Manaus, 25 de fevereiro de 2024

O Pomar do Casarão

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Para J R Lopes

Após a escola, os meninos iam conversar na calçada em frente ao Casarão da madrinha de Dama. O limite entre eles e o Casarão era a calçada. Até podiam sentar nela para conversar. Só não podiam passar dali. Dama dizia que não era permitido entrar nem no Casarão e nem no pomar. Ele, não dava explicações claras para a tal proibição. Mas sabia que o impedimento atiçava a imaginação dos meninos. Um dos garotos, sem citar nomes, chegou um dia para Dama e lhe contou que dois colegas estariam planejando pular o muro, à noite, por trás do terreno. Dama mandou um aviso, em tom misterioso:

– Eles é que sabem se aguentam!  Ainda mais à noite!

Dama – que de anjo bom não tinha nada – se divertia instigando a curiosidade dos colegas.  Garantia de cara séria que tinha ouvido da madrinha e de antigos freqüentadores do Casarão muitas estórias sobre certos acontecimentos extraordinários.

– Que acontecimentos, Dama?

Era a deixa. De repente, os meninos eram só platéia atenciosa e interessada. Dama, tomando a palavra, num tom solene de homilia, forçando silêncio, não permitindo interferência (mas quem disse que alguém ousaria interferir?), contava causos sobre o pomar do Casarão.

Às vezes, numa estória repetida, aparecia uma novidade como aquela sobre certo pé de ata que deu num ano duas graviolas enormes, uma de cada lado da árvore, cujo peso abriu a fruteira ao meio e tiveram um trabalhão para restaurar o tronco amarrando com esparadrapo, e pondo forquilhas para sustentação da planta, até a colheita das frutas. Pobres das atas daquele ano. As poucas que conseguiram vingar esturricaram sem maturar. Não prestou nenhuma, nem pra remédio. A madrinha explicou que as graviolas haviam puxado a força da planta e mataram as pobres atinhas, desapropriando-lhes a seiva. Se alguém lembrava que, na última vez, não havia o detalhe do esparadrapo, Dama não se inquietava. Esclarecia que o material utilizado na amarração não era tão importante. O que mesmo importava era que a planta fora salva, fosse por ter sido amarrada com esparadrapo, com fio de náilon, com envira de cacaueiro, ou corda de manilha. E Dama completava:

– A ateira foi salva, tanto que no ano seguinte, quando todos esperavam novas graviolas, quem foi que disse que tu vieste? A fruteira carregou mesmo foi de atas, até nem poder mais, maiores e mais saborosas. Graviolas nunca mais!

– E o caso da jaqueira, Dama?

– Essa eu só conto amanhã, chega por hoje. Onde já se viu duas estórias no mesmo dia?

E a reunião acaba, com os meninos saindo cada um no rumo de casa, imaginando coisas, comentando o causo, ao mesmo tempo acreditando e desacreditando do contador.

– Vocês viram que a estória sempre parece ser a mesma, porém não é a mesma? Esse detalhe do esparadrapo de hoje, que também podia ser fio de náilon, envira de cacaueiro, ou corda de manilha. Vocês não acham que faz diferença ser uma coisa ou outra?

Uns achavam que sim, outros achavam que não.

E a estória da jaqueira, aquela que não podia ser cutucada se a fruta não tivesse madura?

– Se a pessoa cutucasse e a fruta não estivesse madura? A fruta caía na hora, mas na forma de abiu e não de jaca – assegurava Dama, com uma firmeza de orador comunista.

E se alguém insistisse:

– Essa jaqueira existiu mesmo, Dama?

– Quem não acredita em mim, meu amigo não é, dizia Dama.

Era o bastante para baixar o moral do ousadinho. Na verdade, ninguém queria era perder a confiança de Dama, pois as vantagens da amizade estavam acima de qualquer posição de acreditar ou não nas suas historíolas.

Quando os meninos voltavam a falar sobre alguma remota  possibilidade de ingressar no terreno do Casarão, Dama tinha sempre uma resposta pronta.

– Dama, a gente pode entrar?

– Não.

– Por que não, Dama?

– Porque tem cachorro…

– Mas, Dama, se tem cachorro, como a gente não escuta o latido dele?

– É cachorro ensinado.

Ou então:

– Dama, já tem manga madura?

– Ainda não.

– Mas como que não tem, Dama, se dá pra ver daqui de fora algumas amarelas..

– É qualidade de manga que só tem no Pará, seu cabeçudo, que fica primeiramente amarela, e vai mudando de cor, amadurecendo até ficar rosa ou vermelha, que é quando pode ser colhida. Só tem um pé por aqui que é esse aí.

Certa feita, Dama levou para a escola umas goiabas brancas, daquelas graúdas. Goiaba branca, embora fruta rara nas redondezas, todos os meninos tinham idéia do gosto, pois não deixava de ser goiaba, como outra qualquer. Mas marcado mesmo foi o dia em que Dama, na hora da merenda, abriu uma lata diante dos colegas e dela retirou uma fatia de fruta de cor alaranjada, exibindo bem alto para que todos vissem, como se fosse consagrá-la, igualmente como o padre faz com a hóstia. Os meninos se aproximaram dele, fazendo um círculo em volta de Dama, com os olhos pregados no pedaço da fruta suspensa para apreciação. Uns pensaram que era manga rosa.

– Não, não é manga rosa, explicou Dama (rindo dos bobões).

– Então, que fruta é, Dama?

– Adivinha!

Como ninguém adivinhou, Dama revelou:

– É abricó, seus bocós. Querem provar?

Que pergunta? Claro que todos queriam provar. Rapidamente fizeram fila para receber um pedacinho da fruta, que Dama ia distribuindo, um por vez.

– Que gosto tem, Dama?

– Prova aí, seu esfomeado! – falava Dama, observando a cara de cada um daqueles ignorantes de fruta.

Um deles achou que tinha mesmo sabor de manga. Outro que tinha gostinho parecido com banana pacovão assada. Alguém, querendo passar por entendido, disse que tinha gosto de pêssego. Como poucos conheciam pêssego, descartaram essa opinião de ser votada.

Afinal, a discussão não era por aprovar ou reprovar, pois todos acabaram achando gostoso. Embora diferente. E Dama teve que suportar chorosos pedidos para trazer mais no dia seguinte.

– Não tem mais… acabou a safra… essa era a última… agora só no ano que vem… – foi a resposta sádica de Dama.

A partir do dia do abricó, o quintal do Casarão, de tantos mistérios, ganhou mais destaque no imaginário de todos. Virou uma espécie de Pomar do Édem, o lugar prometido aos meninos de toda a Terra, cheio de fruteiras conhecidas e estranhas. Frutas doces, outras travosas ou azedas, mas cada uma com seu gosto de fruta. Só não entendiam porque o pomar não estava aberto a todos. Lugar sem placa de aviso de entrada proibida, mas ninguém podia entrar a não ser ele, o afilhado da casa. Lugar sem ameaça de cachorro – o tal cachorro ensinado era uma invenção de Dama, como todos perceberam – porém, deveria haver outras ameaças talvez mais perigosas. Um lugar sem cerca de arame farpado à espera de costa de menino para lanhar. Embora eles não vissem a tal cerca de farpas, ela existia, invisível, prontinha para machucar o atrevido invasor. Quem se arriscaria? O jeito era os meninos contarem com o intercessor. Ele mesmo, Dama, o apadrinhado, com privilégio de entrada franca, na hora que quisesse.

– Bando de interesseiros! – Dama ria que só, olhando na cara dos bestas.

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Uma resposta

  1. Que belo texto amigo!… Memórias de um tempo na marcha em busca de uma alternância democrática para a terra compartilhada com o pessoal de teatro como Paulo Glória, Bosco & Cia. E claro você na interpretação musical com a bagagem cultural que adquiriu nos festivais.

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