
* Davi Avelino Leal
Continuação…
3.3.2 Os Parintintin
Parintintin é outra etnia que frequenta, com certa regularidade, as fontes documentais do século XIX e primeiras décadas do XX. Esse subgrupo Kauwiaua, que, segundo Henri Condreau, vivia próximo à cachoeira Caí, no Tapajós, e, devido ao ataque dos intitulados civilizados e à pressão dos Mundurucu, teve que atravessar a região em direção ao rio Machado.
Ainda segundo o autor, os Parintintin se dispersaram em pequenos grupos como forma de fugir do avanço sobre os seringais do Tapajós. Eles eram exímios conhecedores do interflúvio Xingu-Tapajós e sabiam dos riscos que a atividade extrativa representava pra eles, pois passavam, todos os anos, pelas estradas dos seringueiros, em Crepoti (CONDREAU, 1977). Outros autores afirmam que os Parintintin teriam se deslocado de outras áreas para se estabelecerem às custas dos Torá e dos Mura, nos rios Marmelos e Mayci, que tiveram seu território intrusado com a expansão da frente extrativista. A questão é que os Parintintin estão no Mayci, no Marmelos e no Machado, afluentes do rio Madeira, quando a Província do Amazonas é criada. Dado que se confirma quando saem os primeiros Relatórios Provinciais, dando conta das entradas de brancos, em busca de borracha nesses rios, e do revide indígena a essa intrusão.
Segundo Curt Nimuendaju (1982), os Parintintin do rio Madeira e afluentes são registrados pelas fontes oficiais, ainda em 1829, quando um artigo do jornal Telégrafo Paraense menciona os chamados antropófagos do rio Madeira, vivendo próximo à cachoeira de Todos os Santos, margem esquerda do Tapajós. Depois que migram para o rio Madeira, passam a habitar um território de cerca de 22.000 quilômetros, numa área delimitada ao norte pelo rio Madeira, ao sul pelo rio Machado e a leste pelo rio Marmelos (NIMUENDAJU, 1982). O que corresponde à localização de importantes seringais, como os fronteiriços Paraíso, Três Casas e Pádua, além do Mirari e Calama.
Trata-se de um território entrecortado por canais e lagos, ricos em peixes, que perfazem um labirinto bem conhecido dos Parintintin. As aldeias Parintintin situavam-se acima do Popunhas, porém, toda a área mencionada era visitada anualmente pelos índios, o que gerava confronto com os seringueiros que adentraram aqueles rios.
De acordo com Ayres de Casal, os Parintintin tinham por hábito usar alargadores de orelhas, além dos discos no beiço em forma de meia lua, o que não correspondia ao que foi observado por Curt Nimuendaju, em 1921. Desde meados do século XIX, seringalistas lutavam para atrair os Parintintin para trabalhos na extração do látex e apropriarem-se de suas terras (GONDIM, 2001; NIMUENDAJU, 1982; PEREIRA, 1980; MENEDEZ, 1989; SILVEIRA, 2007).
O autor de Up the Amazons and Madeira rivers, through Bolivian and Peru, Edward Mathews, comenta, em 1879, sobre a presença dos Parintintin no distrito de Abelhas.
Dans abeillas, a Brazilian rubber collector`s headquarters, is the next station passed, and then an ascending steamer enters on the reserve of the Parententin Indians, and steam through some score or so of leagues of lands where no settler has yet been able keep a foot[…] The termination of the Parententin territory os marked by the junction of the river Machado on the easter pr right bank of the Madeira (MATHEWS, 1879, p. 20).
Para todos os exploradores que adentravam o rio Madeira, estava claro que a área ocupada pelos Parintintin era rica em borracha de boa qualidade. Logo, os conflitos de interesses, envolvendo os próprios donos de seringais em disputa pelas terras Parintintin, será uma constante. Mais adiante, serão exploradas as disputas entre a família Monteiro e a família Lobo, pelo controle, não só de seringais, mas também pela “pacificação” dos Parintintin.
Segundo o engenheiro João Martins da Silva Coutinho (1986, p. 54), que produziu um relatório em 1861 sobre o rio Madeira, os Parintintin são temidos, pois tratam a todos como inimigos. Acompanhando a sua fala, pode-se perceber esse receio,
Pela ferocidade e antropophagia, a tribu Parintintin distingui-se entre as outras. Estes índios parecem que declararam guerra a humanidade. A sua flexa voa ao indígena, assim como ao branco e ao preto, todos são seus inimigos. Elles não querem relação com os civilizados e com razão.
No entanto, o próprio avanço sobre o território ocupado pelos Parintintin foi um processo extremamente violento. De acordo com Joaquim Gondim (2001), funcionário do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), e que atuou na chamada pacificação, os índios tiveram que repelir vários ataques de expedições formadas por caucheiros incendiários.
O autor de A pacificação dos Parintintin narra um episódio em que uma dessas expedições, organizada pelo peruano Benjamin Maya, ataca as malocas Parintintin, localizadas num plano saliente do rio Mayci, no lugar denominado barreira vermelha. Ao chegarem ao local, os caucheiros mataram homens, mulheres e crianças, sem distinção. Destruíram as roças e atearam fogo nos ranchos.
Esse é o quadro que envolve as relações entre Parintintin, seringueiros e os caucheiros que tentam, a todo custo, intrusar o território. A solução Parintintin é atacar, sem trégua, não só os inimigos de outras etnias, mas, sobretudo, os brancos que tentavam se estabelecer próximo a seus territórios. Não se trata apenas de uma reação às provocações de seus vizinhos, mas também de respostas behavoristas aos estímulos externos. Como sugere Isabel Missagia de Matos (2004, p. 74), para a etno-história dos botocudos, a partir de estudos de H. Langfur,
De uma forma inovadora, H. Langfur rejeita uma interpretação apriorística, considerada ‘lugar comum’ na história dos índios, de que suas agressões aos colonos corresponderiam a meras respostas às agressões externas; os casos de confronto interétnicos examinados indicam, outrossim, que naquela região de fronteira foram os próprios indígenas os iniciadores das agressões em uma grande parte das vezes – ainda se consideradas as possibilidades de manipulação dos dados a respeito da belicosidade indígena nos documentos oficiais, em proveito dos interesses dos expedicionários.
Uma passagem do texto de Curt Nimuendaju (1982) sobre os Parintintin é uma grande pista nesse sentido. Diz o autor sobre os ataques dos citados índios ao posto de pacificação: os seus ataques não eram protestos contra a ocupação de seu terreno, mas tinham por fim nossas cabeças e o saque da casa (NIMUENDAJU, 1982, p. 87).
Essa observação de Nimuendaju (1982) remete diretamente para à sociocosmologia Parintintin, pois, quando lutam pela defesa do território, configuram-se como um elemento dentro de um ethos guerreiro, característico das sociedades Tupi. Um quadro elaborado por Ariane Silveira (2007) recupera os ataques Parintintin a brancos e índios, envolvendo assassinatos, assaltos e agressões, para o período que se estende desde 1852 até a chamada “pacificação”, na década de 1920.
Quadro 6

SILVEIRA, 2007, p. 23
Em 1852, o Relatório de Presidente de Província registra um ataque Parintintin:
Em novembro de 1852 os Gentios das Tribus dos Parintintin assassinarão no Rio Marmellos, afluente do Madeira, três pessoas que se ocupavão em extrahir óleo de copaíba, queimando depois a barraca e todos os objectos que ahi acharão depositados (RPPAM, 1853, p. 5).
Os tuxauas Parintintin não consentiam que os chamados “brancos” ou “gentios de outras nações” adentrassem seus territórios. O ataque às povoações, o medo que espalhavam entre os moradores indígenas (aldeados) e não indígenas, fizeram parte da estratégia de luta, visando garantir o acesso a recursos historicamente explorados pelo grupo. No relatório de 1860, aparece outro ataque Parintintin, dessa vez, no distrito de Santo Antonio:
A 18 do mesmo mez, no distrito de Santo Antonio, rio Madeira, os índios Parintintin accometeram, na foz do rio Machado, uma canoa tripolada por três pessoas, duas das quaes assassinaram a flexadas, conduzindo os cadáveres para as suas festanças de costumes (RPPAM, 1870, p. 11).
Em novembro de 1863, eles atacaram, no Crato, a casa de Antônio Primo de Góes, assassinando-o, a Manoel José e ferindo gravemente o menor Bartholomeu Francisco de Góes. Mas o grande feito destes foi o ataque à casa do comendador José Francisco Monteiro, em 1869, documento já explorado na introdução deste trabalho.
Em agosto de 1865, eles mataram, no rio Machado, três índios civilizados de nomes João Miri, José Antonio e José Francisco, e, em outubro, apareceram no Paraná-Pixuna, matando alguns índios Mura (RPP, 1870, p. 11), bem como apareceram na foz do rio Machado, em 1869, assaltando uma canoa e matando a flechadas dois tripulantes, conduzindo os cadáveres para as suas malocas (RPPAM, 1870, p. 11). Os anos iam passando e os ataques continuavam. Em 1878, os Parintintin mostraram, mais uma vez, sua força,
No dia 22 de janeiro, foi no distrito policial do rio Machado assaltada pelos índios antropophagos – Parintintin – uma canoa da propriedade de Manoel Maria Gonçalves, sendo este, um seu filho mais quatro remeiros assassinados, escapando ferido por ter-se atirado ao rio e nadado para terra um tripolante da referida canoa (RPPAM, 1878, p. 8)
Para os administradores locais, o rio Madeira tornara-se inabitável devido aos ataques dos índios ditos selvagens. Os relatos de ataques de Parintintin estendem-se por todo o período, se intensificando, ainda mais, no alvorecer do século XX. A própria população não indígena do local chega a pedir providências ao presidente de Província Satyro de Oliveira Dias, para que cessasse os ataques Parintintin:
Os habitantes do rio Machados, affluentes do Madeira, sobressaltados com as ameaças de excursão dos terriveis selvagens Parintintins, apresentaram á Presidencia por intermedio do commerciante desse logar Manoel Pereira Gonçalves, pedindo um destacamento, que podésse com mais segurança velar pela tranquilidade do logar e offerecesse aos ditos selvagens a necessária resistência (RPPAM, 1871, p. 43).
Em 1909, os Parintintin, entre 60 e 100 índios, atacam, no rio Mayci, a propriedade de Antonio Achilles Cavalcante. Segundo o relato do jornal Humaytaense, um Parintintin foi morto e outro ferido.
Compulsando jornais da época, Silveira destaca, a partir do periódico Extremo Norte, um ataque Parintintin aos seringais da poderosa firma Asensi:
[…] sabemos que no dia dez do mez findo, á plena luz meridiana um grande grupo desses indios ameaçou atacor (sic) o logar denominado Calama, proximo a fóz do Machado, de propriedade dos nossos amigos Asensi & C. e onde funciona a Agencia Fiscal do Estado, lançando flechas contra os habitantes dalli, demonstrando intuitos de aggressão. (…) Felizmente, repellidos em tempo, fugiram para a mata (…) é de notar, que o Dr. Carlos Miguel Asensi, tem procurado por todos os meios conseguir captar as sympathias dos indios naquelle ponto, pondo em prática todos os meios, nada conseguindo, entretanto (Extremo Norte apud Silveira, 2007, p. 44).
Os desdobramentos do processo de “pacificação”54 dos Parintintin, que permitiu o acesso aos seus territórios ricos em castanhais, seringais e cacauais, desarmando-os e liberando-os como mão de obra controlada, serão analisados mais a frente. Até esse momento, os Parintintin conseguiram, valendo-se de variadas estratégias, estabelecer fronteiras étnicas, políticas e até territoriais, diante do avanço da empresa extrativista. Percebe-se como um grupo relativamente pequeno conseguiu demarcar as fronteiras acima mencionadas. Segundo Nimuendaju (1982, p. 50),
A terra dos Parintintin tem, por conseguinte, uma densidade de população de 0,01 por Kilometro quadrado, dado que esta tribo de 250 almas possa produzir, quando muito, uns 50 homens de combate, chegamos ao resultado verdadeiramente phantastico que cada um de seus guerreiros é sufficiente para conservar livre de estabelecimentos inimigos a área colossal de 440 kilometros quadrados do território da tribu!
Mais uma vez, o autor fornece a pista para tal fato. “O grito de guerra soa como um hi-hi guttural, expellido com toda força e repetido irregularmente. Bastam três índios assim gritando para causar a impressão de um exército” (NIMUENDAJU, 1982, p. 77). Sem dúvida, a fama de povo guerreiro e até antropófago foi fundamental para manter os brancos e outros índios distantes das áreas Parintintin. Impossível não recordar, aqui, a estratégia dos Kayapó que manipulavam intencionalmente o imaginário do medo que causavam na população local não indígena (TURNER, 1993).
Continua na próxima edição…
Notas
54 Como sugerem Laura Nader (2009) e Izabel Missagia de Matos (2004), a pacificação envolve um processo de desarmamento do grupo, concebida dentro de uma política de harmonização e de controle dos conflitos.
*Davi Avelino Leal é escritor e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e membro do Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição. É licenciado, mestre e doutor pela UFAM.
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