Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Eis tremendo mistério

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O Federalismo brasileiro é uma ficção. Aqui há um governo central que abocanha o grosso dos recursos e mantém as desigualdades regionais. Os estados e municípios vivem à míngua. Não somos os maiores pagadores de impostos do mundo, como certa mídia nos faz crer. A questão é que pagamos muito em relação ao que o Estado nos dá em troca. Comparando com outros países, os serviços prestados pelo Estado são precários e insuficientes. Não falta dinheiro para a saúde, educação e segurança, mas a maior parte dos recursos escapa pelos ralos da má gestão e da corrupção. Por certo o nosso território é vasto, mas a geografia nunca foi destino. O País fez opções erradas no passado e continua repetindo os mesmos erros estratégicos. Os países de grandes territórios trataram de ligar as regiões a partir do século XIX, usando a tecnologia de ponta da época que era a estrada de ferro.

Os Estados Unidos construíram a Transcontinental Railroad (1863- 1869) que liga o leste ao oeste. Na Europa, o país mais atrasado, a Rússia, cortou seu gigantesco território com ferrovias. A Inglaterra tratou de conectar suas cidades com estradas de ferro e de rodagem deste o século XVIII. O que fizemos nós? Nos anos 70, um pouco antes da crise do petróleo, o Brasil desmantelou suas ferrovias e optou pelas estradas de rodagem, incentivou a indústria automobilística e negligenciou o transporte de massas. Para piorar a situação, desprezou a navegação de cabotagem. Hoje temos um País mal conectado por via aérea, que é modal mais dispendioso. E o Centro operacional do sistema aéreo está em Guarulhos, São Paulo, cidade que fica longe de tudo, nos confins da América do Sul. No campo da informação, também estamos nas mãos da grande imprensa centrada no centro sul cada vez mais rasa e ideológica. Não temos um suplemento cultural como o BABÉLlA, do EI País, ou um New York Book Review. Regendo esse desencontro nacional está Brasília, com um sistema político cada vez mais autista, ignorando solenemente as aspirações do país, centralizando tudo de forma autoritária, como se as regiões não tivessem vida inteligente. Não há intercâmbio regional porque nunca o país foi capaz de estabelecer uma política cultural livre do populismo, porque o populismo e o combustível que move a política brasileira nos últimos 100 anos. Imaginem uma política cultural voltada para dar conhecimento do Brasil aos brasileiros! Uma política capaz de promoverem larga escala, como este país gigante merece, a circulação efetiva de seus artistas e das artes, sem os antolhos do multiculturalismo que está ajudando a balcanizar a nossa cultura, nos dividindo ainda mais. O multiculturalismo é uma ideologia de países segregacionistas, que quer cada um em seu nicho social sob a máscara do respeito, porque o multiculturalismo só respeita àqueles que conhecem o seu lugar.

Nossa vocação é de mestiçagem, não adianta esconder isto cercando com o arame farpado das boas intenções populistas os quilombolas, por exemplo.

Autodeterminação aos quilombolas! A nossa sorte é que a produção teatral, como a cultural que aqui temos, é de alto nível e não nos deixa sentir qualquer tipo de isolamento. Ao contrário, quando assistimos a um espetáculo extraordinário, como foi a encenação integral do ANEL DOS NIBELUNGOS, do Wagner, ficamos com pena daqueles que lá no distante sul não puderam se encantar com esta experiência. Do teatro do sul aqui chegam celebridades globais que veem decorando o texto no avião, ou a praga atual de comediantes stand up. Já tivemos melhor comunicação nacional. Assistimos aqui BOCA DE OURO, com Milton Moraes no papel do bicheiro; O SANTO INQUÉRITO, ESPERANDO GODOT, O REI DA VELA e até mesmo as Revistas do Walter Pinto …. Como conseguiam isso sem leis de incentivo? Eis tremendo mistério.

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