
*José Lins
“Estrada Manaus Itacoatiara”, obra de José Lins, é aqui republicada em série com a devida autorização gratuita do Governo do Estado do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, Departamento de Gestão de Bibliotecas (DGB) e seu Centro de Documentação e Memória da Amazônia (CDMAM). A republicação tem fins exclusivamente históricos e culturais.
EDITADO PELO GOVÊRNO DO ESTADO DO AMAZONAS
Secretaria de Imprensa e Divulgação
Palácio Rio Negro
Continuação…
A Am-1, Sua Extensão,
Finalidades e Características
O percurso da estrada Manaus -Itacoatiara é de 286 quilômetros, que atravessa rios e igarapés, cortando o barraco e penetrado a floresta. O seu marco do quilômetro zero, em Manaus, onde se inicia a rodovia, está situado na rua Recife, depois da praça “N. S. de Nazaré”, no Bairro de Adrianópolis. Da sua extensão total, setenta e quatro quilômetros encontram-se completamente pavimentados e nove apenas imprimidos, êstes compreendendo uma leve camada de asfalto, nas proximidades do rio Prêto. Após o rio Prêto, a partir do quilômetro cinquenta e seis até o quilômetro cento e quarenta e cinco a rodovia encontra-se em estado de terraplenagem definitiva, à espera da primeira camada asfáltica, permitindo normalmente, no entanto, o tráfego de veículos. Com as mesmas características apresenta-se o trecho compreendido entre o quilômetro 192 e as proximidades da cidade de Itacoatiara.
RIOS PRÊTO E URUBU – No quilômetro 79 encontramos, com uma largura de 24 metros, águas escuras e correndo abundantemente o rio Prêto. Sabe-se que nesse rio há variadíssimas espécies de peixes, que são aproveitadas pelos moradores mais próximos, como um dos produtos básicos de sua alimentação. Quanto a possibilidade da existência de minérios nesse rio, transcrevemos um relatório das sondagens de reconhecimento do subsolo para estabelecimento das fundações de ponte sôbre o mesmo, que é do seguinte teor:
“1 – INTRODUÇÃO
1 – 1 – Finalidade das sondagens – determinar o perfil geológico e as resistências oferecidas à penetração de um barrilete amostrador padronizado, pelas diferentes camadas constitutivas do terreno, a fim de obter elementos para o cálculo da supra mencionada pontes.
1 – 2 – Processo utilizado – utilizamos o de percussão com circulação de água, utilizado pelos Institutos Tecnológicos brasileiros consistindo de camisa de 50 mm, tubo de lavagem de 25 mm, barrilete amostrador padronizado de 32 mm, pêso de bater de 65 kg. e altura de 75 cm.
1 – 3 – Norma adotada – para o presente trabalho adotamos a Norma brasileira NB.12R – Normas gerais da exploração de subsolo para fins de Engenharia de Fundações.
1 – 4 – Datas de realização dos serviços – 18 de novembro a 14 de dezembro de 1963.
2 – RESULTADOS
2 – 1 – Número de furos – foram feitos seis (6) furos, três (3) em cada margem, nos locais assinalados na planta anexa ao presente Relatório.
2 – 2 Profundidade dos furos – dois furos, um cada margem, atingiram a profundidade de 36 m; verificada a uniformidade de constituição do terreno, fizemos mais quatro (4) furos de 10m, dois em cada margem e um de cada lado do furo de 36 m, para confirmação.
2 – 3 – Materiais encontrados – predominantemente, areia fina e média com algum seixo; nas 76 camadas superiores encontramos silte arenoso e alguma intrusão de argila.
2 – 4 – Resistência à penetração – geralmente baixa, preconizando-se a necessidade de estaqueamento.
Manaus, 16 de dezembro de 1964.
- Engº José Maria Botelho”
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Quanto ao Urubu, desde os tempos áureos da borracha êsse rio tem permitido a exploração, em seus furos e igarapés, de madeira de lei, da hévea, de copaíba e outros vegetais que têm aceitação no mercado nacional. a Mais tarde, no traçado da estrada o rio Urubu veio causar uma série de preocupações para os engenheiros, pois, por mais que se tenha desviado a direção da rodovia, ela é cortada duas vêzes por essa caudal, uma à altura do quilômetro 200 da estrada, onde a sua largura mede 217,50 metros e segunda à altura do quilômetro 264, já próximo a Itacoatiara, com a largura de 188,60 metros.
Os trabalhos preliminares da perfuração do subsolo, margens do Urubu já foram executados e o relatório, propósito, é do seguinte teor:
“1 – INTRODUÇÃO
1 – 1 – Finalidade das sondagens – determinar o perfil geológico e as resistências oferecidas à penetração de um barrilete amostrador padronizado, pelas diferentes camadas constitutivas do terreno, a fim de obter elementos para o cálculo das fundações da obra de arte supra mencionada.
1 – 2 – Processo utilizado – utilizamos o de percussão com circulação de água, utilizado pelos Institutos Tecnológicos brasileiros, consistindo de camisa de 2”, tubo de lavagem de 1”, barrilete amostrador de 1” padronizado, pêso de bater de 75 kg. e altura de queda de 75 cm.
1 – 3 – Normas adotadas – para o presente trabalho adotamos a Norma Brasileira NB-12R – Normas gerais de exploração de subsolo para fins de Engenharia de Fundações.
1 – 4 – Data de realização dos serviços – abril de 1964.
2 – RESULTADOS
2 – 1 –Número dez furos – Foram feitos dez 10 furos, nos locais assinalados na fôlha 02/32, anexa ao presente relatório.
2 – 2 – Profundidade dos furos – entre 10 e 16 metros, até encontrar terreno com resistência à penetração do barrilete em tôrno de 20 golpes para 30 cm, conforme pode ser verificado nas fôlhas 03 a 21, anexas ao presente relatório.
2 – 3 – Materiais encontrados – nos diversos furos predominam : argila, silte argiloso e areia fina,
2 – 4 – Resistência à penetração – De um modo geral, a resistência à penetração do barrilete amostrador é superior a 5 golpes/30 cm. mesmo nas camadas mais superficiais, aumentando êsse número para acima de 10 golpes a partir dos seis metros da bôca dos furos, conforme se pode ver nas fôlhas 22-32. (1)
3 – CONCLUSÕES
3 – 1 – Classificação do terreno – Argiloso nas primeiras camadas e arenoso predominan-o ancoradouro e rampas haverá necessidade de estaqueamento para servir de fundação e de muro de arrimo.
3 – 2 – Estaqueamento aconselhado – poderão ser usadas estacas de madeira de lei dimensionadas de acôrdo com o projeto das obras requeridas,
Belém, 8 de maio de 1964.
a) DURVAL PINHEIRO – Engenheiro Civil
Cart. Prof. 554/d – CREA 1.ª Região”.
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A travessia sôbre o rio Prêto e o rio Urubu, até que construídas as três pontes que permitam o livre acesso na estrada, vem sendo feita por meio de balsas.
FINALIDADES – O objetivo da abertura da Rodovia AM-1 não se restringe ao estabelecimento de mais um e rápido meio de comunicação entre a capital do Estado e o próspero município de Itacoatiara. Sua finalidade atinge as raias da economia regional, que constitui a causa preponderante para uma nova política econômica.
A AM-1 significa a grande tentativa do Estado para arrancar, do seu corpo, as malhas que ainda o prendem à desorganizada produção extrativa.
Dêsse empreendimento, decorrerá a fixação do homem nas terras centrais do Estado e, consequentemente, o aparecimento de novas colônias, cuja produção será destinada ao consumo da população de Manaus, daí sobrevindo maiores fontes de renda. Sem dúvida, a AM-1 possibilitará o nascimento de núcleos urbanos e centros atrativos, que serão visíveis, com o passar do tempo.
As emprêsas agrícolas, as fazendas, as plantações, de hévea e de outros vegetais, bem como a exploração das riquezas florestais e do subsolo existentes nessa zona, poderão contar com assistência técnica especializada, fato que acarretará fontes econômicas, interessando, diretamente aos particulares e ao Estado.
Acredita-se que o eixo rodoviário que se irradia de Manaus, dê margem ao surgimento de ramais e acessos, tendentes a avançar no vale amazônico, levando a civilização aos recantos mais longínquos do Estado.
Para que a grande iniciativa não fique apenas na construção da rodovia e visando a estimular ainda mais os ser e o objetivos do Govêrno no campo econômico e social do Amazonas, o Professor Arthur Reis fundou no quilômetro 134 a cidade “Tavares Bastos” e no quilômetro 180 a cidade “Visconde de Mauá”, testemunhos de uma nova meta a ser desencadeada, como futuro centro natural, de vida demográfica ao longo da região, portas abertas para o nascimento de parques industriais destinados, principalmen-te ao beneficiamento do arroz, da mandioca, de madeiras aproveitamento de óleos comestíveis, além de outras que possam, ali mesmo ter a sua fonte de abastecimento de matéria-prima.
DIFICULDADES PARA O “RUSH” FINAL – Quando a firma empreiteira “PAVINORTE”, devolveu as máquinas do DER-Am., que estavam em seu poder, verificou-se que as mesmas se achavam em péssimo estado de conservação. Na realidade, a maioria das máquinas estava sem condições para efetuar serviços pesados, como a limpeza da estrada e em nossa terraplenagem. À situação agravou-se quando se verificou que, em nossa praça, havia uma ausência absoluta de peças essenciais à sua recuperação.
Os técnicos do DER-Am., prevendo um colapso total nos serviços de limpeza e terraplenagem, solicitaram, através da Diretoria do Departamento, aquisição de novas máquinas para continuidade dos serviços, o que foi de imediato concretizado com autorização do Governador.
PRODUÇÃO E CRIAÇÕES – Há poucos meses, técnicos da Comissão de Desenvolvimento Econômico do Amazonas (CODEAMA) estiveram percorrendo a estrada mantendo entrevista com os colonos japoneses e outros moradores vizinhos, dêles colhendo os dados necessários para proceder a um estudo sôbre as culturas de mercado na AM-1.
Dêsse levantamento, que divulgamos em números a seguir, pode-se proceder a uma análise do que se cultiva nas terras que marginam a rodovia:

Produção, plantação e criação
Às informações dêsse quadro, juntamos os resultados que se seguem, obtidos no mês de junho do corrente ano de 1965, fornecidos pelo Sr. Massatoshi Takamura, quanto a produção, plantação e criação dos colonos japoneses:

POLÍCIA RODOVIÁRIA – Em dezembro de 1949 o Govêrno do Estado criou a Polícia Rodoviária, com a incumbência de auxiliar a Delegacia Especializada de Trânsito e ao mesmo tempo, prestar vigilância nas estradas em construção. Essa polícia, com um pelotão de 28 guardas, foi extinta a 17 de fevereiro de 1951.
“No dia 4 de agôsto de 1965, com vistas à inauguração da Manaus-Itacoatiara a 5 de setembro do mesmo ano, o Govêrno fêz publicar o Decreto n.º 239, criando no Departamento de Estradas de Rodagem, para funcionar junto à Delegacia de Trânsito, a Guarda Rodoviária (GR), com as seguintes e especiais atribuições:
“I – Zelar pela segurança do trânsito nas rodovias sob a jurisdição do DER-Am., de modo a coibir quaisquer transgressões previstas em lei ou regulamentos;
II – Exercer quaisquer completa vigilância para prevenir e reprimir quais atentados contra a integridade das rodovias, da sinalização e demais instalações localizadas na faixa de domínio;
III – Adotar, com a máxima presteza, as medidas adequadas para assegurar a livre circulação de veículos nas rodovias;
IV – Promover a imediata prestação de socorro às vítimas de acidentes nas rodovias;
V – Apreender animais que se encontrara ao longo das faixas de domínio e mantê-los sob custódia até sua restituição ao seu legítimo dono, uma vez cumpridas as formalidades legais;
VI – Auxiliar a apuração administrativa das causas dos acidentes ocorridos nas rodovias, quando houver danos a veículos do DER-Am. ou à estrada e suas obras de artes complementares;
VII – Auxiliar as autoridades competentes na diligência para a identificação ou captura de criminosos;
VIII – Atentar para a observância, pelos que construírem à margem das rodovias, dos preceitos legais e regulamentares relativos ao recuo e alinhamento de tais construções, tendo em vista a segurança do trânsito;
IX – Impor e arrecadar multas por infração a disposições legais ou regulamentares, assim como apreender documentos, retirar veículos de circulação e outras medidas essenciais para o desempenho de sua missão; e
X – Prestar informações ao público sôbre roteiros, trajetos, horários, distâncias, condições técnicas, estado de conservação e recursos disponíveis ao longo das rodovias; serviços regulares de transportes rodoviários de passageiros e de cargas; utilidades e trânsito em geral”.
Afinal, A Primeira Viagem
e a Inauguração
No dia 27 de julho dêste ano de 1965, com o objetivo inspecionar a estrada e obras públicas do Govêrno em Itacoatiara, o Governador Arthur Reis, fazendo-se acompanhar de sua Excelentíssima espôsa e de auxiliares de sua Administração, realizou a primeira viagem de ida e volta entre esta Capital e aquela cidade do Médio-Amazonas, tendo o trajeto de vinda sido realizado de noite.
Finalmente a 5 de setembro, data maior do Amazonas, rodovia Manaus-Itacoatiara foi aberta oficialmente ao tráfego de pessoas e de veículos. Realizara-se o velho sonho…
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- Deixamos de publicar as fôlhas citadas, por se tratar de informações altamente técnicas.
Acréscimo para ilustrar a inauguração da estrada Manaus-Itacoatiara

*O Professor Doutor José dos Santos Lins foi um importante educador e escritor amazonense, reconhecido por sua contribuição fundamental para o ensino e a literatura do Amazonas, especialmente na segunda metade do século XX.
Sua atuação se deu primariamente na docência, tendo sido consistentemente referido como Professor Doutor, indicando uma formação acadêmica de alto nível.
Sua obra mais notável é a “Seleta Literária do Amazonas”, publicada em 1966. Este livro se tornou um material didático essencial, servindo como uma importante compilação de textos para garantir que as novas gerações tivessem acesso e compreensão da história e da literatura regional do Amazonas.
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