfeições técnicas.

Uma amizade que atravessa décadas

Um dos aspectos mais emocionantes do texto é o resgate da amizade entre Newton Sabbá Guimarães e Francisco de Abreu Cavalcante, iniciada ainda nos anos 1960, em Manaus. O crítico relembra encontros, conversas sobre literatura, sonhos de juventude e a convivência com amigos que marcaram aquele período.

Ao reconstruir essas memórias, o ensaísta apresenta ao leitor não apenas o escritor, mas também o homem Francisco: amigo leal, professor dedicado, leitor apaixonado e personalidade afável que permaneceu fiel à cultura e ao conhecimento ao longo de sua extensa trajetória.

Um marco para as letras amazonenses

Talvez a afirmação mais expressiva do artigo seja a de que São Nuno de Santa Maria Cantado em Versos ocupa um lugar singular na literatura produzida no Amazonas. Sabbá Guimarães observa que raras são as obras da tradição literária amazonense que se aproximam da dimensão épica alcançada por Francisco Cavalcante. Ao lado de referências históricas como A Muhraida, de Henrique João Wilkens, e de grandes poemas de autores regionais, a obra passa a integrar um conjunto seleto de produções voltadas para temas históricos de grande amplitude.

Para o crítico, a epopeia representa uma contribuição duradoura ao patrimônio cultural amazonense, demonstrando que a literatura produzida na região é capaz de dialogar com temas universais sem perder sua identidade.

O legado de Francisco de Abreu Cavalcante

Na conclusão de seu ensaio, Newton Sabbá Guimarães considera São Nuno de Santa Maria Cantado em Versos a obra mais importante da produção literária de Francisco de Abreu Cavalcante. Em sua avaliação, o livro consolida o nome do autor entre os escritores que contribuíram para ampliar os horizontes da literatura amazonense, demonstrando que a criação literária não conhece limites de idade quando alimentada pela fé, pelo estudo e pela paixão pelas letras.

Mais do que uma homenagem a um santo português, a obra revela a força da persistência intelectual e da vocação poética de um escritor que, já em sua nona década de vida, continua oferecendo à cultura amazonense novas páginas de valor permanente.


*Elizabeth Duarte Cavalcante é jornalista, articulista, psicoterapeuta, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, dramaturga e compositora.

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