Manaus, 25 de fevereiro de 2024

A Amazônia e nosso idioma

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Na Amazônia, até quase meados do século XIX a língua portuguesa não era hegemônica.

Quase todo mundo falava um idioma indígena materno e o nheengatu, a boa língua. Em muitas câmaras de vereadores o trabalho de secretariar as sessões e redigir as atas era confiado a índios alfabetizados nas missões católicas, já que os senhores vereadores não sabiam ler ou escrever. Em 1827, há apenas três escolas na Província do Amazonas, sendo uma na Barra (Manaus), outra em Barcelos e outra em Moura. Em 1800, uma escola de primeiras letras havia sido criada em Barcelos (então sede da capitania). Mesmo levando em consideração as diversas mudanças, o currículo escolar era limitado, segregador (apenas os filhos de gente abastada), determinado pelo poder político, que também nomeava o professor e proibia a iniciativa dos particulares. O currículo abrangia as primeiras letras, a educação física e moral, caligrafia, doutrina cristã, numeração e primeiras regras aritméticas, estudo de gramática, noções de geometria aplicada às artes, história natural, história sagrada, história do Brasil e geografia. Para as escolas femininas, estava acrescido o currículo com a matéria de prendas domésticas.

Uma escola melancólica para formar dóceissúditos, nunca uma elite pensante e criativa. Em 1848 é fundado na Barra (Manaus) o que poderia ser chamado de estabelecimento de ensino secundário, o seminário de São José, lecionando gramática, francês, música e canto. Mais tarde, aritmética, álgebra, geometria, filosofia, retórica e geografia, abrigando uma média de cinquenta alunos. Uma transmissão desfibrada do saber, que virou tradição no primeiro reinado, onde prevaleceram as soluções burocráticas. O jovem era obrigado a receber uma educação que se compromete a refletir um sistema tradicional de idéias consideradas universais e desligadas das necessidades do cotidiano, beirando a intolerância e o proselitismo. A educação será outro dever enfadonho da oligarquia iletrada.

Com isso, tivemos no Amazonas uma forma de educação incapaz de formar um pensamento original, tão necessário aos processos de transformação. A educação era sempre um momento da infância e da adolescência, necessário e irritante, que provê o jovem de um título para concorrer a certos cargos públicos, bem como de certas habilidades práticas como redigir cartas, assinar o próprio nome e contar o dinheiro. Firmava se, naquela época a mitologia bacharelesca de que a Educação é um título em letras góticas sobre um pergaminho, que alguns poucos um dia poderão receber em tocante solenidade e em trajes domingueiros. É no marasmo do século XIX que a cultura será escamoteada ao povo, transformada em ritual ridículo e esvaziada de sentido.

Nem mesmo a língua portuguesa esta escola parecia capaz de transmitir. Enquanto isso na região conhecida com alto rio Negro, viviam dezenas de etnias que falavam cerca de 30 idiomas, além do português, do espanhol e do inglês. A maioria dos povos daquela área era e é falante de mais de um idioma. Ao longo de quatro séculos foi o maior fornecedor de mão-de-obra escrava. Cálculos conservadores indicam que cerca de um milhão de índios do alto rio Negro foram escravizados.

Em meados do século XX as etnias estavam desmoralizadas e em vias de extinção, quando ali se instalam os salesianos, que a despeito de destruírem as malocas coletivas e proibirem ritos ancestrais, criaram uma rede de escolas e colégios profissionalizantes. Nos anos 60 os técnicos do Ministério da Educação se espantaram com o grau de alfabetização das etnias, não sabiam que até 1970 0 Amazonas tinha menos analfabetos que São Paulo. Recentemente a presidenta Dilma vetou uma lei que oficializava os idiomas ameríndios nas escolas indígenas. Um ato absurdo para quem elegeu como objetivo principal de seu governo o desenvolvimento da educação.

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