Manaus, 25 de fevereiro de 2024

As Náiades e mãe d’água (IX)

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Palavras finais

A literatura no Amazonas, nestes últimos cem anos, A tem sido estudada em termos gerais, por diversos au tores. Entre os mais conhecidos destacam-se Anísio Jobim (A intelectualidade no extremo norte, 1934), Péricles Moraes (Os intérpretes da Amazônia, capítulo de Legendas & águas-fortes, 1935), e Djalma Batista (Letras amazônicas, 1938). Nesses trabalhos a poesia é abordada como um gê nero ancilar à prosa de ficção e o ensaio. O estudo exclusi vo da poesia é uma prática do momento atual. Decorre da repercussão de segmentos do Movimento Madrugada, do adeus ao beletrismo. Na Academia Amazonense de Letras o tema foi objeto de exame por João Mendonça de Souza (0 poeta e a forma exata, 1973).

Mas o estudo da poesia consolidou-se, definitivamen te, com a presença de poetas, escritores e críticos literários, agora formados por um novo elemento implantado na pai sagem cultural do Amazonas: os Cursos de Letras. Antes, os madrugadores eram na grande maioria autodidatas, até aqueles formados pela centenária Faculdade de Direito da Praça dos Remédios que, em termos da teoria literária, também o eram. O ofício da Universidade, com as virtudes reconhecidas de seu funcionamento, a formação científica proporcionada pelo estudo e a pesquisa, pelo intercâmbio de conhecimentos com centros culturais de outras regiões e países, conferiu, ao ambiente intelectual do Amazonas, qualificação essencial, em particular da poesia e sua análise, agora cuidada por profissionais com formação científica.

A poética foi desvelada em sua essência e forma, num movimento que se caracteriza por tantos ensaios, dissertações e teses acadêmicas, a exemplo dos estudos pioneiros de Socorro Santiago, A imagem do rio na poesia amazonense contemporânea, dissertação de Mestrado apresentada na Universidade Católica de Curitiba, em 1982, depois transformada no livro Uma poética das águas. E A poesia no Amazonas, disser tação de mestrado defendida por Marcos Frederico Krüger à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1997.

Firmou-se a geração dos graduados, mestres e douto res. Os círculos intelectuais do Amazonas receberam novas cabeças, no sentido geral, visto estar presente a Universidade na maioria dos centros urbanos do Estado, nos campos avançados. A consequência desses estudos pode perceber-se na mudança do modo de como o povo realiza as suas festas e dirige o seu destino. Não se trata de um comportamento de geração espontânea. É decorrência do conhecimento adquirido pelos jovens nos bancos acadêmicos, a influir no funcionamento da estrutura social, que é como se fosse uma árvore,49 os jovens constituem a casca por onde se alimenta essa árvore. E vai renovando, com a selva dos seus ideais, as células do âmago da árvore e provocando as atitudes de mudança para melhor.

A prática da poesia é uma das formas, talvez a mais eficiente, de a juventude interferir nos processos de mu dança. Aí se identifica o quadro de perspectivas abertas em reconhecer que a poética não possui um sentido pessoal, individualista, embora não seja habitual realizar-se um poema em equipe. A atividade criadora requer momentos de solidão e demanda do íntimo diálogo entre o poeta e a página de papel em branco, como se fosse um diálogo dele com ele mesmo. Coletiva é a atmosfera de bem estar espiritual provocado pela emoção estética. Aí a poesia recebe significado social, como diria Herbert Read (1893-1968), um notável crítico de arte moderno, ao considerar a criação artística:

(…) a arte começa por uma atividade solitária e só se íntegra à Sociologia na medida em que é aceita pela sociedade.

É intensa a força da paisagem, do meio, do ambiente, na realização da literatura e da poesia. Vimos no episódio de Tenreiro Aranha. Seus poemas, escritos no século XVIII, possuem a forma gramatical e o tom do neoclassicismo abraçado pelos árcades brasileiros. Seus personagens não são nem a Iara, nem o Boto, nem a Cobra-grande. A visão de Tenreiro Aranha concebe Ninfas, divindades pagas da humanidade helênica, mas flanando nas águas dos igarapés e nos labirintos dos igapós do Amazonas, sem sequer escorregar nos limos do burlesco ou do cediço. Os seus poemas possuem verdade emocional, até quando homenageiam a figura de um governante que, em convalescença de grave enfermidade, vai banhar-se nas águas dos igarapés tutela das pelas Náiades.

O mínimo da população amazonense reside ao longo das margens dos rios e no meio da floresta. A maior parte planta-se nas cidades, todas elas urbanizadas sob a orientação do traçado quadrangular de influência europeia. O centro populacional mais expressivo, Manaus, talvez tivesse a feição de uma cidade verdadeiramente amazonense, se as suas vias de comunicação, as avenidas, ruas e praças, tivessem obedecido ao traçado sugerido pelos cursos de água, como desejavam os seus primeiros habitantes.50 Naquela altura a cidade se expandia em torno de quatro saudáveis caminhos de água.

Hoje Manaus possui uma área banhada por não me nos que 200 pequenos rios que os manauaras chamam carinhosamente de igarapés.51 À medida que a cidade vai crescendo esses caminhos de canoa vão sendo dominados pelos rejeitos depositados dos quintais e, mais recentemente, das fossas maltratadas dos condomínios verticais. Há muito, no entanto, essas águas já deviam ter sido restauradas e protegidas dos entulhos e das enchentes, por meio de processos técnicos que as controlassem o tempo todo, reavendo a qualidade das águas e impedindo o desconforto dos moradores de suas margens. O que se observa é que em Manaus vive-se muito pouco preocupado com os movimentos das águas. Do contrário esses rios da cidade já se teriam organizado. Há necessidade da conscientização dessa realidade.

O movimento semestral das enchentes e vazantes, que domina a mídia, parece que pouco sensibiliza os responsáveis pela formulação de projetos que recuperem os rios de Manaus e os tornem elementos de bem-estar. A posição da mídia, no entanto, já anuncia um novo comportamento em passos mais objetivos na solução do problema. Não se devem relegar a segunda plana os frutos de um processo racional de aproveitamento desses recursos. Impõem-se ações coerentes de aproveitamento das águas, fonte de proteína originária do pescado, e da floresta, produtora de tantas iguarias como o açaí, a pupunha e o tucumã.

Mas é de se indagar que tem a ver isso tudo com a poesia? Ora, tudo tem a ver. Porque tudo isso constitui ele mento de vida, de uma realidade que se tornaria insípida e inabitável, se não se beneficiasse da ação do pensamento e da emoção. O poeta reage às condições físicas e espirituais da sociedade, com uma linguagem que lhe possibilita ser entendido por seus concidadãos. A ação poética muda a velha realidade e, em seguida, celebra a nova. Como se vê, por exemplo, nos poemas de Aldisio Filgueiras, ao assumir a palavra na conquista do vocabulário que lhe propicie expressar suas inquietações, no sentido da abertura da vida da cidade a novos caminhos.

Embora em essência a poesia seja um fenômeno uni versal, de afirmação do homem em relação ao mundo, tem sido vez por outra, instrumento de interpretação da vida em determinadas situações enfrentadas pela humanidade em casos específicos, de países, regiões ou cidades.

Um exemplo clássico desse fato são as Geórgicas, de Virgílio. O poeta inquietou-se com o estado da sociedade romana de então, que relegava a vida do campo movida pelos encantos de Roma e seus espaços de diversão. Daí o poeta realizar esse belo poema. Celebra a vida no campo, mas não prega o desamor à Roma, pelo contrário, constrói um canto de louvor à pátria e a Roma na celebração da prima vera, chamando a atenção para os cuidados que se deve ter pelas culturas rurais. Eleva o trabalho à condição de força da natureza, sensível à mudança das estações. Põe o cultivo das árvores na responsabilidade dos governantes e líderes.

Celebra o instinto sexual que domina em tudo de terminadas estações do ano, influindo na ordem natural, pondo como exemplo o desenvolvimento da modernamente designada agropecuária, na criação de gado, cavalos e ovelhas, na cultura da videira e dos vinhos. Atém-se ao comentário sobre a organização das colmeias e compara as abelhas com os homens em face da sociedade romana. Este é o ponto alto do poema, em que o poeta se atém em revelar a importância do comportamento político na relação entre as pessoas na coletividade e no destino da terra, do fogo, das águas e do ar. É, enfim, um poema didático, político e sociológico, dedicado à cidade.

A universalidade da poesia praticada no Amazonas ganhou novos fundamentos. O primeiro homem, herdeiro do homem primitivo constituído pelas populações pré-colombianas, praticou-a por meio do gestual, a dança e o som da palavra não escrita, à semelhança do que se observa na origem de todos os povos. As línguas ágrafas reunificadas, nos seus últimos momentos, construíram o Nheengatu, fenômeno de alfabetização também conhecido por língua geral. Com a colonização europeia e o do mínio da língua portuguesa, a fala assimilou palavras do antigo idioma praticado pelas primeiras populações da região. E assim resistiram à violência da ação colonizadora ao implantar sua cultura.

Nesses embates, simplesmente, foi proibido por lei o uso de palavras originárias do Nheengatu na denominação das cidades amazonenses. Apesar de tudo ficaram, na convivência entre as pessoas, o uso de palavras oriundas da língua geral, com elas sentimento, a inteligência e emoção com que os poetas amazonenses vieram criando uma poética nova, como contribuição ao seu contexto universal.

Na medida em que proclama os anseios e os ideais do homem amazonense, a poesia expressa as aspirações da sociedade, com uma fala repleta de palavras originais, com as quais, apenas com elas, o poeta é capaz de cuidar do que viu do que sentiu, com o raciocínio e a emoção, ao se integrar ao universo de águas e florestas, e da mitologia fundada pelas primeiras comunidades amazônicas, estabelecendo poética influenciada pelos motivos da Amazônia, na linha assimilada por Álvaro Maia quando, ao assumir a sua caboclitude, formulou o sistema de ideias conhecido por glebarismo.

*

Manaus, Praia da Ponta Negra,

em plena vazante do rio,

em setembro de 2020.

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49 BRUNO, Arquimedes (Fortaleza 1911-França 2003), sacerdote católico, professor e político, em palestra pronunciada na União dos Estudantes do Amazonas, nos anos de 1960.

50 Informação constante em Fundação de Manaus. 3. edição. Rio de Janeiro: Conquista. Coleção Academia Amazonense, 1973, de Mário Ypiranga Monteiro (Manaus 1909-2004), professor, escritor, historiador e folclorista.

51 Na geografia física da Amazônia, igarapés são caminhos de água, caminhos de canoa (igara canoa, pé = caminho, em Nheengatu) e permitem o acesso aos lagos. Suas nascentes são os H lagos. Os rios, não, os rios nascem nas cabeceiras, nos breves fios de água alargados no percurso até desembocar num mundo de águas maior. E assim se vai construindo a malha fluvial: o rio Amazonas recebe as águas de todos os rios da região e desemboca no mar. Os pequenos rios que banham a cidade de Manaus possuem suas cabeceiras em alguma parte da floresta e se alargam, banham a cidade até desaguar no Rio Negro.

(Capítulo Nono do livro: As Náiades e a mãe-d’água, do autor).

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