Manaus, 25 de fevereiro de 2024

O cinema da minha infância (2)

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Na verdade o Cinema do Peruano tinha um nome: Cine Geni.

Geni era como se chamava uma das filhas do Peruano. Acho que a mais velha. De certeza só tenho que era a mais bonita. Geni foi aquela que despertou em muitos dos meninos o desejo. Não digo nem de provar, mas de, pelo menos, se aproximar do fruto proibido. Digo também “dos meninos” mas querendo me referir já àqueles mais taludinhos entre nós.

Pois bem, Geni, não era uma flor; era um jardim inteiro, com todas as fragrâncias inebriantes, com todos os tons azuis do amor, atraindo sedentos colibris. Todos queriam Geni. Chegou a ponto de alguns de nós já nem mais ligarem para os filmes.  O que queriam mesmo era ter uma chance de limpar a vista, mesmo que fosse de longe. E alguns, tendo mais sorte que outros, até conseguiam um “alô”, de perto. E quando isso acontecia era como se tivessem marcado um gol. Ficavam se gabando a semana inteira na sala de aula. E os demais, menos sortudos, desdenhavam: “um cumprimentozinho de nada!” Na verdade, a menina demonstrava educação. Nada, além disso.

– Ela falou comigo!

– Ela riu pra mim!

– Ela acenou um rápido adeus… foi bem rápido, mas acenou…

Numa sessão de domingo a tarde, um desses mais velhos (que não vou dizer o nome, por questões óbvias) perdeu a carteira de estudante na sala de cinema. Na segunda-feira, bem cedo voltou ao local, imaginando que alguém tivesse encontrado o documento e entregue à administração. Pois bem, foi isso mesmo que aconteceu. A carteira de estudante fora deixada na bilheteria e ficara ali aguardando que o titular do documento comparecesse para recuperá-lo. E sabem vocês quem de corpo presente fez o ritual da devolução? Geni. Ela mesma. Ali, igual a uma ninfa, com as mãozinhas delicadas segurando com toda elegância a carteira do colega, que não sabia se pegava a carteira de volta ou se aproveitava para ficar o mais tempo que pudesse secando a menina.

– É isso que você procura? – a voz encantadora de Geni estava soando como música erudita para os ouvidos do colega bobão que mal conhecia um dó menor.

Um diálogo poderia até ser imaginado aqui, mais ou menos assim:

– É isso que você procura? (ela, sorridente)

– O que você disse? (ele, de queixo caído)

– Eu perguntei se é isso que você veio buscar? Sua carteira de estudante. Está aqui. (ela, sustentando o sorriso, e já percebendo a atrapalhada dele)

– Ah! É… Tá bom! Obrigado! (ele, gaguejando, sem pronunciar direito as palavras, e absolutamente pálido)

– De nada (ela, respondendo e continuando a sorrir, mas, agora, não era por educação, e sim por divertimento, rindo da cara do moleque)

– Muito obrigado mesmo! (ele, humildemente agradecido, muito mais pela presença dela do que propriamente pela carteira recuperada).

– De nada mesmo! (ela, já irônica, já segurando a gargalhada que estava a ponto de explodir ante à cena cômica protagonizada pelo garoto).

Também não era para menos. Aquelas mãozinhas puras, branquinhas, uma fofurinha de mão, segurando a sua carteira de estudante, praticamente alisando o seu retrato 3 x 4, era pra deixar qualquer um moleque aparvalhado, meio tonto mesmo.

A notícia se espalhou entre os meninos. Era mais que um simples extravio de documento. Perder a carteira no cinema era uma aventura invejável, foi o que todos pensaram.  Uma experiência que todos desejariam e mereciam passar.  E foi o que se tentou fazer na semana seguinte.

Dois meninos perderam a carteira no cinema. Mas o episódio da recuperação, com Geni devolvendo a carteira não se repetiu. Frustração total para os perdedores. Na outra semana, foram cinco os perdedores de carteira. E, nessa altura, já se organizara uma aposta para ver quem teria a sorte de receber a carteira das mãos de Geni. Mas, qual nada! Quem entregou a carteira foi a mãe da moça que, por obra de um espírito de porco, ficou sabendo da aposta e da paqueração. Só que, em vez de entregar a carteira aos respectivos titulares, a mãe da requisitada decidiu entregar os documentos à Diretora do colégio. Uma confusão dos diabos, com a autoridade escolar chamando os pais daqueles cinco descuidados. O carão inesquecível. O compromisso assumido quanto à guarda de documentos.  O afastamento voluntário de muitos de nós, por alguns dias do cinema, com vergonha de encarar Geni, que deve ter morrido de rir daqueles imbecis.

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