Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Centro de mídias: Como se fez

Compartilhe nas redes:

Li, por estes dias, matéria que diz haver a Secretaria de Educação inovado ao criar seu centro de mídias, que agora completa 15 anos, todos de bons serviços, e isso me obriga a voltar ao tema de que tratei em artigo publicado em 26 de junho de 2020 sobre aulas, nas redes pública e particular do Amazonas, utilizando o modelo de ensino à distância, à vista do recolhimento que a todos impôs a pandemia de Covid-19, obrigando ao fechamento das escolas e manutenção dos alunos em suas próprias casas, para evitar maior e mais sofrido grau de contaminação e de pressão sobre a rede hospitalar, como se fazia no resto do Brasil.

Considero que vale rever de verdade a história das Instituições, que merece sempre ser dita com aprumo e segurança, porque é o que se transmite para as gerações futuras. É que essas aulas somente puderam ser transmitidas, em sua grande maioria, com utilização do hoje denominado Centro de Mídias da Secretaria de Educação, que nasceu em nossa Universidade do Estado do Amazonas nos idos de 2001 vinda sob o signo da inovação, ela sim, unindo a coragem à experiência de muitos que, como eu, servíamos à Universidade Federal, então a única entidade pública do setor. Desde o começo, a UEA buscou cumprir a obrigação de levar o ensino superior aos municípios do Interior do Estado, reconhecimento que recentemente ouvi, tomado de alegria e emoção, em propaganda institucional de um minuto posta em rádios e televisões da Cidade.

O ano era 2001, o de criação da Universidade por decreto de 02 de fevereiro, com minha nomeação para reitor no dia seguinte, e como nada havia que pertencesse à novel instituição, sequer uma única folha de papel, fui autorizado pelo governador, oficialmente, a utilizar a estrutura da Comissão Estadual de Licitação, que então presidia, e da Secretaria de Administração, de que era titular, enquanto iam sendo adotadas providências de formação da equipe, alocação de recursos orçamentários e financeiros específicos e o mais que era indispensável ao funcionamento regular. E foi assim que em maio realizamos o primeiro concurso vestibular, com mais de 180 mil candidatos, então o maior do Brasil, para vagas em Manaus, Parintins e Tefé.

Logo em seguida, o Chefe do Executivo incumbiu a UEA de cuidar da qualificação, em nível de graduação, de professores da rede pública de ensino de 1ª à 4ª série, hoje 1º ao 5º ano, para habilitar o Estado ao cumprimento de exigência de lei federal que impunha o dever desse aprimoramento profissional até o final da chamada década da educação.

Estávamos falando de graduar aproximadamente 15 mil docentes, o que seria feito com recursos financeiros transferidos pela Secretaria de Educação e Qualidade do Ensino e, em alguns casos, por secretarias municipais, pela inclusão de professores de seus quadros.

Como deixei registrado no artigo que aqui já referi, constituí grupo de assessores incumbido de programar curso de Pedagogia, ou Normal Superior, com a maior abrangência possível e o projeto que recebi contemplava 3.500 alunos-professores em formação em Manaus e mais 9 municípios do Interior, com investimento de 74 milhões de reais em quatro anos. Não era possível ir além por falta de professores – doutores, mestres e especialistas – em quantidade suficiente para deslocar a mais municípios, além do alto custo em que isso importava. Impossível atender à demanda, visto que o curso não se poderia desenvolver em quantidade de horas menor à correspondente a oito semestres de aulas e o tempo disponível era pouco mais de um lustro. Embora fosse grande a quantidade de professores/alunos que atenderíamos com o tradicional ensino presencial, só conseguiríamos chegar a pouco mais de 20% do total e, obviamente, o processo de escolha de municípios a contemplar seria inevitavelmente discriminatório, com desrespeito ao princípio da isonomia que tenho por radial no texto de nossa Constituição.

Tomei conhecimento de experiência desenvolvida por um professor em Palmas, capital de Tocantins, que utilizava rede de televisão para transmitir aulas proferidas a partir de um pequeno estúdio que instalara. Fui conhecer o trabalho em companhia do saudoso professor Jorge Smorigo, que depois me substituiria na Secretaria de Administração, e, avaliando os custos do programa, ousamos os dois imaginar transpor a novidade para o estado continental do Amazonas, naturalmente que com a obrigação de enfrentar todas as dificuldades de comunicação entre Manaus e a grande maioria dos municípios do Interior, sobretudo os mais distantes, cujo acesso à rede de internet era precário. Mas a ideia nos animou, assim como ao pró-reitor Carlos Eduardo, e uma semana depois estávamos os dois no Rio de Janeiro, em contato com a Fundação Getúlio Vargas e com a ex-coordenadora de programa que se denominara Telecurso de 2º grau, da rede Globo de televisão.

Realizamos reuniões em um pequeno salão do Hotel Sol Ipanema, com a participação do professor e empresário Giraldez, da Fundação, que viria a ser o responsável pela coordenação dos trabalhos de transporte, montagem e instalação dos equipamentos e do necessário treinamento. Em setembro, recebi da FGV projeto de formação de professores que não atenderia somente aos 3.500 do curso presencial, senão que a quase 10.000 professores-alunos de Manaus e de todos os 61 municípios do Interior do Amazonas. E, também importante, a ousadia da inovação correspondia a investir R$ 54 milhões em lugar dos R$ 78 milhões com que se realizaria o curso presencial, atendendo a uma clientela quase três vezes superior.

Como a Universidade ainda não possuía prédios próprios no Interior, salvo em Parintins e em Tefé, onde as aulas de graduação já ocorriam desde o início de agosto, porque só no semestre seguinte receberíamos os 13 cuja construção determináramos, o caminho foi utilizar escolas da rede pública estadual, sem prejuízo qualquer das atividades regulares, porque o curso se realizaria durante os recessos do início e do meio do ano, em jornadas de 8 horas diárias, de segunda a sábado.

Em novembro realizamos o vestibular e a 5 de janeiro de 2002 foi proferida a aula inaugural do maior projeto de formação de professores da história do Amazonas, com mais de 7.000 alunos em 154 salas de aula de todos os municípios hinterlandinos e mais de 2.500 em Manaus. Naquele dia, o governador e o reitor falamos pela vez primeira para todo o Estado, em rede particular de televisão.

A novidade era de todo desafiadora. Alugamos, junto à EMBRATEL, uma banda de satélite e instalamos em cada escola antena parabólica para receber sinal de televisão em rede fechada e em cada sala de aula monitor e aparelho de tv da maior dimensão que havia, computador com bateria de suporte e acesso à internet, além de telefone que permitia a comunicação com call center instalado em Manaus para perguntas e respostas entre os agentes do processo. Em cada escola, um gerador de energia, para suprir as constantes quedas de fornecimento. Aqui, no edifício Samuel Benchimol, um estúdio de televisão com os equipamentos mais modernos da época permitia a transmissão para todo o Estado, em tempo real, de aulas que eram ministradas ao vivo por um grupo de cinco professores, doutores ou mestres, para cada disciplina, com a orientação, em cada sala, de um professor-assistente, especialista convenientemente treinado no modelo. A este competia, também, a coordenação das atividades de dinâmica de grupo programadas pelos doutores que se revezavam a cada 30 minutos das aulas que se desenvolviam das 8 às 12 e das 14 às 18 horas, de segunda a sábado, no período de férias escolares, em janeiro, fevereiro e julho, portanto. Além disso, biblioteca especializada criada em cada escola, com livros em quantidade proporcional à de alunos por município, e textos de apoio de cada assunto e de cada disciplina, produzidos pelos doutores e mestres, distribuídos semanalmente, com regularidade absoluta, a todos os alunos, utilizada a rede de transporte rodoviário e, sobretudo, a fluvial e a aérea, do que cuidava o assessor Raimundo Lasmar. Como indicado em relatório relativo ao período de 2001 a 2006, da UEA, foram produzidos, para a primeira e a segunda turmas, 60 títulos, com 492.000 exemplares distribuídos no Interior e 91.520 na Capital, além dos 24.324 outros livros nas bibliotecas. Foi o que se denominou de Ensino Presencial Mediado por Tecnologia, expressão até hoje utilizada na Universidade, nos cursos que realiza, e na Secretaria de Educação.

Era o PROFORMAR, que o doutor Valmir Albuquerque, ex-reitor da UFAM, pró-reitor da UEA e também professor do Curso, afirmou ter o mérito, dentre muitos, de permitir que aproximadamente 10.000 alunos recebessem ao mesmo tempo aula de igual teor, ministrada pelo mesmo professor, como uma turma única, a maior de que se tem notícia até hoje no planeta, além de garantir a ministração de todas as aulas previstas e de todo o conteúdo programático estabelecido, conjunto do qual resultou extraordinário índice de aproveitamento no processo ensino-aprendizagem. E mais, digo: ao final, exigiu-se a realização de estágio e a apresentação e validação de monografia para obtenção da graduação. Esses trabalhos devem, todos, continuar compondo o arquivo geral da Universidade.

Foi assim que em 2005 presidi, em conjunto com o governador Eduardo Braga, a formatura de aproximadamente 7.500 alunos-professores de todos os municípios do interior do Amazonas, com entrega de diploma a cada formando em solenidade conduzida por representante da UEA na localidade, praticados todos os atos protocolares pertinentes. Logo em seguida, graduaram-se os de Manaus. E a eminente doutora Marilene Correia, segunda reitora, extraordinária educadora e socióloga respeitada além-fronteiras, deu sequência à formação da segunda turma, desde 2007.

Foi esse modelo, várias vezes premiado, inclusive pela UNESCO, que permitiu que a UEA se transformasse, desde o quinto dia de seu segundo ano de funcionamento, na maior universidade multicampi do País e que garantiu, sob a coordenação da professora Marly Honda, a realização de vários outros cursos, como a graduação de 930 cientistas políticos em 13 municípios, ou no Ensino da Matemática para suprir lacuna histórica na nossa educação, para ficar em apenas dois exemplos. Hoje, o modelo é utilizado em larga escala, com a modernização exigida, a partir do que se denomina Centro de Mídias da UEA.

Anos depois, assessor do professor Carlos Eduardo Gonçalves, pró-reitor de Ensino de Graduação, o professor Gedeão Amorim, que também coordenou o Programa, foi nomeado Secretário de Estado de Educação e implantou o modelo do PROFORMAR, incorporando novas tecnologias então disponíveis, em centro de mídias que ainda hoje funciona na Secretaria, para formação de alunos do ensino médio de escolas da zona rural do Interior. Tudo isso até rendeu a nomeação, por duas vezes, de um Secretário em outro estado da federação, como também de um ministro da Pasta própria.

Eis como foi feito o Centro de Mídias do Estado, que existe na UEA, onde nasceu, e na SEDUC, hoje convenientemente modernizado inclusive com a implantação de câmeras que permitem contato direto e com imagem entre professores e alunos remotos, segundo li, mas que não tem apenas 15 anos, como informado, visto que completará no próximo 5 de fevereiro 21 anos, contados da primeira aula ministrada utilizando o modelo que a tantos encanta, além-fronteiras, e que a tantos serve. Afinal, o Led hoje usado como conquista da modernidade não retira de Thomas Edson o privilégio histórico de haver inventado a lâmpada elétrica.

Compartilhe nas redes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

COLUNISTAS

COLABORADORES

Abrahim Baze

Alírio Marques