Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Crônicas do cotidiano: “O espelho cristalino que ao meio-dia reflete a luz do sol”

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“Adeus Segunda Feira Cinzenta”, canção de Zé Ramalho, lançada em 1978, foi, é e continua instigante, desde que a ouvi pela primeira vez: “Eu tenho um espelho cristalino/Que uma baiana me mandou de Maceió/Ele tem uma luz que alumia/Ao meio-dia reflete a luz do sol”. Cada palavra da letra é como se acendesse uma lâmpada a refletir nesse “espelho cristalino”, posto no chão de nosso país, em plena e cruel Ditadura, quando “o tempo mentindo/que o vento do norte não sabe soprar”, forçava Os Novos Baianos a lutarem por um lugar ao sol e contra as adversidades, impostas pelas modas do sul maravilha contra suas “flores de cacto”.

Essa inquietação atenuou-se um pouco quando conheci e bati cabeça lendo o conto “O Aleph”, de Jorge Luís Borges, que dá título a uma de suas obras, de 1949, editada em português, no Brasil, pela Companhia das Letras. No conto, esse Borges humano, universal e místico, faz o mundo conter-se dentro de uma esfera mágica, por ele tomada como “Aleph”, com todas as nossas vivências pessoais e as vivências como coletivos, que servem a todos, porque todos, inevitavelmente, passam por elas de uma forma ou de outra e a seu modo e a seu tempo. A parte de cada um nunca é menor que o todo no cômputo universal. A mais desigual das criaturas humanas, o menos sortudo, frente aos poderosos e os mais aquinhoados, leva, de igual modo, as grinaldas de delícias e os fardos de misérias de seu tempo e mais, aqueles que foram deixados nas prateleiras pelas gerações passadas. Uns veem tudo isso como uma conjuração divina ou de uma divindade de muitas faces, sem deixar de ser una. Outros veem nisso apenas um discurso do sagrado para subtrair dos humanos o seu livre arbítrio; outros, ainda, uma mera ilusão.

Borges descreve o Aleph (literalmente – aleph – é a primeira letra dos alfabetos das línguas dos povos da antiguidade e que antecederam o nosso alfabeto) como um ponto inicial e, ao mesmo tempo, o ápice mágico, imaginário e virtual, a permear a consciência de quem tem o privilégio de percebê-lo na sua busca pelo entendimento do mundo; um “espaço cósmico”, diminuto, incrustado em algum lugar, para o qual convergem e se concentram em amálgamas todos os pontos do universo: os seus acontecimentos, em diferentes espaços de tempos das vivências; e as geografias apropriadas pelos homens. No conto, o narrador é levado ao porão da casa de um amigo onde desenrolaram-se muitas das vivências de ambos e onde esse amigo afirma a existência de um “Aleph”, de onde tirava as suas visões de mundo e com elas estava a compor um longo poema sobre a humanidade, cheio de equívocos, no pensar do narrador. Para os analistas de Borges, esse conto é uma das obras-primas da literatura universal.

No momento em que recordamos os que foram ou vieram do Norte (dependendo do lugar de cada leitor) para compor esse patchwork da cultura nacional, que podem ser “Os Novos Baianos”, os que nos deixaram e os que estão completando ou beirando os oitenta anos de vida; no momento, também, em que o pensamento tosco e as vibrações maléficas dos vários hemisférios convergem para pontos nevrálgicos, gerando todos os tipos de violências, eu reponho o disco de vinil na vitrola para capturar o sentido de cada palavra, de cada visão que aflora como se fosse o Aleph do alfabeto e da linguagem nordestina de Zé Ramalho, com o seu “espelho cristalino” ou a visão mais trágica do “Pavão Misterioso”, de Ednardo (José Ednardo Soares Costa Sousa), que nos ronda, nos consome como se fosse um falso “Carcará”.

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