Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Crônicas do cotidiano: “Adoro passarinhos, mas tenho lembranças tristes ao ouvi-los”

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Nos tempos difíceis da vida brasileira, o nosso jornalismo foi se especializando em passarinhos e coisas da alma, que para alguns podem ser vistas como um culto à banalidade no seu sentido lato e não como resultante da “banalidade do mal”, cujo significado explica todo um tempo histórico no qual vem se enredando parte da humanidade, politizada na ideologia fascista. Escrever é a função do jornalista. Sentir e expressar o cotidiano é obrigação e conteúdo da prosa jornalística. Investigar, descrever o contexto, estabelecer relações entre fenômenos e acontecimentos, juntar e pesar opiniões, resulta em trabalho ofegante e competente que o jornalista tem que fazer todos os dias. E não o faz somente por que quer, mas porque este é o seu trabalho ou o seu “métier”, como diziam os primeiros professores de jornalismo, quando este ainda era tido como uma “profissão liberal”. Os tempos difíceis da Ditadura Vargas e seu Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em 1939, garantiu ao Estado Novo o “reinado dos passarinhos”, já que não era possível falar de nada que contrariasse o poder e seus asseclas. A Ditadura Militar de 64, apoiada por civis, trouxe de volta, não só os passarinhos como também os “versos de Camões”, no Estadão, e as receitas culinárias, nos diversos jornais que tinham suas matérias censuradas e faziam questão de mostrar que ali havia censura de conteúdo relevante. Um radialista nosso e dono da Rádio Difusora de Manaus, depois de perder os direitos políticos, o que não é pouco e é tudo para um jornalista, para continuar o seu trabalho, passou a falar de “passarinhos que amanheciam cantando” e “horóscopo”. Meu amigo Erasmo Linhares, também radialista, do mais alto quilate na Rádio Rio Mar, vivia com caroços de avelã na boca, fazendo exercícios, na tentativa de recobrar a voz e seu espaço na rádio, depois de ser preso, torturado nos porões da ditadura e humilhado na vida, por coadjuvantes da “dita cuja”. Ele já não podia mais falar em passarinhos, perdeu, parcialmente a voz e os direitos políticos, o que era mais grave. Mas não perdeu a dignidade! Os passarinhos, com seus trinados e acordes, aguçam nossos sentimentos e enfeitam a natureza. Talvez por isso, foram capturados em gaiolas e apropriados pelos agentes do autoritarismo, para lembrar aos que nunca tiveram voz ou a perderam, que não podem dizer tudo o que povo precisa saber.

Restaurar a liberdade de imprensa foi, portanto, uma das primeiras providências da redemocratização do país. Os conglomerados de comunicação formados a partir das benesses do DIP, que falavam bem dos governos autoritários, tiveram dificuldades para sobreviver. Os que foram criados depois disso, ou conseguiram sobreviver, abrigaram-se no braços do “deus mercado” e na crença da “aldeia global”, engendrada pelas novas tecnologias de comunicação que, por sua vez, desaguaram na internet, e quase mataram o jornalismo convencional, também conhecido como parte da “mídia tradicional”. O jornalismo econômico ganhou importância e passou a balizar as análises e interpretações da vida cotidiana, orientando os comportamentos consumistas até que “algoritmos”, manipulados pelas redes sociais e de informação, assumissem essa tarefa. Como eles não são humanos (ainda), a crise trouxe de volta o jornalismo político, a discussão do que se descortina aos nossos olhos como ação concreta da “banalidade do mal” e invadiu tudo, inclusive a internet, com checagem da ação deletéria dos que se escondem por trás dos robôs para disseminar “fake news”.

Essa força que nos anima agora, se estende na amplidão de um campo de Girassóis sem Espantalhos, pronto para alimentar passarinhos famintos de comida, de afeto, de liberdade, de efetividade de direitos e de garantias de uma vida melhor. Que os passarinhos venham e nos alegrem em vez de nos entristecerem! Que venham logo, o mais depressa que for possível: Amanhã!

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