Nota de esclarecimento: Em 2 de fevereiro de 2026, publiquei, no Blog do Francisco, um texto denominado “Tristes Trópicos: Nossa Universidade Usurpada – Idiossincrasias Predatórias”, onde apresentei, por um lado, a minha satisfação com a criação da Universidade Federal Indígena e, por outro, a minha incredulidade com a instalação de sua sede em Brasília. Por meio de convite, em 5 de fevereiro, o jornalista Evaldo Ferreira publicou uma entrevista comigo sobre esta mesma matéria, no Caderno B do Jornal do Commercio, com a seguinte chamada: “Uma afronta aos cidadãos amazônicos”. Devido às limitações do espaço físico disponível para esse tipo de publicação de interesse público, parte significativa de minha entrevista foi omitida. Ressalto que a simplificação do conteúdo da matéria jornalística não prejudicou sua compreensão, mas limitou diversos argumentos que dão mais integração e consistência técnica e política ao seu alcance explicativo. Por essa razão e também pelo novo convite do amigo Francisco Gomes, estou submetendo, em 5 de fevereiro, a versão completa da entrevista, para ser republicada em seu blog, com o nome de “Nossa Universidade Indígena Usurpada II”.
Texto completo de minha entrevista publicada no Caderno B do Jornal do Commercio em 5 de fevereiro de 2026.
1 – Em agosto de 2025, a Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação do Brasil coordenou uma reunião do grupo de trabalho que construirá a proposta de criação e implantação da primeira Universidade Federal Indígena em Brasília. Essa não seria mais uma das ideias do atual governo para ‘engalobar’ minorias? Esclarecerei a importância da criação da Universidade Indígena e porque é inoportuno a implantação de sua sede em Brasília, em detrimento da Amazônia. Mas, sua pergunta precisa ser esclarecida, pois sua interpretação equivocada potencializa o assédio e o racismo contra os povos originários. Certamente, ela será o fio condutor dessa entrevista. A criação da Universidade Federal Indígena não se trata de uma questão econômica nem tão pouco jurídica. Apresenta-se como uma dívida política centenária do estado nacional com os povos originários. Essa universidade não constitui um benefício nem um presente aos povos originários. Interessante constatar que a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a mais antiga do Brasil, sediada no coração da Amazônia, não incorporou as culturas e as demandas indígenas em sua instalação inicial. Isso também vale para as demais universidades brasileiras. Mas lembro que, posteriormente, a própria UFAM desenvolveu, sem sucesso, inúmeros projetos e programas voltados para sua criação, por falta de apoio do governo federal. Pode-se dizer que a gênese e a matriz organizativa da educação superior brasileira são racistas e excludentes. Por um lado, a instalação dessa universidade indígena apresenta-se, ainda que tardiamente, como o cumprimento de um preceito constitucional brasileiro que, pela primeira vez em nossa história, está sendo promulgado pelo governo federal. Por outro lado, este tipo de educação é construído por meio de abordagens e metodologias diferenciadas, baseadas nas linguagens, práticas e culturas complexas desses povos. O entrelaçamento do saber indígena com o conhecimento científico, voltado à solução de problemas dirigidos ao aperfeiçoamento das pessoas e da humanidade e seus respectivos ambientes, será seu principal desafio. A instalação da Universidade Indígena inaugura a política pública educacional brasileira subtraída dos direitos cívicos desses povos pelos governos anteriores.
O caso da Amazônia é ilustrativo. Registro que: “Antes, éramos mais de 1000 povos e 7 milhões de pessoas livres na Amazônia, resistindo – com lanças, arcos e flechas, zarabatanas, tacapes, fundas e transcendências – às fúrias e às guerras europeias, num mundo complexo e desconhecido para eles. Após três séculos consecutivos, passamos de maioria à minoria, com nossas culturas e ambientes contaminados pela ambição, as doenças físicas e morais, a exploração econômica e social, e a desespiritualização de nossos povos submetidos à triste história da ‘Era dos Descobrimentos’ de Novos Mundos. Que já tinham existências próprias e floresciam com fartura, alegria, musicalidade e integração com a natureza. Hoje somos cerca de 870 mil parentes espalhados por toda a Amazônia brasileira, ainda resistindo às investidas sanguinárias sobre nossas culturas e organizações, em nome do progresso e da defesa do estado nacional. Nossas 500 bilhões de árvores e 2000 rios, inventados e cultivados pelos nossos ancestrais, continuam sendo depreciados pela ambição e arrogância dos políticos e do mercado. Insistem num tipo de desenvolvimento que deprecia a natureza e põe o futuro da humanidade em risco de extinção e decadência moral.”
Lembro que os povos originários domesticaram as plantas e os animais, construíram as tecnologias navais, catalogaram as floras e as faunas e inventaram o uso farmacológico das plantas. Elaboraram as primeiras linguagens da astronomia e dos climas, conceberam formas de adaptabilidades integradas às naturezas e descobriram métodos alternativos ao uso sustentável da natureza. Eles também criaram metodologias para educar as crianças e os jovens numa perspectiva coletivista e solidária, enfim, construíram várias enciclopédias de inovações que constituem as sociedades do saber. Mas, a pós-modernidade suscitou novos problemas complexos à humanidade. Impôs a necessidade de ressignificar os fundamentos, sentidos e mecanismos operacionais dos modelos de desenvolvimento econômico e do conceito de cidadania. Incrustou a mudança climática, a injustiça ambiental, as guerras e a miséria social e econômica nos projetos nacionais. Este quadro civilizatório incorporou, definitivamente, novas representações simbólicas às políticas de educação, artes, ciência e educação, às formas de organização do trabalho e, principalmente, à proteção social e ecológica do planeta. Oferece possibilidades de comparações entre antes e depois, em todas as classes sociais e econômicas. Possibilita identificar nossos hábitos, preferências, crenças e afinidades ideológicas. Mostra também a origem da miséria e das riquezas materiais. Reafirma o tempo presente. Contribui para a emergência de uma nova era civilizatória.
A integração sistêmica entre indivíduo, processos criativos e produtivos e a filosofia ecológica marca esta era da humanidade que propõe novas formas de recomposições civilizatórias. Cenários que podem se desdobrar em rupturas ou vice-versa, mas, certamente, comprometidos com a valorização da vida em suas diferentes classes e condições sociais, e na proteção dos ambientes naturais. Com alteridade, imaginação e criatividade, os povos indígenas da Amazônia têm nos ensinado a resistir e sobreviver nos longos períodos da história das civilizações marcados por guerras e violências coloniais. Passaram-se os cacicados, os reinados, as monarquias e as ditaduras, substituídas pelas repúblicas e democracias, e a sua destruição continua sendo intensificada. Uma guerra de ocupação e uso depreciativo, lenta e atroz, contra os seus povos e ambientes naturais. Eles continuam construindo resiliências e novas formas de sobrevivência voltadas à proteção de suas culturas e territórios. Sem esta resistência obstinada e heroica, não haveria Amazônia. Hoje, o sucesso pleno dessas iniciativas depende, também, do nosso envolvimento com a sua sustentabilidade cultural e ecológica. A hipocrisia, a estupidez e a irresponsabilidade histórica do capitalismo predatório continuam conspirando contra sua perpetuidade. Os assassinatos recorrentes de suas lideranças indígenas, as labaredas de ódio que consomem suas florestas, enviando-as em forma de cinzas e aerossóis para outros povos, e os mercúrios, fungicidas e germicidas que envenenam suas águas, floras e faunas continuam destruindo-a irreversivelmente.
Não há vacinas para imunizar e proteger a Amazônia das barbaridades do capitalismo predatório. O seu desenvolvimento sustentável é um pressuposto à sua sobrevivência numa conjuntura política de grandes incertezas e riscos. Este tipo de desenvolvimento apresentará novos caminhos para ela, para o Brasil e para a humanidade. Neste cenário, a implantação da Universidade Indígena na Amazônia, para a construção de seu desenvolvimento sustentável, baseado em suas culturas e ambientes naturais, constitui um desafio complexo que precisa ser materializado.
Certamente, a Universidade Federal Indígena abarcará temáticas do tipo “natureza e cultura”, “educação e ciência e tecnologia diferenciadas”, “inovações e processos produtivos sustentáveis”, “economias sustentáveis e ciclos da natureza”, “territórios e povos”, “preservação e desmatamento”, e “transcendências e práticas indígenas”. Estas temáticas se desdobram em pelo menos 5 eixos estruturantes que guiarão a materialização de seu funcionamento acadêmico. Destaque para “conhecimento indígena e políticas públicas”, “sociedades do saber e etnociências”, “cultura, natureza e artes indígenas”, “desenvolvimento sustentável e economia indígena”, e “educação indígena, ciência e tecnologia e inovação”. Por sua vez, propõe-se que estes eixos estruturantes movimentem diversos programas interculturais, tais como “formação de professores indígenas e cultura, difusão e comunicação científica”, “tecnologias das florestas e das águas e novos materiais sustentáveis”, “novas tecnologias e processos de gestão sustentáveis”, “políticas públicas, artes e desenvolvimento sustentável”, entre outros. Sugere-se que seu projeto básico também apresente um programa para implantar o curso de licenciatura plena em educação indígena e ensino de ciências.
2 – O sr. não acha que as universidades federais têm problemas mais sérios a serem resolvidos do que a criação de uma nova universidade federal? São duas questões diferentes, mas com intersecções técnicas e políticas. As Universidades Federais apresentam muitos problemas estruturais e sistêmicos, a maioria decorrente da política de educação superior do governo anterior, que deixou um rastro de destruição e ruína nas mesmas. Destaco os laboratórios de pesquisa e ensino sucateados, a infraestrutura física fragilizada e a necessidade de um apoio sistemático às demandas dos discentes. Enfatizo a urgência de recomposição do quadro de técnicos administrativos e da carreira de professor, a retomada de investimentos em áreas de conhecimento estratégicas ao desenvolvimento das regiões e do Brasil, em especial nos programas de pós-graduação, entre outras exigências secundárias. Ressalto que o futuro próspero do Brasil é dependente da qualidade e do alcance social de sua educação superior, num contexto, como divulgado recentemente pela imprensa e mídia, no qual a educação pública se apresenta melhor posicionada em todos os níveis de formação técnica. Isso é um fato que não desqualifica o ensino privado, ao contrário, mostra a necessidade deste tipo de ensino construir novas formas de organização e metodologias para seu contínuo aperfeiçoamento. Portanto, a solução efetiva desse conjunto de problemas técnicos exige altos investimentos públicos e privados, a curto e médio prazos. Projeto um período de 20 anos contínuos de investimentos para seu sucesso pleno. Mas, este quadro de referência não impede a criação da Universidade Federal do Amazonas. Como apresentado na primeira resposta, a instalação dessa universidade é uma necessidade histórica. Rapidamente ela se integrará ao processo de desenvolvimento das regiões e do Brasil, nessa Era do Antropoceno. Pode-se dizer que a educação, em todos os níveis, é cara e dispendiosa, mas necessária para o Brasil melhorar os seus indicadores de qualidade de vida. Pode-se afirmar que mais caros e desastrosos são os produtos e os processos decorrentes da ignorância, do atraso científico e da miséria social e econômica.
3 – Não seria mais fácil, e menos dispendioso, criar cursos específicos de estudos indígenas nas atuais universidades federais?
Certamente, mas esses cursos, embora importantes, não têm a potência e o alcance de transformação social e econômica irradiados por uma instituição como a Universidade Federal Indígena.
4 – E o que dizer da criação de uma universidade indígena em Brasília? Seria mais um gigantesco cabide de empregos? Este é o ponto central de nossa discordância política. Mais de 50% da população indígena do Brasil encontra-se na Amazônia, principal referência ecológica do planeta, em superfície contígua. Por outro lado, o Estado do Amazonas é morada de cerca de 70 povos indígenas – totalizando mais de 490 mil indivíduos, 30% da população indígena brasileira -, mais de 1000 rios e dezenas de milhares de igarapés. Detém em torno de 30% da cobertura florestal da Pan-Amazônia. Se fosse um país, ele seria a nação de maior potência ecológica do planeta, em superfície sólida contígua, além de sua natureza inter e pluricultural. Portanto, ele possui as melhores características e condições de sediar a primeira Universidade Federal Indígena do Brasil. Certamente, Brasília seria o lugar ideal para sediar a primeira Universidade para os Políticos Brasileiros, se a instalação desse tipo de universidade fosse promulgada pelo Congresso Nacional. A experiência acumulada na Amazônia recomenda que a Universidade Federal Indígena seja multicampi e comece atuando em áreas de conhecimento estratégicas às culturas desses povos, questão que pode ser esclarecida em outra oportunidade. Finalmente, posso afirmar que nenhuma universidade pública se apresenta como um local para cabide de emprego. As funções e atividades profissionais nessas instituições são tão técnicas e específicas que eliminam esse tipo de contratação por apadrinhamento. Até mesmo porque o ingresso no serviço público federal brasileiro, necessariamente, se concretiza por meio de concurso público.
5 – Com as sociedades indígenas, cada vez mais, interagindo com a sociedade dos ‘brancos’, qual a necessidade de se criar uma universidade específica para eles? Parte dessa questão foi respondida na primeira pergunta. Mas, esclareço que não existe sociedade dos brancos. Tratando-se da Amazônia, lembro que antes só existiam os povos indígenas, desde os Andes até o oceano Atlântico. Antes, muito antes, só existiam os povos indígenas, dizimados para a autoafirmação e a hegemonia da brasilidade branca, racista e refém de sua elite arrogante, prisioneira de interesses mesquinhos. Antes só existiam os povos indígenas, hoje subjugados pelo nacionalismo globalizado, produtor de novos consumos e infortúnios, à custa da violência institucional e da destruição do planeta e de suas antropologias. Finalmente, antes só existiam os povos indígenas, matrizes de nossas sabedorias e fontes de tradições das sustentabilidades inclusivas e compartilhadas, enraizadas na filosofia do ser, estar e se relacionar, filha de suas enciclopédias e sociedade do saber. Na verdade, a civilização ocidental, certamente, estaria num patamar de desenvolvimento físico e espiritual mais qualificado e avançado se as Universidades Indígenas tivessem sido criadas em tempos remotos.
6 – Como o sr. vê a atual situação das universidades federais da Amazônia? Esta questão foi respondida na segunda pergunta. Mas, posso afirmar que, apesar das dificuldades, há muitas iniciativas em curso com excelentes resultados. Ilustro com as últimas avaliações institucionais dos seus cursos de graduação e dos seus programas de pós-graduação que as colocam no mesmo patamar de excelência das melhores instituições acadêmicas do Brasil.
7 – O Amazonas, a Amazônia, continuam sendo o quintal do Brasil? O Amazonas e a Amazônia não são o quintal do Brasil. Politicamente, são tratados como sendo. Ilustro com a tragédia da Covid-19 na região, em especial no Amazonas, a inexistência de um modelo de desenvolvimento consistente e a fragilidade das políticas públicas na região. Em mesmo grau de gravidade têm-se o isolamento e o abandono social e econômico de suas comunidades interioranas, em especial da conexão da capital amazonense com o Brasil, por meio da BR-319 que, por décadas, permanece inacessível ao tráfego seguro e contínuo. Mas, registro que sem o desenvolvimento sustentável da Amazônia, o Brasil não tem como alcançar o ranking dos países desenvolvidos. Isto é, a Amazônia é o passaporte do Brasil para sua entrada no rol dos países desenvolvidos, nessa era de transição para o mundo sustentável. As Universidades Indígenas são estratégicas nesse projeto político de longo alcance. Pode-se afirmar que a proposta de implantação da sede da Universidade Indígena em Brasília apresenta-se como um escárnio aos povos originários e uma afronta cívica aos cidadãos amazônicos. Nossa Universidade Indígena está sendo usurpada. Quando o Ministério da Educação do Brasil vai implantá-la na Amazônia? O silêncio das instituições acadêmicas, dos movimentos sociais, da sociedade civil, dos intelectuais, dos responsáveis pelos programas de educação superior, do judiciário, das governanças e das lideranças políticas do Estado do Amazonas e da Amazônia colabora para manter nossa região subalterna aos interesses políticos externos. Fechadas as portas do diálogo institucional com o Ministério da Educação, urge o debate nacional e a politização dessa questão de interesse amazônico.
Acorda, Amazônia! Trata-se de mais um sintoma doentio da democracia brasileira, um golpe político rasteiro e mesquinho contra os povos amazônicos e os cidadãos brasileiros. Acorrentar a Universidade Indígena à burocracia e às artimanhas políticas do Ministério da Educação do Brasil e de segmentos acadêmicos disciplinares exclusivistas sediados nas Universidades de Grife é matá-la precocemente. Infelizmente, mais uma vez, o governo federal comporta-se como uma arma e adversário da Amazônia.
Marcílio de Freitas / Manaus, 5 de fevereiro de 2026
Obs: O autor tem mais de uma centena de livros e artigos sobre a Amazônia. Destaque para “Amazônia: Vida, Utopias e Esperanças”. Ed Dialética”, SP, 2025; “Socioantropologia das Técnicas e Ambientes”. Ed Dialética, SP, 2025; “Who Will Save Amazonia? World heritage or full destruction”. Nova Science Publishers, NY, 2021; “The Future of Amazonia in Brazil: A worldwide tragedy”. Peter Lang Publishing, NY, 2020.
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