Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Crônicas do cotidiano: O Profeta Daniel, a religião e a política

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Longe de mim fazer blague da religiosidade alheia. Faço, sim, objeções ao uso de práticas passíveis de ludibriar os outros, pensando que são “tábulas rasas”. O caso se refere ao vídeo do líder da Igreja Universal, que circula pela internet, pregando um tal “Jejum de Daniel”. Seria somente extemporâneo se não fosse, mais que isso, potencialmente pernicioso. Diz a Bíblia e o Google a reproduz: “Daniel e seus amigos fizeram um jejum no qual comeram legumes e água por 21 dias, para não se envenenarem com a comida do rei, que era um idólatra”. Repaginado para os dias de hoje, o Jejum de Daniel, como rito na denominação religiosa pentecostal, foi proposto aos fiéis como jejum às “informações seculares”, preparando-os espiritualmente para receberem o Espírito Santo, realizado entre os dias 28 de agosto e 18 de setembro, próximo passado, coincidentemente, no período eleitoral.

Daniel é uma figura bíblica admirável do Velho Testamento, venerado por Judeus, Cristãos e Muçulmanos por sua sabedoria, por suas habilidades políticas e predições assertivas sobre o destino dos poderosos, dos povos vitoriosos ou cativos e, sobretudo, pela capacidade de fundir poder terreno com poder divino e orientar os reis nas suas guerras e influenciar as massas na direção da submissão a um “ungido por Deus”, que salvará os oprimidos. Judeu, foi levado como escravo para a Babilônia, serviu à Nabucodonosor e a Ciro (Rei dos Persas), sem deixar de ser fiel a seu Deus. Uma bela estória, para uns de inspiração e fé, para outros, uma possibilidade de estelionato religioso, vislumbrando a associação do Profeta aos seus falsos “mitos”, com “pés de barro”.

O “Jejum de Daniel”, imposto aos fiéis em período eleitoral, com a abstinência do esclarecimento que os meios de comunicação podem oferecer, impediria ao eleitor formar a consciência sobre o seu voto nos que irão representá-lo e, obedientemente, entregar aos que ficam acordados o direito de pensar por ele. É por essas e outras coisas que nos obrigamos a pensar o quanto é séria, ainda em nossos dias, a ingerência religiosa na política. Um Bispo, que não é um qualquer, pois é dono, também, de um conglomerado de comunicação, propõe um jejum dessa natureza, evocando o Profeta Daniel, quem sabe, na mira de outros interesses.

O que jejuou fazendo abstinência às “notícias seculares” deixou de tomar conhecimento: das ameaças à democracia, que resultaram no sequestro do 7 de Setembro; das filas imensas de brasileiros que não conseguem fazer o cadastro para o “Auxílio Brasil”; das medidas do Congresso para turbinar candidaturas sem indicar as fontes de financiamento; dos escândalos do Orçamento Secreto; da morte da Rainha Elizabeth II e da comitiva Presidencial que levou as condolências do Brasil e incluiu, além do Presidente e Esposa, o maquiador da primeira-dama, um pastor evangélico e um padre – quando há tantos em Cantuária, o chefe de sua campanha política – que providenciou o comício das janelas da embaixada, e um filho; das reivindicações dos militares por protagonismo no processo eleitoral; dos resultados das pesquisas de opinião e voto para as próximas eleições. Não sabiam, ainda, que o Roberto Jefferson protocolou Ação junto ao Superior Tribunal Militar, pedindo punição para o Presidente da República e para o Ministro da Defesa, com base no Art.142 da CF (mal interpretado por juristas com o primário mal feito e pelas “vivandeiras dos quartéis”), por não acionarem as Forças Armadas contra o Senado e o STF. Ufa!, felizmente, todos que jejuaram ou não, “acordaram” a tempo de pagar os boletos, seculares ou não.

O profeta Daniel foi mais esperto, fez o jejum alimentar; bem-informado sobre as coisas divinas e terrenas, viveu muito, salvou-se até da boca dos leões. Tanto é que preferiu ficar na Babilônia, dizem alguns historiadores, mesmo após o cativeiro a que foi submetido o seu povo.

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