Continuação…
Entrevista sobre
“As Náiades e a Mãe-D’água”1
Quando cheguei a Manaus, aos 18 anos, vindo do interior da Amazônia, trazia a preocupação de praticar e estudar a poesia do ponto de vista da cultura da região. Eu já alimentava no espírito que a poesia era uma forma de expressão do homem e a natureza, neste caso, o homem e a natureza amazônicos. A vida nos rios e na floresta era o que eu conhecia. Mas eu não via isso como uma provação do inferno verde de Rangel ou da última página do Gênesis de Euclides. De tudo o que eu já tinha visto, guardava uma visão pessimista da realidade, até examinar detidamente a questão e concluir de que viver na Amazônia é um privilégio. Na beira do rio não existe fome por falta de comida, mas muita fome de conhecimento. As escolas humildes plantadas à beira dos rios viviam sempre cheias de crianças, desejosas de aprender a ler e escrever. Assim falava a minha vivência quando cheguei a Manaus, pois me alfabetizara em uma dessas escolas.
– Num primeiro momento verifiquei que havia já uma poética dedicada a expressar a força dessa paisagem. Pelo menos dois dos nossos grandes nomes vinham dedicando toda a vida à expressão dessa cultura, Violeta Branca em “Ritmos de inquieta Alegria” e Álvaro Maia, em “Buzina dos Paranás”.
– Mas no primeiro contato com os jovens meus colegas já reunidos no Movimento Madrugada, observei falta de entusiasmo em relação à poesia desses autores. Estavam preocupados com uma expressão transcendental e com o conhecimento da poesia em outros grandes centros intelectuais do planeta. Felizmente, à medida que avançávamos nos debates e na realização do poema, íamos aderindo à poética marcada com os motivos da Amazônia. Muito desses autores voltou-se para os problemas da terra e de sua gente, questões que exponho nesse livro.
– Dois nomes, contudo, influíram entre os jovens madrugadores na concepção da terra como objeto de poema. E, por isso, considero-os como os anunciadores do Movimento Madrugada. Os poetas Sebastião Norões e Thiago de Mello. Norões convivia com a gente em nossos encontros embaixo do mulateiro da Praça Heliodoro Balbi; Thiago de Mello, também, ficava entre nós, quando vinha à Manaus antes de radicar-se definitivamente na cidade, para abraçar os seus íntimos, os pais, os irmãos, os amigos, de volta de suas longas e demoradas viagens pelo mundo.
– Outro dado significativo observado no processo é que os poetas da atualidade de Manaus estão cada vez mais comprometidos com os motivos da Amazônia, quer a região vivida na beira dos rios e no meio da floresta, quer a Amazônia plantada na vida de Manaus. Com isso recrudesce a preocupação dos poetas com a vida na cidade e vêm à tona as emoções sobre a situação social da vida urbana, fato verificado, por exemplo, em Aldisio Filgueiras e Tenório Telles. Aldisio nascido em Manaus e, Tenório, no interior. Ambos preocupados com a vida em Manaus.
– Esforço-me na aproximação dos afazeres da poesia com as tendências notadas na sociedade. Faço uma justaposição da ação poética e dos compromissos do homem com o meio ambiente, a situação dos serviços urbanos e, no caso de Manaus, a responsabilidade do poeta com a despoluição dos mais de 200 rios que cortam a cidade de ponta a ponta. Tenho certeza de que a ação poética pode contribuir para a melhoria da vida na cidade. Tal e qual como contribuiu a ação do poeta Álvaro Maia na valorização do caboclo amazonense e de José Lindoso, ao criar o Hino do Amazonas e levar para o interior os bens produzidos pelo desenvolvimento de Manaus.
– Mas isso não é novidade. O poeta romano Virgílio já demonstrara na prática o poder do poema na mudança da condição de vida ao escrever “As geórgicas”. Os campos estavam sendo abandonados pelas pessoas que se mudavam para gozar as benesses da cidade. O poeta não prega o desamor a Roma, como não deixa de celebrar as virtudes das atividades no campo, sem o que a vida urbana se esmaece, no mínimo com a falta de alimentos produzidos no campo.
– Espero, com esse livro, situar-me entre as pessoas que estudam e debatem o assunto, os motivos da Amazônia na poesia, nos meios intelectuais e na Universidade, oferecendo a minha modesta contribuição.
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1 Esta entrevista foi publicada no portal AMAZONAMAZONIA, dirigido pelo jornalista e escritor Wilson Nogueira, no dia 27 de dezembro de 2020.
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