Manaus, 2 de novembro de 2026

Sobre os mortos e a morte

Desenho de uma figura encapuzada

Compartilhe nas redes:

A morte chega. A gente não escolhe a chegada. Mas pode escolher o jeito de atravessar.

A morte é assunto corriqueiro. Uns puxam conversa com respeito, outros com susto, outros com aquela conhecida risada nervosa. Hoje em dia fala-se muito em cremação. Ecologistas costumam defendê-la, em geral pensando em reduzir pressão sobre áreas de sepultamento. Há outras razões — inclusive com relação a contaminações no solo e nas águas.

É fato que as cidades precisam diminuir alguns impactos associados aos cemitérios tradicionais. Só que não dá pra vender cremação como “solução mágica”. É uma escolha com consequências. E, como toda escolha, merece conversa e planejamento. Ainda há os aspectos culturais e religiosos, que não podem ser descartados.

Por que enterramos os mortos

Muitas vezes nos perguntamos: por que enterramos os mortos? Porque enterrar não é só pôr alguém no túmulo. Enterrar costuma organizar o luto. Dá ritual. Dá tempo. Dá um lugar onde a saudade consegue visitar.

E, para muita gente, o cemitério é como uma biblioteca silenciosa. Meu amigo professor Fábio Augusto estuda a História por meio dos cemitérios. O nosso São João Batista parece ser uma fonte inesgotável de “realia histórica”. Alguns amazonenses, principalmente neste dia de Finados e nos Dias dos Pais e das Mães, visitam cemitérios para lembrar nome, história e até aquela lembrança boba que faz o coração amolecer. Um túmulo vira ponto fixo num mundo que nunca fica parado.

O que faria Odorico Paraguaçu

Lembrei-me de uma antiga novela da Globo, dos anos 1970, chamada O Bem-Amado. O personagem principal era Odorico Paraguaçu, prefeito de um município no interior do Brasil. Odorico era daqueles que transformam até o impossível em obra municipal. Ele pretendia inaugurar um cemitério, mas ninguém morria.

Se a novela fosse nos dias atuais, provavelmente Odorico iria inaugurar um crematório na cidade. Olharia para o povo com aquela autoridade de quem tem certeza e decretaria algo assim: “Vamos inovar! A gente faz um cemitério… e, se tiver que usar fogo para queimar os defuntos, vamos usar! Mas tem que ser bonito, organizado e com placa!”

Só que a vida não assina contrato com prefeitos de cidadezinhas Brasil afora. E Odorico, que não perdia a chance de ajustar o mundo à própria régua, discursaria de improviso na inauguração: “Sem considerandos e indo aos finalmentes, respeito é importante! Mas também tem que ter logística. Porque emoção sem planejamento vira confusão!”

O cuidado é que fica

A questão é que, no fim, é necessário falar sobre a morte — e sobre como lidar com o corpo do ente querido falecido. A forma pode mudar: enterro ou cremação? Mas o cuidado fica. Na cremação, por exemplo, para muitas famílias o importante tem sido o modo como as cinzas são tratadas e a despedida feita com presença e carinho. Não é só o destino final; é como o vínculo é preservado.

E, enquanto a gente debate formato e sentido, no México, país de cultura milenar de influência maia, a morte aparece com uma coragem emocional que costuma impressionar. Muitos mexicanos encaram a morte com tradições ligadas ao Dia dos Mortos, nas quais saudade e celebração caminham juntas. Não é festa para negar dor. É festa para afirmar ligação.

Em vez de tratar a morte só como mistério, a cultura mexicana frequentemente a transforma em festa. Flores, altares, histórias contadas, comida compartilhada. Tudo vira linguagem de amor para manter os laços vivos. A morte deixa de ser apenas o fim do relacionamento e passa a ser uma mudança de endereço na rota do sentimento.

Por isso, seja com cremação, enterro ou qualquer rito que adapte a tradição ao tempo de hoje, a humanidade repete a mesma necessidade: dar sentido ao que não dá para controlar. A morte chega. A gente não escolhe a chegada. Mas pode escolher o jeito de atravessar — com dignidade, cuidado e o tipo de ritual que ajude quem fica a viver sem a parte que se foi.

E Odorico Paraguaçu, apesar do humor leve e da mania de organizar tudo, acabaria entendendo, do jeito dele, que até obra pública respeita a alma. Porque tem coisas que não obedecem a cronograma. Elas pedem respeito. E, no final, seja no jazigo ou no cuidado com as cinzas, o que vale é o carinho. O amor é a saudade.

Views: 0

Compartilhe nas redes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *