Muitas moças e rapazes de Parintins desejam ser item de seu boi preferido. Sinhazinha, Cunhã, rainha do folclore. Já os homens sonham em ser amo do boi, pajé ou mesmo o tripa do boi.
Mas há os que trabalham duro anonimamente. São os PAIKICÉS do Boi Caprichoso e os KAÇAUERÉS do Boi Garantido. Cada equipe tem cerca de 200 homens. Trabalham duro. Carregam os carros alegóricos e adereços com dias de antecedência. Tomam conta do acervo. Montam tudo. É muito trabalho. Mas quem brilha no festival são os itens.
Os PAIKICÉS do Boi Caprichoso e os KAÇAUERÉS do Boi Garantido são homens e mãos que trabalham sem alarde, dia após dia. O coração que move os bois é invisível aos olhos que olham apenas para os itens, alegorias e toadas. No traslado dos carros alegóricos, há uma geometria de esforço. O peso distribuído com cuidado e a precisão que expressa o amor por cada Boi. Em cada ajuste de adereço, um segredo de paciência. Cada trabalhador no silêncio e na dedicação ao seu boi, sabe que o tempo é aliado, não inimigo.
A organização de cada equipe é como uma toada cujo tema é a disciplina. Os Paikicés, conhecem cada peça como quem conhece a própria história do Boi Caprichoso Os Kaçauerés, com o mesmo afinco, alinham o vermelho vibrante das alegorias e adereços. Para que possam vibrar numa tonalidade que conte uma narrativa vermelhante, honesta e ofuscante.
O cronograma não é apenas data. É respeito pela tradição, é o ritual de preparar o bumbódromo para que a grandiosidade se faça visível. E surpreendente como todo ano, todo festival.
PAIKICÉS do Boi Caprichoso e os KAÇAUERÉS do Garantido fazem um trabalho que não pede aplauso. Carregar, montar, guardar. São tarefas que se repetem, mas que, repetidas, se tornam disciplina sagrada.
A alegoria de cada boi é memória em movimento. Cada peça uma página viva de uma história que se reescreve a cada festival.
Os PAIKICÉS e os KAÇAUERÉS têm humildade para ver o resultado sem se deixar consumir pela vaidade do aplauso que os itens recebem. Eles tem coragem para admitir que o segredo do brilho de cada dia de apresentação do festival está nos detalhes.
E, quando a galera azul e vermelha se tombar em reverência, o verdadeiro brilho vem da quietude de quem sabe que o trabalho está apenas começando outra vez. Mas que existe uma promessa de continuidade de uma tradição viva. Os Paikicés e Kaçauerés são guardiões de uma linha que não pode quebrar. A linha que liga passado, presente e futuro do festival.
Cada um, na sua função, entrega o essencial do todo. Sem o peso certo, o boi não voa. Sem o encaixe preciso, o colorido dos adereços e das vestimentas não canta no ritmo preciso de cada toada.
Paikicés e Kaçauerés, que trabalham com as mãos e suando o corpo, para que a festa maior continue a nascer todo ano, sob o mesmo céu, com a mesma coragem. A coragem de quem ergue, com paciência e amor, os bois que encantam os amazonenses, o Brasil é o mundo.
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