Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Caminhos da ‘evolução’

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Haverá alguma esperança aos chamados povos primitivos neste instante de triunfo do modelo de globalização econômica e uniformização liofilizada da cultura? Como sempre, é um tema que levanta mais perguntas do que estabelece respostas. Talvez seja interessante tentar compreender os povos indígenas, no contexto das mudanças pelas quais a civilização ocidental passou no que diz respeito à diversidade cultural.

Especialmente porque estas mudanças foram provocadas pela revelação da existência dos povos indígenas sob o impacto do processo colonial, transformando o pensamento europeu etnocentrista. O encontro com as outras civilizações obrigou o pensamento ocidental a uma reavaliação de suas disposições ideológicas e até mesmo à construção de um novo dispositivo psicológico, baseado na existência do outro e na observação empírica. O encontro com os povos americanos, até mesmo com a natureza do novo mundo, exigiu novas categorias.

Estas exigências ainda estão vigentes e não cessam de provocar rupturas no pensamento ocidental. Os povos indígenas são ameaçadores, da perspectiva do pensamento etnocentrista, não apenas porque estão no caminho do progresso, ocupando terras ricas em minerais ou por impedirem a expansão da frente econômica, mas porque eles desmontaram a velha descrição da cultura como algo exclusivo ao Ocidente e não inerente à natureza humana, o que obrigou a entender a variedade de outros num relativismo bastante vasto do ponto de vista histórico e antropológico. É evidente que a questão do relativismo já estava presente na concepção de mundo do Renascimento. Era até mesmo um ponto herdado do pensamento latino, que inspirado pela diversidade cultural e étnica da cidade de Roma, nos tempos clássicos, introduziu a noção da alteridade, ou seja, o estrangeiro, o não pertencente ao clã, o não cidadão romano, desde que não fosse escravo, não era exatamente um bárbaro, mas podia ter reconhecido o seu direito à diferença e os romanos podiam fazer um esforço para compreender o outro em sua especificidade. A epistemologia do relativismo fundamenta-se na chamada science de I’ homme, bem como na psicologia de Locke e na metodologia de Francis Bacon. Mas não era uma questão de fácil assimilação por parte dos europeus. Porque havia o esforço de unicidade do pensamento medieval, ainda bastante forte, que prescrevia uma lei universal, a lei natural, que acima das diferenças visíveis dos povos, regia toda a humanidade.

Iluminada pelas culturas do Mediterrâneo, o princípio da lei natural afastava qualquer ruptura, até mesmo se se confrontassem culturas aparentemente tão díspares, como a de Veneza no século XVI e o um califado do norte da África. Roupas, alimentos, leis morais, podiam aparentar uma diferença, mas não havia espaço de ambiguidade no que era o fundamental: as duas culturas não praticavam o canibalismo, respeitavam os mais idosos, etc. Com a América as coisas mudaram, pelo menos na moda que ambas as civilizações cultivavam, porém aquela dita primitiva parecia ser mais voltada para o humano que a outra. Quando os tupinambás visitaram Michel de Montaigne, o sábio ficou surpreso com a consciência social daqueles selvagens, espantados com a miséria do povo francês, embora ao sair notasse que aqueles’ senhores andavam com o traseiro descoberto.

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