Manaus, 10 de fevereiro de 2026

Duzentos anos de miscigenação judaica na Amazônia

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*Dr. Simão Arão Pecher

Após ser firmado entre o Brasil e a Grã-Bretanha o Tratado de Comércio e Navegação e Aliança e Amizade em 1810, iniciou-se a imigração para a Amazônia de muitos judeus de Marrocos, onde viviam agrupados em guetos (Mellahs) nas cidades de Fez, Tanger, Tetuan, Casablanca, Rabat e Marrakesh. Após a extinção da Inquisição em todo território português em 1821, bem como a Proclamação da Independência do Brasil em 1822 pelo Imperador D. Pedro I, foi inaugurada em 1824 a primeira sinagoga da Amazônia na cidade de Belém (capital do Estado do Pará), denominada “Essel Avraham” e, em 1842, o primeiro cemitério israelita, também na cidade de Belém.

Com o início do Ciclo da Borracha em 1850, grande número de emigrantes judeus marroquinos foram atraídos para a Região Amazônica. Em 1866, D. Pedro II decreta a abertura para a navegação mercante do Rio Amazonas e seus afluentes a todas as nações, contribuindo ainda mais para a chegada de mais israelitas sefaradim, não só de Marrocos bem como da Península Ibérica. Em 1889, ano da Proclamação da República do Brasil, foi fundada a segunda sinagoga da Amazônia, também em Belém do Pará, denominada “Shaar Hashamaim”. Em 1890, pelo Decreto 119 de 7 de janeiro, instituiu-se o princípio de plena liberdade de culto, abolindo a união legal da Igreja Católica com o governo.

A denominação de sefaradim foi instituída desde os tempos bíblicos do grande Rei Salomão, Z’l, para se referir aos que constituíram vilarejos na Península Ibérica (Sefarad), hoje Portugal e Espanha. Com o advento da explosão do Ciclo da Borracha em torno de 1880, muitos nordestinos migraram para a Amazônia devido à seca nos seus estados. Grande número de europeus, principalmente portugueses, ingleses e franceses aqui chegaram, como também sírio-libaneses.

Os israelitas vieram em sua maioria do Marrocos Espanhol (Tetuan e Ceuta) e falavam espanhol e haquitia (dialeto que mesclava o hebraico, espanhol e árabe); do Marrocos Francês (Casablanca); do Marrocos Árabe (Fez, Rabat e outras vilas do interior) onde habitavam os “toshabim” (nativos), chamados de “forasteiros” pelos “megorashim“, expulsos de Espanha e Portugal pela Inquisição. Esta onda imigratória teve como base a dificuldade de sobrevivência nos guetos marroquinos devido à superpopulação, doenças contagiosas, perseguição e prisão de judeus. Vieram atravessando o Oceano Atlântico em barcos em busca do Eldorado no Novo Mundo, o sonho de liberdade material, mental e, sobretudo, espiritual.

Em Manaus (capital do Estado do Amazonas), foram fundadas duas sinagogas: a “Beit Yaacov” (1928/29), dos “megorashim” (expulsos de Portugal e Espanha), e a “Rabi Meyr”, dos “toshabim” (nativos do Marrocos) ou “forasteiros”; e um cemitério, em 1929. Com o declínio do Ciclo da Borracha, muitos correligionários saíram de Manaus e Belém, indo a sua maioria para o Rio de Janeiro e São Paulo, sendo que, em 19 de janeiro de 1962, foi inaugurada a Sinagoga “Beit Yaacov Rabi Meyr”, fusão das duas até então existentes em Manaus. Muitos túmulos com inscrições em hebraico estão misturados com outros túmulos no Cemitério São João Batista de Manaus, diferenciados pela Estrela de David, dentre eles o do Rabi Shalom Imanu El-Muyal, Z’l, o “Santo Milagreiro” para os católicos da cidade, que faleceu em 1910.

Milhares de judeus viveram na calha do Rio Amazonas (rios Solimões – da fronteira do Peru a Manaus – e Amazonas – de Manaus a sua foz em Belém) nas cidades de Macapá (Amapá), Cametá, Óbidos, Faro, Itaituba, Santarém (Pará), Parintins, Maués, Itacoatiara, Manacapuru, Tefé, Coari (Amazonas) e seus afluentes principais (rios Madeira, Mamoré, Guaporé, Purus, etc.); alguns chegaram a Iquitos, Contamana, Yurimaguas e Caballococha, no Peru.

As escolas da Aliança Israelita de Marrocos propiciaram uma boa educação aos emigrantes pobres ao se transferirem para o Norte brasileiro, que aqui chegavam após seus Bar e Bat-Mitzvah (maioridade judaica) com o sonho de sobrevivência contra as adversidades na Região Amazônica, denominada de “Hyloea” pelo naturalista Alexandre Von Humboldt. Tentavam se estabelecer no Brasil, adaptando-se e aculturando-se às condições locais e, ao mesmo tempo, empenhando-se na preservação das tradições hebraicas de seus ancestrais.

Alguns se estabeleciam nas capitais, nas cidades e nos vilarejos ao longo da grande calha do Rio Amazonas, fundando armazéns e casas comerciais que forneciam roupas, comestíveis, remédios e outros utensílios em troca de castanha, borracha, sementes oleaginosas, frutas e outros artigos extraídos da grande floresta que eram trazidos pelos nativos. Muitos mascateavam pelos rios em embarcações, comprando o extrativismo e vendendo produtos adquiridos em Belém e em Manaus. Esses pioneiros enviavam ajuda financeira para suas famílias no Marrocos. Alguns retornavam para suas famílias após algum tempo, sendo que a maioria ficava morando nos vilarejos às margens dos rios da grande Bacia Amazônica durante muitos anos, acabando por se miscigenar com a população nativa, cabocla e com outros imigrantes aqui chegados.

Os muitos religiosos estabeleceram seus comércios nas capitais e ali constituíram famílias judaicas, frequentavam as sinagogas e conservaram sua identidade israelita, principalmente nas três grandes festas hebraicas do Rosh Hashanah (Ano Novo), Yom Kippur (Dia do Perdão) e Pessach (Páscoa), além, é claro, de conservar o Shabat (Sábado). Devido ao convívio com as populações locais, os e as israelitas foram casando ou se juntando com os não judeus e acabaram por abandonar a religião de seus ancestrais. Poucos e poucas conseguiram converter seus cônjuges não judeus, filhos e filhas ao judaísmo.

Não por menos, nomes sagrados aos israelitas como Levy e Cohen, famílias de sacerdotes do Templo de Israel, ficaram isolados no grande “hinterland” amazônico; alguns casando com não judias e conservaram sua identidade judaica somente no sobrenome, sendo catequizados pelos religiosos católicos. Também algumas pessoas de famílias que se iniciam com o prefixo BEN (do hebraico: filho de) e outras de sobrenomes mais variados tiveram a mesma sorte. Muitos foram convertidos ao protestantismo. Para fugir da perseguição aos judeus imposta pela Igreja Católica, ainda do resquício da Inquisição, muitos israelitas trocaram seus primeiros nomes ou sobrenomes, aportuguesando-os com aproximação sonora. Devido ao “boom” do Ciclo da Borracha no fim do século XIX e início do século XX, até mulheres judias polacas, pobres, foram contrabandeadas da Europa para o serviço de exploração sexual, gerando alguns descendentes.

Alguns judeus chegaram a ser prefeitos em cidades amazônicas, tais como Itacoatiara (Izaac José Pérez, Z’l), Macapá e Afuá (Eliezer Levy, Z’l); outros foram juízes como Chacon, Z’l (Santo Antônio do Madeira) e juízes suplentes como Moysés José Bensabaht, Z’l e José da Penha, Z’l (Amazonas) e meu tio Isaac Jayme Zagury, Z’l (Macapá, capital do Amapá). Poucos israelitas oriundos da Europa Oriental, chamados de asquenazim, aqui chegaram. Meu pai, Nuta Wolf Pecher (conhecido como Nathan), Z’l, asquenazi, neto do rabino Yehuda Beer Pecher (Z’l), fugindo da Romênia entre as duas grandes guerras mundiais, atravessou os mares Atlântico e Pacífico, indo morar no Peru, primeiro em Lima e depois em Iquitos, onde fundou o cemitério judaico local. De vapor, veio descendo a calha do Rio Amazonas, tal qual o explorador espanhol Francisco de Orellana, passou por Manaus e foi trabalhar em Belém, quando se casou com minha mãe, Syme Zagury Pecher, Z’l, de família sefaradi, também neta de rabino (Rabino Yousef Zagury, Z’l). A Ketubah (certidão de casamento) deles, escrita em hebraico, relíquia para minha família, assim descreve esta ascendência.

Desde a metade do século passado, muitos descendentes de famílias judaicas ou mistas continuaram a trabalhar em comércios dos seus pais ou antepassados, enquanto outros estudaram em faculdades, chegando a exercer as profissões de médicos, advogados, engenheiros, farmacêuticos, economistas e professores. Segundo o grande amazônida Prof. Samuel Benchimol, Z’l, estima-se em quase trezentos mil o número de descendentes de israelitas que vivem na Amazônia, a grande maioria já afastada do judaísmo, professando outras religiões.

Atualmente, existem em torno de quatrocentas famílias hebraicas em Belém do Pará e mais ou menos duzentas famílias em Manaus. Comunidades muito menores em Macapá (Amapá) e Porto Velho (Rondônia) recentemente fundaram suas sinagogas, pois tem que haver pelo menos dez judeus (minian) para as orações. O grupo étnico judaico na Amazônia é multicolorido na sua tez, desde branco (leucodermo) até mulato (faiodermo), devido à assimilação e à miscigenação com os povos aqui encontrados, tanto nativos como imigrantes europeus e árabes nestes duzentos anos de convívio saudável, o que espero que continue por muitos e muitos milênios.

*Dr. Simão Arão Pecher, além de sua atuação clínica, foi professor titular da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e é membro da Academia Brasileira de Médicos Escritores (ABRAMES). Sua trajetória é marcada pelo humanismo, expressando-se também como artista plástico e pesquisador da história da imigração judaica na Amazônia. Em 2013, foi agraciado com a Medalha de Ouro Cidade de Manaus por sua inestimável contribuição científica e cultural à região.

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