Manaus, 2 de novembro de 2026

O rescaldo das eleições

Ilustração em mosaico com retratos de presidentes da Primeira República, o Teatro Amazonas, um gaiola no rio e uma urna de madeira
Ilustração: imagem gerada por inteligência artificial

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Em 1894, Prudente de Moraes teve 4.032 votos no Amazonas e Afonso Penna, nenhum. Era, como se vê, um simulacro de eleição.

Sem a pretensão de analisar o resultado das recentes eleições de segundo turno no Amazonas, para presidente da República e governador do Estado, muito menos as consequências que delas decorrem, mas sem fugir de todo do tema que é de ocasião, meti-me a levantar os dados das eleições presidenciais em terras amazonenses de 1894 a 1930 — portanto, no curso da Primeira República (1889-1930), marco que os historiadores costumam admitir como definidor de uma fase da nossa história política.

Os dados utilizados são oficiais, registrados no Tribunal Superior Eleitoral em estudo bem detalhado publicado não faz tempo, e demonstram resultados dignos de apreciação por quem pretenda comentar a evolução do processo eleitoral brasileiro, notadamente o que se reporte à apuração, ao interesse dos eleitores e à representatividade dos resultados, se tomado o percentual de eleitores em relação à população do estado.

O voto no Amazonas, de 1894 a 1930

Ano Candidato Votos Adversário Votos
1894 Prudente de Moraes 4.032 Afonso Penna 0
1898 Campos Salles 2.583 Lauro Sodré 5
1902 Rodrigues Alves 12.022 Quintino Bocaiuva 1
1906 Afonso Penna 2.882 Lauro Sodré 23
1910 Hermes da Fonseca 3.237 Ruy Barbosa 108
1914 Wenceslau Brás 8.783 Ruy Barbosa 3.014
1918 Rodrigues Alves 3.189 Nilo Peçanha 2
1919 Epitácio Pessoa 1.975 Ruy Barbosa 803
1922 Arthur Bernardes 1.533 Nilo Peçanha 2.407
1926 Washington Luiz 3.408 Assis Brasil 0
1930 Júlio Prestes 5.213 Getúlio Vargas 191

Votação presidencial no Amazonas. A eleição de 1894 ocorreu em 1º de março. Fonte: Tribunal Superior Eleitoral.

Mais habitantes do que eleitores

Destaque-se que o número de eleitores estava bastante aquém do quantitativo da população. São exemplos a população de 1905, com 303.151 habitantes para 7.539 eleitores, a demonstrar a desproporção gritante — a mesma desproporção que se pode verificar em 1930, na relação de 455.545 habitantes para 7.134 eleitores em 1922.

Esses resultados sinalizam que o eleitorado estava sempre comprometido com o candidato que fosse o representante do governo federal, ou seja, aquele ungido pelo titular do Palácio do Catete, que abrigava a presidência da República. Confirmam a tese de que a política dos governadores, as oligarquias regionais, o controle do governo local e a comissão de verificação de poderes foram mecanismos que controlaram a representação dos estados no Congresso e nas Assembleias, mas, acima de tudo, na escolha de presidentes.

Era, como se vê, um simulacro de eleição, com atas fraudadas, intenso trabalho de “bico de pena”, apuração sob controle dos próprios políticos governistas municipais e estaduais e sem a presença do Poder Judiciário — o que só aconteceu, gradativamente, a partir de 1916 e com amplitude a contar do Código Eleitoral de 1932, mas, mesmo assim, sem os mecanismos e garantias da atualidade.

Por isso, quando da derrota de Vargas, representante do Rio Grande do Sul em associação com a Paraíba e Minas Gerais — e somente porque o pacto de São Paulo e Minas Gerais havia sido rompido pelo presidente Washington Luís —, deu-se a revolução de 1930 e a implantação de regime de exceção até 1946, com breve intervalo entre 1934 e 1937.

O rescaldo de agora

O rescaldo dessas últimas eleições, entretanto, não diz respeito a qualquer tipo de desproporção entre população e eleitorado, mas a um imenso movimento popular que, em nome dos principais candidatos ao pleito, ganhou as ruas e demonstrou interesse por esse processo de escolha pelo voto. Foi cívico e brasileiríssimo esse movimento popular.

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