Manaus, 25 de fevereiro de 2024

Meras palavras

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De vez em quando perco a paciência com certos vocábulos.

No momento tenho dois na mira: o tal de empoderamento, muito usado por certos setores bem pensantes, é o mais abominável, apesar do esforço social de quem o usa. Mas é um horrendo anglicismo, ou inglês mal traduzido. O outro é a tal de sustentabilidade, vocábulo metido a conceito capaz de transitar até mesmo na linguagem mais prostituída que é a da publicidade.

Empoderamento não merece respeito e precisa sumir do vocabulário das pessoas inteligentes. Já sustentabilidade tornou-se um jargão que parece tudo explicar. Para os usuários mais contumazes, a questão da sustentabilidade é crucial para a sobrevivência da Amazônia, já que o caminho que o processo de ocupação econômica está seguindo, nada restará da selva como hoje a conhecemos. No caso da Amazônia, que é um ecossistema muito volátil, embora guarde em seu meio a maior diversidade de espécies vivas que o planeta já teve, o avanço das frentes destrutivas tem configurado uma catástrofe, queimando e passando a motosserra em espécimes que jamais chegaremos a conhecer. O planeta terra tem cerca de quatro e meio bilhões de anos e pode seguir por mais cinco bilhões de anos. Os planetas do sistema solar são estéreis, somente nossa Terra criou organismos e fez evoluir vida inteligente. Mas nas próximas décadas do século 21, veremos desaparecer milhares, talvez milhões de espécies. E a maioria dos seres vivos, que se extinguirão, estão aqui na Amazônia que também será destruída tanto como selva quanto como ecossistema.

Mesmo que não se aceite visões pessimistas e apocalípticas, é preciso compreender que em pouco mais de uma geração este quadro se cumprirá. O fim da Amazônia arruinará o solo, mudará o clima em escala global e resultará na extinção mais radical de espécies que a que correu no período Cretáceo, sessenta e quatro milhões de anos atrás. Naquele passado remoto a colisão de um corpo celeste com a Terra, escureceu os céus e matou 50% das espécies existentes. Fica a pergunta: a vida vai resistir e sobreviver à doença capitalista, como sobreviveu ao impacto do asteroide? É neste quadro de iminente catástrofe que se inscreve a teoria do desenvolvimento sustentável. A primeira regra da sustentabilidade, seja no seu aspecto econômico, sociais ou ecológicos, é a que diz que o maio ambiente deve se manter através dos tempos com as mesmas características fundamentais.

Este parece ter sido o caso da relação estabelecida pelos povos indígenas com a Amazônia, mantendo o equilíbrio através das práticas de sistemas’ tradicionais que se desenvolveram em milênios de seleção natural. Infelizmente não há dados para se julgar o quanto o meio ambiente mudou com a intervenção indígena, mas é possível inferir que o meio ambiente se ajustou sem traumas ao manejo das sociedades tribais. É certo que o meio ambiente tem sua dinâmica própria e se transforma mesmo sem a intervenção humana, mas no caso da Amazônia, nos dias de hoje, há muito poucos lugares que não foram desequilibrados pela pressão das frentes econômicas, transformando uma relação harmônica primordial numa rotina de agressões que comprometem as características fundamentais da região. O que leva à segunda regra que enuncia uma taxa de uso dos recursos naturais renováveis abaixo de sua taxa de renovação. O problema desta segunda regra é que ela esbarra entre a natural demanda das sociedades humanas e a lógica do sistema capitalista, que nada tem a ver com demanda natural. No modo de produção vigente os cálculos da produção, da fabricação e comercialização dos produtos não entram os valores dos recursos naturais, na mesma proporção dos insumos e do capital variável. Num quadro econômico como o atual, apelemos ao empoderamento …

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